Bruges-a-Morta: Capítulo XIII
Capítulo XIII
Jane aproveitou o alerta.
Com seu faro de aventureira, compreendera naquele dia que poder havia conquistado sobre aquele homem, todo inoculado por ela, maleável a seu bel-prazer.
Com algumas palavras, tranquilizara-o inteiramente, reconquistara-o, voltara a aparecer ilesa aos seus olhos, entronizada de novo. Então calculou que, em sua idade, carregado de longos desgostos, doente como estava, já tão mudado nos últimos meses, Hugues não viveria por muito tempo. Ora, passava por rico. Era estrangeiro e só naquela cidade, sem conhecer ninguém. Que loucura faria se deixasse escapar aquela herança que lhe seria tão fácil captar.
Jane se moderou um pouco, espaçou as saídas, tornou-as plausíveis, só se arriscou com prudência.
Viera-lhe o desejo de ir um dia à casa de Hugues, aquela vasta e antiga casa do Cais do Rosário, de aparência abastada, com cortinas de renda impenetráveis, tatuagem de geada aderente às vidraças, que não deixavam suspeitar coisa alguma do interior.
Jane bem queria penetrar ali, diagnosticar, pelo luxo, sua fortuna provável, avaliar a mobília, as pratarias, as joias, tudo o que cobiçava, fazer um inventário mental pelo qual se decidiria.
Mas Hugues jamais consentira em recebê-la.
Jane tornou-se carinhosa. Era como um recomeço entre eles, uma bonança rósea e morna. Justamente se oferecia uma ocasião favorável: estavam em maio; na segunda-feira seguinte ocorreria a procissão do Santo Sangue, saída anual, havia séculos, do cofre-relicário onde se conserva uma gota da Chaga aberta pela lança.
A procissão passaria pelo Cais do Rosário, sob as janelas de Hugues. Jane nunca assistira ao célebre cortejo e mostrou-se curiosa. Ora, ele não passaria diante de sua morada, afastada demais; e como vê-lo nas ruas que naquele dia, dizia-se, ficavam obstruídas por uma multidão acorrida de toda a Flandres?
“Dize! Queres? Irei à tua casa... jantaremos juntos...”
Hugues objetou os vizinhos, as criadas que tagarelam.
“Chegarei cedo, quando todo mundo estiver dormindo.”
Ele se inquietou também ao pensar em Barbe, toda pudica e devota, que a tomaria por uma enviada do diabo.
Mas Jane insistiu:
“Dize! Está combinado?”
E sua voz era acariciante; era a voz dos começos, essa voz de tentação que todas as mulheres possuem em certos momentos, voz de cristal que canta, se alarga em halos, em remoinhos onde o homem cede, volteia e se abandona.