Bruges-a-Morta: Capítulo VII Bruges-a-Morta: Tradução Literunico · Capítulo 8 de 16
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Bruges-a-Morta: Capítulo VII

Capítulo VII

Fazia já alguns meses que Hugues encontrara Jane, e nada ainda havia alterado a mentira na qual revivia. Como sua vida mudara! Já não era triste. Já não tinha aquela impressão de solidão em meio a um vazio imenso. Seu amor de outrora, que parecia para sempre tão longe e fora de alcance, Jane lhe devolvera; ele o reencontrava e o via nela, como se vê, na água, a lua decalcada, toda igual.

Até então, nenhuma dobra, nenhum tremor sob vento mau havia diminuído a integridade desse reflexo.

E era tão certo que continuava a honrar a morta no simulacro daquela semelhança, que jamais acreditara faltar por um instante à fidelidade de seu culto ou de sua memória. Todas as manhãs, como no dia seguinte à morte dela, fazia suas devoções, como as estações da via-sacra do amor, diante das lembranças conservadas.

Na sombra silenciosa dos salões, com as persianas entreabertas, entre móveis nunca deslocados, ia demoradamente, desde que se levantava, enternecer-se ainda diante dos retratos da esposa: ali, uma fotografia do tempo em que ela era moça, pouco antes do noivado; no centro de um painel, um grande pastel cujo vidro brilhante ora a escondia, ora a mostrava, numa silhueta intermitente; aqui, sobre um guéridon, outra fotografia numa moldura nielada, um retrato dos últimos anos, em que ela já tinha um ar sofredor, de lírio que se inclina. Hugues aproximava os lábios e os beijava como uma patena ou reliquiários.

Todas as manhãs também contemplava o cofre de cristal onde repousava a cabeleira da morta, sempre visível. Quase nunca levantava a tampa. Não teria ousado pegá-la, nem trançar seus dedos nela. Era sagrada, aquela cabeleira. Era a coisa mesma da morta, aquilo que escapara ao túmulo para dormir sono melhor naquele caixão de vidro. Mas ainda era morta, porque vinha de uma morta, e nela jamais se devia tocar.

Bastava olhá-la, sabê-la intacta, certificar-se de que continuava presente, aquela cabeleira da qual talvez dependesse a vida da casa.

Hugues ficava assim longas horas a reanimar suas lembranças, enquanto o lustre, acima de sua cabeça, no silêncio fechado dos salões, desgranava, de seu aspersório de cristal trêmulo a garoa de uma pequena queixa.

Depois ia à casa de Jane, como à última estação de seu culto. Jane, que possuía a cabeleira inteira e viva. Jane, que era como o retrato mais parecido da morta. Um dia, para se enganar numa identificação ainda mais especial, Hugues tivera uma ideia estranha que o seduziu imediatamente. Ele conservava da esposa não só pequenos objetos, miudezas, retratos; quisera guardar tudo dela, como se ela apenas estivesse ausente.

Nada fora tirado, dado ou vendido. O quarto dela continuava pronto, como para um retorno possível, arrumado e igual, com um novo buxo bento a cada ano. Sua roupa branca de outrora estava completa e empilhada nas gavetas, cheias de sachês, que a conservavam intacta em sua imobilidade um pouco amarelada. Também os vestidos, todos os antigos trajes, pendiam nos armários: sedas e popelines esvaziadas de gestos.

Hugues às vezes queria revê-los, ciumento de nada esquecer, de eternizar seu pesar.

O amor, como a fé, se mantém por pequenas práticas. Ora, um dia, um desejo estranho atravessou-lhe o espírito e logo o obsediou até realizar-se: ver Jane com um daqueles vestidos, vestida como a morta fora. Ela, já tão parecida, acrescentaria à identidade do rosto a identidade de uma daquelas roupas que ele vira outrora ajustadas a uma cintura igual. Seria ainda mais sua mulher de volta.

Minuto divino aquele em que Jane avançaria para ele assim trajada, minuto que aboliria o tempo e as realidades, que lhe daria o esquecimento total.

Uma vez entrada nele, essa ideia se tornou fixa, obsessiva, rolando seu guizo.

Decidiu-se. Certa manhã, chamou a velha criada para que lhe descesse do sótão um baú que serviria para transportar alguns dos vestidos preciosos.

“O senhor vai viajar?”, perguntou a velha Barbe, que, sem entender o novo gênero de vida do patrão, antes tão enclausurado, suas saídas, ausências e refeições fora, começava a atribuir-lhe extravagâncias.

Ele se fez ajudar por ela para retirar e escolher os trajes e protegê-los da poeira, que logo voava em nuvens naqueles armários por tanto tempo imóveis.

Escolheu dois vestidos, os dois últimos que a morta havia comprado, e os estendeu cuidadosamente no baú, alisando a saia, ajeitando as pregas.

Barbe nada entendia; mas lhe chocava ver aquela guarda-roupa, na qual nunca se tocara, ser desfalcada. Iriam vendê-la? E arriscou:

“Que diria a pobre senhora?”

Hugues olhou para ela. Havia empalidecido. Teria ela adivinhado? Saber-lhe-ia o segredo?

“O que quer dizer?”, perguntou.

“Penso”, respondeu a velha Barbe, “que em minha aldeia, na Flandres, quando não se vendem logo, na semana do enterro, as roupas de um morto, é preciso conservá-las durante a própria vida, sob pena de manter esse morto no purgatório até que se morra também.”

“Fique tranquila”, disse Hugues, aliviado. “Não tenho intenção de vender nada. Sua lenda tem razão.”

Barbe ficou, portanto, estupefata quando pouco depois o viu, apesar do que acabara de dizer, mandar carregar o baú numa carruagem e partir.

Hugues não soube como comunicar a Jane sua ideia louca, pois nunca lhe falara de seu passado, por uma espécie de delicadeza, de pudor diante da morta, e nem sequer fizera alusão à doce e cruel semelhança que perseguia nela.

Depositado o baú, Jane deu gritinhos, saltitou:

“Que surpresa!”

Ele a havia mimado sem dúvida. O quê? Presentes? Um vestido?

“Sim, vestidos”, disse Hugues maquinalmente.

“Ah, tu és gentil! Então há mais de um?”

“Dois.”

“De que cor? Depressa! Deixa ver!”

E ela se aproximava, a mão estendida, pedindo a chave.

Hugues não sabia o que dizer. Não ousava falar, sem querer trair-se, explicar o desejo doentio ao qual cedera como um impulsivo.

Aberto o baú, Jane exumou os vestidos e os envolveu com um rápido olhar, logo decepcionada:

“Que corte feio! E esse desenho na seda, como é velho, velho! Mas onde compraste vestidos assim? E esses drapeados na saia! Usava-se isso há dez anos. Acho que estás zombando de mim!”

Hugues permanecia perplexo e muito envergonhado. Buscava palavras, uma explicação, não a verdadeira, mas outra, verossímil. Começava a ver o ridículo de sua ideia, e apesar disso ela continuava a dominá-lo.

Ah, que ela consentisse! Que vestisse um daqueles trajes, ainda que por um minuto. E esse minuto, quando ele a visse vestida como a outra, conteria para ele todo o paroxismo da semelhança e o infinito do esquecimento.

Explicou-lhe, com voz carinhosa:

“Sim, eram vestidos antigos... que herdei... vestidos de uma parenta... quis brincar... tive vontade de te ver com um desses vestidos antigos. É loucura, mas tive essa vontade... só um minuto...”

Jane não entendia nada. Ria, virava e revirava cada traje em todos os sentidos, avaliava o tecido, uma seda rica, apenas um pouco fanada, mas ficava espantada diante daquele corte estranho e meio ridículo que, no entanto, fora moda e elegância.

Hugues insistia.

“Mas tu vais me achar feia!”

A princípio aturdida com aquele capricho, Jane acabou achando graça em enfeitar-se com aquelas roupas velhas. Risonha e travessa, tirou o roupão e, de braços nus, ajustando a guimpe que cobria o espartilho, empurrando-a de volta, junto com as rendas da camisola, vestiu um dos dois vestidos, que era decotado. Em pé diante do espelho, Jane ria ao se ver assim:

“Pareço um retrato antigo!”

E fazia dengos, contorcia-se; subiu na mesa, erguendo as saias, para se ver inteira, sempre rindo, o peito sacudido, uma ponta da camisola mal presa saindo do corpete sobre a carne nua, menos casta que ela, trazendo ali a evidência das intimidades da roupa branca.

Hugues contemplava. Aquele minuto, que sonhara culminante e supremo, aparecia poluído, trivial. Jane se divertia com o jogo. Quis agora experimentar o outro vestido e, num acesso de alegria louca, pôs-se a dançar, multiplicando os entrechats, retomada pela coreografia.

Hugues sentia crescer dentro de si um mal-estar de alma. Teve a impressão de assistir a uma dolorosa mascarada. Pela primeira vez, o prestígio da semelhança física não bastara. Agira ainda, mas ao contrário. Sem a semelhança, Jane lhe teria parecido apenas vulgar.

Por causa da semelhança, deu-lhe por um instante a impressão atroz de rever a morta aviltada, apesar do mesmo rosto e do mesmo vestido. A impressão que se tem nos dias de procissão quando, à noite, se encontra aquelas que figuraram a Virgem ou as Santas Mulheres, ainda envergando o manto e as túnicas piedosas, mas um pouco bêbadas, caídas num carnaval místico, sob os lampiões cujas chagas sangram na sombra.

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