Bruges-a-Morta: Capítulo V
Capítulo V
Hugues instalou Jane numa casa alegre que alugara para ela ao longo de uma alameda que terminava em arrabaldes de verdura e moinhos.
Ao mesmo tempo, convencera-a a deixar o teatro. Assim a teria sempre em Bruges e mais sua. Nem por um minuto, entretanto, considerara o pequeno ridículo que havia, para um homem grave e de sua idade, depois de um luto tão inconsolável e conhecido, em enamorar-se de uma dançarina. A bem dizer, não sentia amor por ela. Tudo o que desejava era poder eternizar o engodo daquela miragem.
Quando tomava nas mãos a cabeça de Jane e a aproximava de si, era para olhar seus olhos, procurar neles alguma coisa que vira em outros olhos: uma nuance, um reflexo, pérolas, uma flora cuja raiz está na alma, e que talvez também flutuasse ali.
Outras vezes, desatava-lhe os cabelos, inundava-lhe os ombros com eles, comparava-os mentalmente a uma meada ausente, como se fosse preciso fiá-los juntos.
Jane nada compreendia daqueles modos anormais de Hugues, de suas contemplações mudas.
Recordava-se de que, no começo das relações, ele se entristecera de forma inexplicável quando ela lhe dissera que sua cabeleira era tingida; e com que emoção, desde então, a espiava para saber se a mantinha na mesma nuance.
“Tenho vontade de não tingir mais”, dissera ela um dia.
Ele parecera completamente perturbado, insistindo para que conservasse os cabelos naquele ouro claro que tanto amava. E, dizendo isso, tomara-os, acariciara-os com a mão, afundando neles os dedos como um avaro em seu tesouro que reencontra.
E balbuciara coisas confusas:
“Não mudes nada... é porque és assim que te amo! Ah, tu não sabes, nunca saberás o que manejo nos teus cabelos...”
Parecia querer dizer mais. Depois se detinha, como à beira de um abismo de confidências.
Desde que Jane se instalara em Bruges, ele ia vê-la quase todos os dias. Em geral, passava as noites com ela; às vezes, ceava ali, apesar do mau humor de Barbe, sua velha criada, que no dia seguinte resmungava por ter preparado inutilmente a refeição e esperado em vão. Barbe fingia acreditar que ele realmente comera num restaurante; no fundo, continuava incrédula e já não reconhecia o patrão, antes tão pontual, tão caseiro.
Hugues saía muito. Dividia as horas entre sua casa e a de Jane.
Ia de preferência ao entardecer, por hábito adquirido de só sair nos fins de tarde; e também para ser menos notado em suas caminhadas até aquela morada que escolhera expressamente num bairro solitário.
Diante de si mesmo, não sentia vergonha nem rubor de alma, porque sabia o motivo, o estratagema daquela transposição que era, ao mesmo tempo, desculpa, absolvição e reabilitação diante da morta, quase diante de Deus.
Mas era preciso contar com a província, que é pudica. Como não se inquietar um pouco com a vizinhança, com a hostilidade ou o respeito públicos, quando se sente sobre si, sem cessar, os olhos pousados, quase o roçar deles?
Sobretudo naquela Bruges católica, de costumes severos. As altas torres, em seus hábitos de pedra, alongam sombra por toda parte. E parece que dos inúmeros conventos emana um desprezo pelas rosas secretas da carne, uma glorificação contagiosa da castidade.
Em todas as esquinas, dentro de armários de madeira e vidro, erguem-se Virgens com mantos de veludo, entre flores de papel que murcham, segurando na mão uma faixa com texto desenrolado que, de seu lado, proclama: “Sou a Imaculada.”
As paixões, as relações dos sexos fora do casamento, são sempre ali obra perversa, caminho do inferno, pecado do sexto e do nono mandamento, que faz falar baixo nos confessionários e cobre de confusão as penitentes.
Hugues conhecia aquela austeridade de Bruges e evitara ofendê-la. Mas, naquela vida de província tão estreita, nada escapa. Em pouco tempo, sem saber, despertou uma piedosa indignação. Ora, a fé escandalizada exprime-se de bom grado por ironias. Assim a catedral ri e zomba do diabo com as máscaras de suas gárgulas.
Quando a ligação do viúvo com a dançarina se espalhou, ele se tornou, sem saber, a fábula da cidade. Ninguém a ignorou: conversas de porta em porta; falas de ócio; mexericos carregados de um lado a outro, recebidos com uma curiosidade de beguinas; erva da maledicência que, nas cidades mortas, cresce entre todas as pedras do calçamento.
A aventura divertiu tanto mais porque todos haviam conhecido seu longo desespero, seus pesares sem clareira, todos os seus pensamentos colhidos e amarrados num único buquê para um túmulo. Era ali que terminava hoje aquele luto que se acreditara eterno.
Todos se haviam enganado, inclusive o pobre viúvo, sem dúvida enfeitiçado por uma mulher de má vida. Conheciam-na bem. Era uma antiga dançarina do teatro. Mostravam-na quando passava, rindo, um pouco indignados com seu ar de pessoa sossegada, que, achavam, era desmentido pelo requebro do andar e pela cabeleira amarela. Sabiam até onde morava, e que o viúvo ia vê-la todas as noites. Mais um pouco, saberiam dizer as horas e o itinerário.
As burguesas curiosas, no vazio das tardes desocupadas, vigiavam sua passagem, sentadas à janela, espiando-o nesses pequenos espelhos chamados espiões, que se veem em todas as casas, fixados no apoio exterior das janelas.
Vidros oblíquos onde se enquadram perfis duvidosos de ruas; armadilhas brilhantes que capturam, sem que saibam, todo o vaivém dos passantes, seus gestos, seus sorrisos, o pensamento de um só minuto em seus olhos, e repercutem tudo isso no interior das casas, onde alguém vigia.
Assim, graças a traição dos espelhos-espiões, logo se conheceram todas as idas e vindas de Hugues, e cada detalhe do quase concubinato em que agora vivia com Jane. A ilusão em que persistia, suas precauções ingênuas de só ir vê-la ao cair da noite, enxertaram uma espécie de ridículo naquela ligação que a princípio escandalizara; e a indignação acabou em riso.
Hugues não suspeitava de nada. Continuou a sair quando o dia declinava, encaminhando-se, por desvios voluntários, para o arrabalde tão próximo.
Como, agora, lhe doíam menos aqueles passeios ao crepúsculo. Atravessava a cidade, as pontes centenárias, os cais mortuários ao longo dos quais a água suspira. Os sinos, à noite, dobravam sempre por algum ofício fúnebre do dia seguinte. Ah, aqueles sinos a repicar com toda força, e no entanto tão idos, parecia, tão distantes dele, tilintando como em outros céus.
E ainda que o excesso das calhas gotejasse, ainda que o túnel das pontes suasse lágrimas frias, ainda que os choupos à beira d’água tremessem como o lamento de uma frágil fonte inconsolável, Hugues já não ouvia essa dor das coisas. Já não via a cidade rígida, como que enfaixada nas mil bandagens de seus canais.
A cidade de outrora, aquela Bruges-a-Morta, da qual ele também parecia viúvo, apenas o roçava agora com um verniz de melancolia. E ele caminhava, consolado, através de seu silêncio, como se Bruges também houvesse surgido do túmulo e se oferecesse como uma cidade nova parecida com a antiga.
E enquanto ia, todas as noites, encontrar Jane, nem um clarão de remorso; nem, por um minuto sequer, o sentimento do perjúrio, do grande amor caído na paródia, da dor abandonada; nem mesmo aquele pequeno arrepio que percorre a medula da viúva na primeira vez em que, entre crepes e caxemiras, ela prende ao vestido uma rosa vermelha.