Bruges-a-Morta: Capítulo XI
Capítulo XI
Ora, a Cidade tem sobretudo um rosto de crente. Dela emanam conselhos de fé e renúncia, de seus muros de hospícios e conventos, de suas igrejas frequentes, ajoelhadas em roquetes de pedra. Ela recomeçou a governar Hugues e a impor sua obediência espiritual. Voltou a ser uma Personagem, a principal interlocutora de sua vida: impressiona, dissuade, ordena; é por ela que alguém se orienta e é dela que se tiram todas as razões de agir.
Hugues logo se viu reconquistado por esse rosto místico da Cidade, agora que escapava um pouco à figura de sexo e mentira da Mulher. Escutava menos Jane; e, à medida que a escutava menos, ouvia melhor os sinos.
Sinos numerosos e nunca cansados, enquanto, em suas recaídas de tristeza, ele retomava o hábito de sair ao crepúsculo, errando ao acaso pelos cais.
Faziam-lhe mal, aqueles sinos permanentes, toques de óbito, de réquiem, de trintenas; badaladas de matinas e de vésperas, que o dia inteiro balançavam seus turíbulos negros invisíveis, de onde se desenrolava como uma fumaça de sons.
Ah, aqueles sinos ininterruptos de Bruges, aquele grande ofício dos mortos salmodiado sem descanso no ar. Como dali vinha um desgosto da vida, a noção clara da vaidade de tudo e o aviso da morte a caminho.
Nas ruas vazias, onde de longe em longe um lampião mal vivia, algumas silhuetas raras se espaçavam: mulheres do povo em longa manta, esses mantos de pano, pretos como sinos de bronze, oscilando como eles. E, paralelamente, os sinos e os mantos pareciam caminhar para as igrejas, no mesmo itinerário.
Hugues sentia-se aconselhado sem perceber. Seguia o rastro. Era reconquistado pelo fervor ambiente. A propaganda do exemplo, a vontade latente das coisas, arrastavam-no por sua vez ao recolhimento dos velhos templos.
Como no começo, voltou a amar deter-se à noite nessas naves de São Salvador, sobretudo, com seus longos mármores negros, seu jubé enfático de onde às vezes cai uma música que se moirava e desbordava.
Essa música era vasta, escorria dos tubos sobre as lajes; dir-se-ia que era ela que naufragava, apagava, as inscrições poeirentas sobre as pedras tumulares e as placas de cobre de que a basílica está semeada por toda parte. Podia-se dizer verdadeiramente que ali se caminhava dentro da morte.
Assim, nada, nem os jardins dos vitrais, nem os quadros maravilhosos e sem idade, os Pourbus, os Van Orley, os Erasmus Quellinus, os Crayer, os Seghers de guirlandas de tulipas nunca murchas, nada conseguia adoçar a tristeza tumular do lugar.
E até dos trípticos e retábulos Hugues mal considerava o encanto das cores e aquele sonho eternizado de pintores distantes, para pensar com maior melancolia na morte ao ver, sobre os postigos laterais, o doador de mãos juntas e a doadora de olhos de cornalina, dos quais nada resta além desses retratos.
Então evocava de novo a morta. Já não queria pensar na viva, naquela Jane impura cuja imagem deixava à porta da igreja. Era com a morta que também sonhava ajoelhado junto de Deus, como os piedosos doadores de antanho.
Hugues ainda gostava, em suas crises de misticismo, de ir sepultar-se no silêncio da pequena capela de Jerusalém. Era para lá sobretudo que se dirigiam, ao poente, as mulheres em manta. Entrava depois delas. As naves eram baixas, uma espécie de cripta. Bem ao fundo, naquela capela erguida para a adoração das chagas do Salvador, havia um Cristo em tamanho natural, um Cristo no túmulo, lívido sob uma mortalha de fina renda.
As mulheres em manta acendiam pequenas velas e depois se afastavam com passos deslizantes. E as ceras sangravam um pouco. Dir-se-ia, naquela sombra, que eram os estigmas de Jesus, reabertos, voltando a correr, para lavar as faltas dos que ali vinham.
Mas, entre suas peregrinações pela cidade, Hugues adorava sobretudo o hospital de Saint-Jean, onde o divino Memling vivera e deixara cândidas obras-primas, para dizer, através dos séculos, a frescura de seus sonhos quando entrou em convalescença. Hugues também ia ali com a esperança de se curar, de lavar em loção sua retina febril naqueles muros brancos. O grande Catecismo da Calma.
Jardins interiores, orlados de buxo; quartos de doentes ao longe, onde se fala baixo. Algumas religiosas passam, deslocando apenas um pouco de silêncio, como os cisnes dos canais deslocam apenas um pouco de água. Flutua um cheiro de roupa úmida, de coifas desbotadas à chuva, de toalhas de altar recém-retiradas de antigos armários.
Por fim, Hugues chegava ao santuário de arte onde estão os quadros únicos, onde resplandece o célebre cofre-relicário de Santa Úrsula, como uma pequena capela gótica em ouro, desenrolando, de cada lado, sobre três painéis, a história das onze mil Virgens; enquanto no metal esmaltado do teto, em medalhões finos como miniaturas, há Anjos músicos, com violinos da cor de seus cabelos e harpas na forma de suas asas.
Assim o martírio se acompanha de músicas pintadas. É que ela é infinitamente doce, essa morte das Virgens, agrupadas como um maciço de azaleias na galera que atraca e que será seu túmulo. Os soldados estão na margem. Já começaram o massacre. Úrsula e suas companheiras desembarcaram. O sangue corre, mas tão rosa. As feridas são pétalas. O sangue não pinga; desfolha-se dos peitos.
As Virgens estão felizes e inteiramente tranquilas, espelhando sua coragem nas armaduras dos soldados, que brilham como espelhos. E o arco, de onde vem a morte, a elas também parece doce como o crescente da lua.
Por essas finas sutilezas, o artista exprimira que a agonia, para as Virgens cheias de fé, era apenas uma transubstanciação, uma prova aceita em favor da alegria muito próxima. Por isso a paz que já reinava nelas se propagava até a paisagem, enchendo-a de sua alma como que projetada.
Minuto transitório: é menos a matança do que já a apoteose; as gotas de sangue começam a endurecer em rubis para diademas eternos; e, sobre a terra regada, o céu se abre, sua luz é visível, invade...
Angélica compreensão do martírio. Visão paradisíaca de um pintor tão piedoso quanto genial.
Hugues se comovia. Pensava na fé daqueles grandes artistas de Flandres, que nos deixaram quadros verdadeiramente votivos, eles que pintavam como se reza.
Assim, de todos aqueles espetáculos, obras de arte, ourivesarias, arquiteturas, casas com ar de claustros, empenas em forma de mitras, ruas ornadas de madonas, vento cheio de sinos, afluía para Hugues um exemplo de piedade e austeridade, o contágio de um catolicismo endurecido no ar e nas pedras.
Ao mesmo tempo, sua primeira infância, toda devota, voltava-lhe, e com ela uma nostalgia de inocência. Sentia-se um pouco culpado diante de Deus, tanto quanto diante da morta. A noção de pecado reaparecia, emergia.
Sobretudo desde uma noite de domingo em que, tendo entrado por acaso na catedral, para a bênção e os órgãos, assistira ao fim de um sermão.
O padre pregava sobre a morte. E que outro assunto escolher senão esse, na cidade morna, onde ele se oferece por si mesmo, se impõe e sozinho faz subir ao redor do púlpito sua vinha de cachos negros até a mão do pregador, que só precisa colhê-los. De que falar, senão daquilo que está em toda parte na atmosfera: a morte inevitável. E que outro pensamento aprofundar senão o da própria alma a salvar, que ali é a preocupação essencial e a aflição permanente das consciências.
Ora, o padre, discursando sobre a morte, a Boa Morte que era apenas uma passagem, e sobre a reunião das almas salvas em Deus, falou também do pecado que era o perigo, o pecado mortal, isto é, aquele que faz da morte a morte verdadeira, sem libertação nem recuperação dos seres queridos.
Hugues escutava, não sem pequena comoção, perto de um pilar. A grande igreja estava tenebrosa, mal iluminada por algumas lâmpadas, algumas velas. Os fiéis se fundiam numa massa negra, quase incorporada pela sombra. Parecia-lhe que estava só, que o padre se voltava para ele, dirigia-se a ele. Por um jogo do acaso ou de sua imaginação impressionada, era como se seu próprio caso fosse debatido pela palavra anônima.
Sim. Ele estava em estado de pecado. Por mais que se houvesse enganado sobre seu amor culpado e invocado diante de si mesmo aquela justificativa da semelhança, cumpria a obra da carne. Fazia aquilo que a Igreja sempre reprovou com maior severidade: vivia numa espécie de concubinato.
Ora, se a Religião dizia a verdade, se os cristãos salvos se reencontravam, ele jamais reveria a Lamentada e a Santa, por não a ter desejado exclusivamente. A morte não faria senão eternizar a ausência, consagrar uma separação que ele acreditara temporária.
Depois, como agora, viveria longe dela; e esse seria verdadeiramente seu suplício eterno: lembrar-se dela para sempre em vão.
Hugues saiu da igreja numa perturbação infinita. E, desde aquele dia, a ideia do pecado girou dentro dele, rodopiou, fincou seu prego. Teria querido libertar-se dela, ser absolvido. O pensamento de se confessar lhe veio, para atenuar o desamparo, o soçobro de alma na qual escorregava. Mas seria preciso arrepender-se, mudar de vida; e, apesar das queixas, das penas de cada dia, já não se sentia com força para deixar Jane e recomeçar a ser só.
Contudo a Cidade, com seu rosto de Crente, censurava, insistia. Opunha-lhe o modelo de sua própria castidade, de sua fé severa.
E os sinos estavam de conivência, enquanto agora ele errava todas as noites numa angústia aumentada, com o sofrimento do amor por Jane, o lamento da morta, o medo de seu pecado e da condenação possível.
Os sinos persuadiam, primeiro amistosos, de bom conselho; mas logo sem piedade, ralhando com ele, visíveis e sensíveis, por assim dizer, ao redor dele, como as gralhas ao redor das torres; empurravam-no, entravam-lhe na cabeça, violavam-no e violentavam-no para tirar dele seu miserável amor, para arrancar-lhe o pecado.