Bruges-a-Morta: Capítulo XIV
Capítulo XIV
Naquela segunda-feira, Barbe se levantara de madrugada, mais cedo ainda que de costume, pois só disporia de parte da manhã para adornar a morada antes da passagem da procissão.
Foi à primeira missa, às cinco e meia, comungou com fervor; depois, assim que voltou, começou os preparativos. Os castiçais de prata foram retirados dos armários, bem como pequenos vasos de vermeil e braseiros onde fumegaria incenso. Barbe esfregou, poliu, lustrando cada objeto até deixar o metal limpo como espelhos.
Também tirou as toalhas finas para fazer delas saias em pequenas mesas, que colocou diante de cada janela, espécie de repousórios, gentis altares de mês de Maria, com velas ao redor de um crucifixo, de uma pequena estátua da Virgem.
Era preciso pensar também na ornamentação exterior, pois todos, naquele dia, rivalizam em zelo piedoso. Já haviam fixado na fachada, segundo o costume, os pinheiros de ramos verde-bronze que os camponeses oferecem de porta em porta e que formam, ao longo das ruas, uma dupla fileira de árvores, fazendo alas.
Barbe arranjou, na sacada, drapeados nas cores papais, tecidos brancos, um adorno de pregas castas. Ia e vinha, ligeira, atarefada, cheia de unção, manejava com respeito aquele cenário que servia todos os anos e que, para ela, participava da santidade do culto, como se dedos de padres, santos óleos endurecidos, uma água benta inalienável, os houvessem consagrado. Ela se sentia numa sacristia.
Restava-lhe encher as cestas de ervas e flores cortadas, mosaico volante, tapete esfarelado com que cada criada, diante de sua casa, iria colorir a rua no momento do cortejo. Barbe se apressava, um pouco tonta com o cheiro das malvas-rosas, dos grandes lírios, das margaridas, das sálvias, dos alecrins aromáticos, dos caniços que ela detalhava em fitas curtas. E sua mão mergulhava nas cestas que se enchiam, refrescada naquele massacre de corolas, algodões frescos, penugens de asas mortas.
Pelas janelas abertas, chegava o concerto crescente dos sinos paroquiais, que, um depois do outro, se punham a oscilar.
O tempo estava cinzento, um desses dias indecisos de maio em que, apesar das nuvens, há como uma alegria de fundo no céu.
E por causa da finura do ar, em que se adivinhavam os sinos em marcha, uma alegria se propagava até ela; e os sinos idosos, os extenuados, as avós apoiadas em muletas, os dos conventos, das velhas torres, aqueles caseiros e valetudinários que permanecem quietos o ano inteiro, mas caminham e formam cortejo no dia da procissão do Santo Sangue, todos pareciam, sobre as vestes de bronze gastas, trazer alegres sobrepelizes brancas, panos canelados em pregas de leque.
Barbe escutava as badaladas, o grande bordão da catedral que só se ouvia nas festas maiores, lento e negro, batendo o silêncio como com um báculo pastoral. E também todos os pequenos sinos das torrezinhas mais próximas, emoção, júbilo de roupas prateadas, que pareciam organizar também no céu uma procissão.
A piedade de Barbe se exaltava. Parecia, naquela manhã, que havia fervor no ar, que um êxtase se desfolhava do céu com o rumor dos sinos a toda força, que se ouviam asas invisíveis, uma passagem de anjos.
E tudo aquilo parecia vir terminar em sua alma, sua alma onde sentia a presença de Jesus, onde a hóstia que incorporara na missa da aurora irradiava, ainda inteira, em seu pleno orbe, no centro do qual ela via um rosto.
A velha criada, repensando a bondade de Jesus, que estava verdadeiramente nela, fez o sinal da cruz, recomeçou a rezar, guardando a lembrança e quase o gosto, na boca, das Santas Espécies.
Entretanto, seu patrão a chamara; era hora do almoço dele. Aproveitou para lhe anunciar que esperava alguém para jantar e que ela se arranjasse em consequência.
Barbe ficou estupefata; ele jamais recebera ninguém. Aquilo lhe pareceu estranho. De repente, um pensamento horrível lhe atravessou o espírito: e se aquilo que ela temera outrora, aquilo em que já nem pensava, um pouco tranquilizada, fosse acontecer? Adivinhava... sim! Era aquela mulher, aquela de quem a irmã Rosalie lhe falara, que talvez viesse.
Barbe sentiu todo o sangue gelar. Nesse caso, sua decisão estava tomada, seu dever claro: abrir a porta para aquela criatura, servi-la à mesa, estar às suas ordens, associar-se ao pecado, tudo aquilo seu confessor lhe havia proibido claramente. E em tal dia! Um dia em que o próprio sangue de Jesus passaria diante da casa. E ela, que havia comungado naquela manhã! Oh, não. Era impossível. Teria de deixar o serviço naquela mesma hora.
Quis saber e, com a pequena tirania que, nessas províncias calmas, as criadas logo exercem nas casas de velhos solteiros ou de viúvos, insinuou:
“Quem o senhor convidou para jantar?”
Hugues respondeu que ela era um pouco ousada em interrogá-lo assim, e que saberia quando a pessoa viesse.
Mas Barbe, dominada por sua ideia, que cada vez lhe parecia mais verossímil, tomada agora de medo e de verdadeiro pânico, decidiu arriscar tudo para não ser pega de surpresa, e retomou:
“Não será talvez uma senhora que o senhor espera?”
“Barbe!”, fez Hugues, com ar espantado e um pouco severo, olhando-a.
Mas ela, sem se alterar:
“É que preciso saber com antecedência. Porque, se é uma senhora que o senhor espera, devo prevenir o senhor de que não poderei servir seu jantar.”
Hugues ficou atônito. Estaria sonhando? Ela ficara louca?
Mas Barbe, enérgica, repetiu que partiria. Não podia. Já a haviam prevenido. Seu confessor lhe ordenara. Ela não iria desobedecer, por certo, pôr-se em estado de pecado mortal para morrer de morte súbita e cair no inferno.
A princípio, Hugues não compreendeu nada; pouco a pouco, discerniu a trama obscura, as prováveis fofocas, a aventura propalada. Então Barbe também sabia? E ameaçava ir embora porque Jane viria? Então aquela mulher era tão desprezada que a humilde criada, ligada a ele havia anos pelo hábito, por seu interesse, pelos mil fios que cada dia desenrola e tece entre duas existências lado a lado, preferia tudo romper e deixá-lo a servi-la por um dia?
Hugues ficou sem forças, aturdido, a mola partida diante daquele brusco contratempo que arruinava de maneira tão imprevista o projeto risonho daquele dia; e, com ar resignado, disse simplesmente:
“Pois bem, Barbe, pode partir agora mesmo.”
A velha criada o olhou e, de repente, boa alma popular, toda tomada de piedade, compreendendo que ele sofria, com aquele cantochão que a Natureza pôs na voz para ninar, para adormecer, murmurou, balançando a cabeça:
“Oh, Jesus! Meu pobre senhor!... E por uma mulher dessas, uma má mulher... que o engana...”
Assim, durante um minuto, esquecendo as distâncias, ela foi maternal, enobrecida pela piedade divina, num grito brotado como fonte que lava e talvez cure.
Mas Hugues a fez calar-se, irritado, humilhado com aquela intromissão, aquela audácia de lhe falar de Jane, e em que termos! Era ele quem a dispensava, e sem adiamento. Ela viria no dia seguinte buscar suas coisas. Mas hoje, que partisse, que partisse imediatamente.
A irritação do patrão tirou de Barbe os últimos escrúpulos que poderia ter por deixá-lo de repente. Vestiu seu belo manto negro de capuz, contente consigo mesma e por se haver sacrificado ao dever, a Jesus que estava nela.
Depois, calma, sem emoção, saiu daquela casa onde vivera cinco anos. Mas, antes de tomar caminho, semeou diante dela o conteúdo das cestas que esvaziara no avental, para que a rua, naquele ponto apenas, não ficasse sem corolas sob os passos da procissão.