Bruges-a-Morta: Capítulo X Bruges-a-Morta: Tradução Literunico · Capítulo 11 de 16
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Bruges-a-Morta: Capítulo X

Capítulo X

À medida que Hugues sentia sua mentira tocante escapar-lhe, também se voltava para a Cidade, religando sua alma a ela, empenhando-se outra vez naquele paralelo com que já ocupara sua dor nos primeiros tempos da viuvez e de sua chegada a Bruges.

Agora que Jane deixava de lhe parecer inteiramente semelhante à morta, ele próprio recomeçava a assemelhar-se à cidade. Sentia-o bem em suas caminhadas monótonas e contínuas pelas ruas vazias.

Pois chegara a ficar incapaz de permanecer em casa, assustado com a solidão de sua morada, com o vento chorando nas chaminés, com as lembranças que se multiplicavam ao seu redor como uma fixidez de olhos. Saía quase o dia inteiro, ao acaso, desamparado, incerto quanto a Jane e quanto ao próprio sentimento por ela.

Amava-a de verdade? E ela, que indiferença ou que traição escondia? Incertezas lancinantes. Tristes fins das tardes abreviadas de inverno. Névoa flutuante que se adensa. Sentia a bruma contagiosa entrar-lhe também na alma, e todos os seus pensamentos esfumados, afogados, numa letargia cinzenta.

Ah, aquela Bruges no inverno, ao cair da noite.

A influência da cidade recomeçava sobre ele: lição de silêncio vinda dos canais imóveis, aos quais a calma vale a presença de nobres cisnes; exemplo de resignação oferecido pelos cais taciturnos; conselho sobretudo de piedade e austeridade caindo das altas torres de Nossa Senhora e de São Salvador, sempre ao fundo da perspectiva. Hugues erguia os olhos instintivamente para elas, como se buscasse abrigo; mas as torres tomavam em escárnio seu miserável amor.

Pareciam dizer:

“Olhai para nós. Não somos senão da Fé. Sem alegria, sem sorrisos de escultura, com modos de cidadelas do ar, subimos para Deus. Somos os campanários militares. E o Malino esgotou suas flechas contra nós.”

Oh, sim. Hugues desejaria ser assim. Apenas uma torre, acima da vida. Mas ele não podia orgulhar-se, como aquelas torres de Bruges, de haver frustrado os esforços do Maligno. Parecia, ao contrário, sortilégio do Diabo aquela paixão invasora de que agora sofria como de uma possessão.

Histórias de satanismo, leituras antigas, voltavam-lhe à mente. Não haveria algum fundamento naquelas apreensões de poderes ocultos e enfeitiçamento?

E não seria aquilo como a sequência de um pacto que precisava de sangue e o encaminharia a algum drama? Por momentos, Hugues sentia assim a sombra da Morte aproximar-se dele.

Quisera eludir a Morte, triunfar dela e desafiá-la pelo artifício especioso de uma semelhança. Talvez a Morte se vingasse.

Mas ainda podia escapar, exorcizar-se a tempo. E, atravessando os bairros da grande cidade mística por onde caminhava, erguia os olhos para as torres misericordiosas, para a consolação dos sinos, para o acolhimento apiedado das Santas Virgens que, na esquina de cada rua, abriam os braços do fundo de um nicho, entre ceras e rosas sob um globo, como flores mortas num caixão de vidro.

Sim, sacudiria o mau jugo. Arrependia-se. Havia sido o despojado da dor. Mas faria penitência. Tornaria a ser o que fora. Já recomeçava a se parecer com a cidade. Reencontrava-se irmão em silêncio e em melancolia daquela Bruges dolorosa, soror dolorosa.

Ah, como fizera bem em vir para ali no tempo de seu grande luto. Mudas analogias. Penetração recíproca da alma e das coisas. Entramos nelas enquanto elas entram em nós.

As cidades, sobretudo, têm assim uma personalidade, um espírito autônomo, um caráter quase exteriorizado que corresponde à alegria, ao novo amor, à renúncia, à viuvez. Toda cidade é um estado de alma, e basta demorar-se ali um pouco para que esse estado de alma se comunique, se propague em nós como um fluido que se inocula e que incorporamos com o matiz do ar.

Hugues sentira, no princípio, essa influência pálida e lenitiva de Bruges, e por ela se resignara apenas às lembranças, ao desuso da esperança, à espera da boa morte.

E agora ainda, apesar das angústias do presente, sua pena, apesar de tudo, se diluía um pouco, à noite, nos longos canais de água quieta, e ele se esforçava para voltar a ser à imagem e semelhança da cidade.

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