Bruges-a-Morta: Capítulo III
Capítulo III
Hugues guardou daquele encontro uma grande perturbação. Agora, quando pensava na esposa, era a desconhecida da outra noite que revia. Ela era sua lembrança viva, tornada precisa. Aparecia-lhe como a morta mais semelhante.
Quando ia, em devoções mudas, beijar a relíquia da cabeleira conservada ou enternecer-se diante de algum retrato, já não era com a morta que confrontava a imagem, mas com a viva que se parecia com ela. Misteriosa identificação daqueles dois rostos. Fora como uma piedade da sorte, oferecendo pontos de referência à sua memória, conspirando com ele contra o esquecimento, substituindo uma estampa fresca àquela que empalidecia, já amarelada e picada pelo tempo.
Hugues possuía agora uma visão inteiramente nítida e nova da desaparecida. Bastava contemplar, na memória, o velho cais da outra noite, ao cair da tarde, e uma mulher avançando em sua direção com o rosto da morta. Já não precisava olhar para trás, para longe, no recuo dos anos; bastava pensar na última noite, ou na penúltima. Tudo ficara próximo, simples, agora.
Seu olhar havia armazenado uma vez mais o rosto querido; a impressão recente se fundira com a antiga, fortalecendo-se uma pela outra, numa semelhança que agora quase lhe dava a ilusão de uma presença real.
Nos dias seguintes, Hugues ficou assombrado. Então existia uma mulher absolutamente igual àquela que perdera. Por tê-la visto passar, fizera, durante um minuto, o sonho cruel de que a outra voltaria, de que voltara e avançava em sua direção, como outrora. Os mesmos olhos, a mesma tez, os mesmos cabelos, semelhante em tudo, adequada em tudo. Capricho estranho da natureza e do destino.
Queria revê-la. Talvez nunca mais a reencontrasse. Contudo, só de sabê-la perto, e de poder encontrá-la, parecia sentir-se menos só e menos viúvo. É realmente viúvo aquele cuja mulher apenas está ausente e reaparece em breves retornos?
Imaginaria reencontrar a morta quando passasse aquela que se parecia com ela. Nessa esperança, foi à mesma hora da tarde para os lugares onde a vira. Percorreu o velho cais de empenas escurecidas, de janelas veladas como beguinas por cortinas de musselina, atrás das quais mulheres desocupadas, logo curiosas de seu vaivém, o espiavam. Afundou nas ruas mortas, nas ruelas tortuosas, esperando vê-la desembocar de repente em algum ângulo de encruzilhada.
Uma semana se passou assim, de espera sempre frustrada. Já pensava menos nela quando, numa segunda-feira, precisamente o mesmo dia do primeiro encontro, tornou a vê-la, reconhecida de imediato, avançando em sua direção com o mesmo andar balançado. Mais ainda do que da vez anterior, ela lhe apareceu numa semelhança total, absoluta, verdadeiramente assustadora.
De emoção, seu coração quase parou, como se ele fosse morrer. O sangue cantou-lhe nos ouvidos. Musselinas brancas, véus de noiva, cortejos de meninas de primeira comunhão embaralharam-lhe os olhos. Depois, muito próxima e negra, veio a mancha da silhueta que ia passar junto dele.
A mulher sem dúvida notara sua perturbação, pois olhou para o seu lado com ar espantado. Ah, aquele olhar recuperado, saído do nada! Aquele olhar que ele jamais acreditara rever, que imaginava dissolvido na terra, sentia-o agora sobre si, pousado e doce, reflorido, novamente acariciante. Olhar vindo de tão longe, ressuscitado do túmulo, como devia ter sido o olhar de Lázaro para Jesus.
Hugues ficou sem forças, todo o ser atraído, arrastado no rastro daquela aparição. A morta estava ali diante dele. Caminhava. Ia embora. Era preciso segui-la, aproximar-se, olhá-la, beber seus olhos reencontrados, reacender a própria vida nos cabelos dela, que eram luz. Era preciso segui-la sem discutir, simplesmente, até o fim da cidade e até o fim do mundo.
Ele não raciocinara; maquinalmente, pusera-se de novo a caminhar atrás dela, dessa vez muito perto, com o medo ofegante de perdê-la ainda, através daquela velha cidade de ruas em circuitos e meandros.
Certamente não pensara por um minuto no que havia de anormal em sua ação: seguir uma mulher. Não, era sua mulher que ele seguia, que acompanhava naquele passeio crepuscular, e que ia reconduzir até o túmulo.
Hugues continuava a andar, imantado, como num sonho, ao lado da desconhecida ou atrás dela, sem sequer perceber que, depois dos cais solitários, haviam chegado agora às ruas comerciais, ao centro da cidade, à Praça Grande, onde a Torre dos Halles, imensa e negra, defendia-se contra a noite invasora com o escudo de ouro do seu mostrador.
A jovem, esguia e rápida, com o ar de se esquivar daquela perseguição, entrou na Rua Flamenga, entre velhas fachadas ornamentadas e esculpidas como popas, aparecendo mais nítida, numa silhueta melhor recortada, cada vez que passava diante da vitrine iluminada de uma loja ou da auréola espalhada de um lampião.
Depois, de súbito, ele a viu atravessar a rua, dirigir-se ao teatro, cujas portas estavam abertas, e entrar.
Hugues não parou. Tornara-se uma vontade inerte, um satélite arrastado. Os movimentos da alma também têm sua velocidade adquirida. Obedecendo ao impulso anterior, penetrou por sua vez no vestíbulo, onde a multidão afluía. Mas a visão se evaporara. Em parte alguma, nem entre o público que fazia fila, nem no controle, nem nas escadas, ele viu a jovem. Onde desaparecera? Por qual corredor? Por qual porta lateral? Pois ele a vira entrar, sem erro possível.
Ela ia ao espetáculo, sem dúvida. Estaria na sala dali a pouco. Talvez já estivesse ali, instalada em alguma poltrona ou na obscuridade vermelha de um camarote. Reencontrá-la. Revê-la. Contemplá-la nitidamente durante uma noite inteira. Sentia a cabeça vacilar ante essa ideia, que lhe fazia bem e mal ao mesmo tempo. Mas resistir à sugestão, isso nem lhe ocorreu.
E sem refletir sobre nada, nem sobre os modos desordenados a que se abandonava havia uma hora, nem sobre a desrazão de seu novo projeto, nem sobre a anomalia de assistir a uma representação teatral apesar do grande luto com que se vestia eternamente, dirigiu-se sem hesitar à bilheteria, pediu uma poltrona e entrou na sala.
Seu olhar vasculhou depressa todos os lugares, as fileiras de cadeiras, as frisas, os camarotes, as galerias superiores que se enchiam pouco a pouco, iluminadas pela luz contagiosa dos lustres. Não a reencontrou, todo desconcertado, inquieto, triste. Que mau acaso brincava com ele? Rosto alucinante, mostrado e escondido alternadamente. Aparições intermitentes, como as da lua entre as nuvens. Esperou, procurou ainda.
Espectadores atrasados se apressavam, ganhando seus lugares num ruído rangente de portas e bancos.
Só ela não chegava.
Começou a lamentar sua ação irrefletida. Tanto mais que sua presença fora notada e que se espantavam com ela numa insistência de binóculos que ele não deixou de perceber. É verdade que não frequentava ninguém, não criara relações com nenhuma família, vivia só.
Mas todos ao menos o conheciam de vista, sabiam quem era e sabiam do seu nobre desespero, naquela Bruges pouco povoada, tão desocupada, onde todos se conhecem, se informam sobre os recém-chegados, informam os vizinhos e deles buscam notícias.
Foi uma surpresa, quase o fim de uma lenda; e o triunfo dos maliciosos que sempre sorriam quando se falava do viúvo inconsolável.
Por não se sabe que fluido desprendido de uma multidão quando ela se unifica num pensamento coletivo, Hugues teve naquele momento a impressão de uma falta contra si mesmo, de uma nobreza perjurada, de uma primeira fissura no vaso de seu culto conjugal, por onde sua dor, até então bem alimentada, se escoaria inteira.
No entanto, a orquestra acabara de iniciar a abertura da obra que seria representada. Lera, no programa do vizinho, o título em letras grandes: Robert le Diable, uma dessas óperas de moda antiga que compõem quase infalivelmente o espetáculo na província. Os violinos desenrolavam agora os primeiros compassos.
Hugues sentiu-se ainda mais perturbado. Desde a morte da esposa, não ouvira música alguma. Tinha medo do canto dos instrumentos. Mesmo um acordeão nas ruas, com seu pequeno concerto asmático e acidulado, tirava-lhe lágrimas. E também os órgãos, em Nossa Senhora e em Santa Valburga, aos domingos, quando pareciam drapear sobre os fiéis veludos negros e catafalcos de sons.
A música da ópera agora lhe afogava as meninges. Os arcos dos violinos tocavam-lhe nos nervos. Veio-lhe aos olhos um picoteamento. E se chorasse de novo? Pensava em ir embora quando uma ideia estranha lhe atravessou o espírito: a mulher de há pouco, que ele seguira como num golpe de loucura, pelo bálsamo de sua semelhança, até aquela sala, não se encontrava ali, tinha certeza. Contudo, ela entrara no teatro, quase sob seus olhos.
Se não estava na sala, talvez fosse aparecer no palco.
Profanação que, de antemão, lhe rasgava a alma inteira. O rosto idêntico, o rosto da própria Esposa na evidência da ribalta e sublinhado por maquiagens.
Se aquela mulher, assim seguida e desaparecida de repente por alguma porta de serviço, fosse atriz, e ele a visse surgir gesticulando e cantando? Ah, sua voz. Seria também a mesma voz, para levar até o fim a semelhança diabólica, aquela voz de metal grave, como prata com um pouco de bronze, que ele nunca mais ouvira, nunca?
Hugues ficou transtornado apenas pela possibilidade de um acaso que bem poderia ir até o fim. Cheio de angústia, esperou, com uma espécie de pressentimento de que havia suspeitado com acerto.
Os atos transcorreram sem lhe ensinar nada. Não a reconheceu entre as cantoras, nem tampouco entre as coristas, maquiadas e pintadas como bonecas de madeira. Desatento ao resto do espetáculo, estava decididamente resolvido a partir depois da cena das Freiras, cujo cenário de cemitério o reconduzia a todos os seus pensamentos mortuários.
Mas de repente, no recitativo da evocação, quando as bailarinas, figurando as Irmãs do claustro despertadas da morte, avançaram em longa fila, quando Helena se animou sobre seu túmulo e, rejeitando mortalha e hábito, ressuscitou, Hugues sofreu uma comoção, como um homem saído de um sonho escuro que entra numa sala de festa cuja luz vacila nas oscilações cambaleantes de seus olhos.
Sim. Era ela. Ela era dançarina. Mas nisso ele nem pensou por um minuto. Era realmente a morta descida da pedra de seu sepulcro, era sua morta que agora sorria lá longe, avançava, estendia os braços.
E mais semelhante assim, semelhante a ponto de fazer chorar, com os olhos cujo bistre acentuava o crepúsculo, com os cabelos visíveis, de um ouro único, como os da outra.
Aparição impressionante, toda fugidia, sobre a qual logo caiu o pano.
Hugues, a cabeça em fogo, transtornado e radiante, voltou ao longo dos cais, como ainda alucinado pela visão persistente que continuava a abrir diante dele, mesmo na noite negra, seu quadro de luz. Assim o doutor Fausto, obstinado diante do espelho mágico onde se revela a imagem celeste de uma mulher.