Bruges-a-Morta: Capítulo XV
Capítulo XV
Como o dia começara mal. Dir-se-ia que os projetos de alegria são um desafio. Preparados por tempo demais, dão tempo ao destino para trocar os ovos no ninho; e serão tristezas que teremos de chocar.
Hugues, ao ouvir a porta da casa bater na saída de Barbe, sentiu uma impressão penosa. Mais um dissabor, uma solidão maior, já que a velha criada pouco a pouco fizera parte de sua vida. Tudo aquilo por causa de Jane, aquela mulher inconsistente, cruel. Ah, quanto já sofrera por ela.
Agora bem desejaria que ela não viesse. Sentiu-se triste, inquieto, nervoso. Pensou na morta. Como pôde acreditar na mentira daquela semelhança, tão depressa lascada? E o que ela devia pensar, no além-túmulo, da chegada de outra ao lar ainda cheio dela, sentando-se nas poltronas em que ela se sentara, sobrepondo, ao longo dos espelhos onde subsiste o rosto dos mortos, sua face à dela?
Tocaram a campainha. Hugues foi obrigado a abrir ele mesmo. Era Jane, atrasada, vermelha de haver andado depressa. Entrou brusca, imperiosa, envolvendo de um golpe de vista o grande corredor, os salões de portas abertas. Já se ouviam ecos de músicas distantes, aproximando-se. A procissão não tardaria.
Hugues acendera ele próprio as velas no apoio das janelas, sobre as pequenas mesas preparadas por Barbe.
Subiu com Jane ao primeiro andar, ao seu quarto. As janelas estavam fechadas. Jane avançou e abriu uma delas.
“Ah, não!”, fez Hugues.
“Por quê?”
Observou-lhe que ela não podia se mostrar assim, exibir-se em sua casa. E ainda por ocasião de uma procissão. A província é pudica. Gritariam escândalo.
Jane havia tirado o chapéu diante do espelho; passara no rosto um pouco de pó com a borla de uma pequena caixa de marfim que jamais a deixava.
Depois voltou à janela, os cabelos descobertos, claros, atraindo o olhar com seus reflexos de cobre.
A multidão que enchia a rua olhou, curiosa diante daquela mulher diferente das outras, com o traje e a cabeleira vistosos.
Hugues impacientou-se. Via-se suficientemente por trás das cortinas. Num movimento de energia, fechou violentamente a janela.
Então Jane se sentiu ofendida, não quis mais olhar, deitou-se num sofá, impenetrável, dura.
A procissão cantava. Pelas amplas ondas dos cânticos, ouvia-se que ela estava perto. Hugues, todo dolorido, se desviara de Jane; apoiou a testa ardente nas vidraças, frescor de água onde diluir toda a sua pena.
Os primeiros coroinhas passavam, cantores de cabelos cortados rente, salmodiando, segurando círios.
Hugues distinguia claramente o cortejo através dos vidros, onde as personagens da procissão se destacavam como vestes pintadas sobre o fundo das imagens religiosas em renda.
Desfilaram os congreganistas, carregando pedestais com estátuas, Sagrados Corações; segurando bandeiras de ouro endurecido, como vitrais; depois os grupos cândidos, o vergel dos vestidos brancos, o arquipélago das musselinas por onde o incenso quebrava em pequenas ondas azuis, concílio de virgens-crianças ao redor de um Cordeiro pascal, branco como elas e feito de neve frisada.
Hugues voltou-se um instante para Jane, que, ainda amuada, continuava afundada no sofá, com ar de contemplar pensamentos ruins.
A música dos serpentões e dos oficleides subiu mais grave, carregou a guirlanda frágil, intermitente, do canto dos sopranos.
E, no quadro da janela, apareceram diante de Hugues os cavaleiros da Terra Santa, os Cruzados em pano de ouro e armaduras, as princesas da história de Bruges, todos aqueles e aquelas cujo nome se associa ao de Thierry da Alsácia, que trouxe de Jerusalém o Santo Sangue. Ora, nesses papéis estavam os rapazes e moças da aristocracia mais nobre de Flandres, com tecidos antigos, rendas raras, joias de família seculares.
Dir-se-ia que os santos, os guerreiros, os doadores dos quadros de Van Eyck e Memling, eternizados lá nos museus, haviam se feito carne e se animado por milagre.
Hugues quase não olhava, perturbado demais pelo despeito de Jane, sentindo-se infinitamente triste, mais triste ainda naqueles cânticos que lhe faziam mal. Tentou pacificá-la. À primeira palavra, o humor dela se empinou.
E voltava os olhos para ele, eriçada, como se as mãos estivessem cheias de coisas que ainda iriam feri-lo.
Hugues se recolheu em si mesmo, silencioso, desolado, lançando sua alma, por assim dizer, ao remoinho daquela música pelas ruas, para que ela o levasse para longe de si próprio.
Veio em seguida o clero, os monges de todas as ordens: dominicanos, redentoristas, franciscanos, carmelitas; depois os seminaristas, em roquetes plissados, decifrando antifonários; depois ainda os padres de cada paróquia em seu aparato vermelho de coroinhas: vigários, curas, cônegos, em casulas, em dalmáticas bordadas, radiantes como jardins de pedrarias.
Então se ouviu o tilintar dos turíbulos. A fumaça azul rolou volutas mais próximas; todas as campainhas se uniram num crepitar mais sonoro, que acobreou o ar.
Apareceu o bispo, mitra à cabeça, sob um dossel, trazendo a urna-relicário, uma pequena catedral de ouro encimada por uma cúpula onde, entre mil camafeus, diamantes, esmeraldas, ametistas, esmaltes, topázios, pérolas finas, sonha o único rubi possuído pelo Santo Sangue.
Hugues, ganho pela impressão mística, pelo fervor de todos aqueles rostos, pela fé daquela multidão imensa comprimida nas ruas, sob suas janelas, mais longe, em toda parte, até o fim da cidade em oração, inclinou-se também quando viu, à aproximação do Relicário, todo o povo cair de joelhos, dobrar-se sob a rajada dos cânticos.
Hugues quase esquecera a realidade, a presença de Jane, a nova cena que acabara de lançar ainda novos bancos de gelo entre eles. Ela, vendo-o enternecido, ria com escárnio.
Ele fingiu não perceber, sufocando movimentos de ódio que começava, em breves clarões, a sentir por aquela mulher.
Altiva, glacial, ela recolocou o chapéu, com ar de se recompor para partir. Hugues não ousava romper aquele duro silêncio em que agora o quarto tornara a cair, depois da passagem da procissão. A rua se esvaziara rapidamente, já muda, com a tristeza excedente de uma alegria partida.
Ela desceu sem falar; depois, chegando ao térreo, como se tivesse reconsiderado ou sido tomada por uma curiosidade, olhou, do limiar, os salões cujas portas haviam sido deixadas abertas. Deu alguns passos, entrou mais adiante naquelas duas vastas salas que se comunicavam, como se fosse reprovada por seu aspecto severo. Os quartos também têm fisionomia, rosto. Entre eles e nós, há amizades, antipatias instantâneas.
Jane se sentia mal acolhida, anormal, estrangeira, em desacordo com os espelhos, hostil aos velhos móveis que sua presença ameaçava deslocar de suas atitudes imutáveis.
Examinava, indiscreta. Viu retratos aqui e ali, na parede, nas mesas de apoio; eram o pastel, as fotografias da morta.
“Ah, tens retratos de mulheres aqui?”
E riu, um risinho mau.
Avançara até a lareira.
“Ora, aqui está uma que se parece comigo...”
E pegou um dos retratos.
Hugues, que a espiava, com mal-estar por vê-la circular ali, sentiu de repente uma dor viva diante daquela brincadeira inconscientemente cruel, daquela atrocidade leve que roçava a santidade da morta.
“Largue isso!”, fez ele, com uma voz tornada imperiosa.
Jane caiu na gargalhada, sem entender.
Hugues avançou, tomou-lhe o retrato das mãos, chocado com aqueles dedos profanos sobre suas lembranças. Ele só os manejava tremendo, como objetos de culto, como um padre toca a custódia e os cálices. Sua dor se tornara uma religião. E, naquele momento, as velas ainda não apagadas, que haviam queimado no apoio das janelas para a procissão, iluminavam os salões como capelas.
Jane, irônica, divertindo-se com perversidade com a irritação de Hugues e com a vontade secreta de provocá-lo ainda mais, passou para a outra peça, tocando tudo, desarranjando os bibelôs, amassando os tecidos. De repente parou, com uma risada sonora.
Vira, sobre o piano, o precioso cofre de vidro e, para continuar o desafio, erguendo a tampa, retirou dali, toda espantada e divertida, a longa cabeleira, desenrolou-a, sacudiu-a no ar.
Hugues ficou lívido. Era a profanação. Teve a impressão de um sacrilégio. Fazia anos que não ousava tocar naquela coisa morta, pois pertencia a uma morta. E todo aquele culto à relíquia, com tantas lágrimas pontilhando o cristal a cada dia, para que enfim servisse de brinquedo para uma mulher que o escarnecia. Ah, ela já o fizera sofrer bastante, e demais, havia muito tempo.
Todo o rancor, a onda de sofrimentos bebidos, filtrados durante meses por cada segundo da hora, as suspeitas, as traições, a espreita sob suas janelas, na chuva, tudo isso lhe subiu de uma vez. Ia expulsá-la.
Mas Jane, enquanto ele avançava, refugiou-se atrás da mesa, como em brincadeira, desafiando-o, suspendendo de longe a trança, trazendo-a ao rosto e à boca como uma serpente encantada, enrolando-a ao pescoço, boá de um pássaro de ouro.
Hugues gritava:
“Devolva! Devolva!”
Jane corria, à direita, à esquerda, turbilhonando ao redor da mesa.
Hugues, no vento daquela corrida, sob aqueles risos, aqueles sarcasmos, perdeu a cabeça. Alcançou-a. Ela ainda tinha a cabeleira ao redor do pescoço, debatendo-se, sem querer devolvê-la, irritada e agora injuriando-o porque seus dedos crispados lhe faziam mal.
“Vai devolver?”
“Não!”, disse ela, ainda rindo com uma risada nervosa sob o aperto dele.
Então Hugues enlouqueceu. Uma chama cantou-lhe aos ouvidos; sangue queimou-lhe os olhos; uma vertigem lhe correu na cabeça, um súbito frenesi, uma crispação na ponta dos dedos, uma vontade de agarrar, apertar alguma coisa, quebrar flores, uma sensação e uma força de torno nas mãos. Agarrara a cabeleira que Jane continuava segurando enrolada ao pescoço. Quis retomá-la. E, feroz, fora de si, puxou, apertou ao redor do pescoço a trança que, esticada, estava rígida como um cabo.
Jane já não ria. Soltara um pequeno grito, um suspiro, como o sopro de uma bolha expirada à flor da água. Estrangulada, caiu.
. . . . . . . . . . . . . . .
Morrera por não haver adivinhado o Mistério e que havia ali uma coisa na qual não se devia tocar sob pena de sacrilégio. Ela pusera a mão, ela, sobre a cabeleira vingadora, essa cabeleira que, desde logo, para aqueles cuja alma é pura e comunga com o Mistério, deixava entender que, no minuto em que fosse profanada, ela própria se tornaria instrumento de morte.
Assim, realmente, a casa inteira perecera: Barbe fora embora; Jane jazia; a morta estava mais morta.
Quanto a Hugues, olhava sem compreender, sem mais saber.
As duas mulheres se haviam identificado numa só. Tão parecidas em vida, mais parecidas na morte, que as fizera da mesma palidez, ele já não as distinguiu uma da outra, rosto único de seu amor. O cadáver de Jane era o fantasma da antiga morta, visível ali só para ele.
Hugues, com a alma regredida, já não se lembrava senão de coisas muito longínquas, dos começos de sua viuvez, para onde acreditava ter sido transportado. Muito tranquilo, fora sentar-se numa poltrona.
As janelas haviam ficado abertas.
E, no silêncio, chegou um rumor de sinos, todos os sinos ao mesmo tempo, que recomeçaram a tocar para o retorno da procissão à capela do Santo Sangue. Acabara, o belo cortejo. Tudo aquilo que fora, que cantara, semblante de vida, ressurreição de uma manhã. As ruas estavam de novo vazias. A cidade ia recomeçar a estar só.
E Hugues repetia sem cessar:
“Morta... morta... Bruges-a-Morta...”
Com ar maquinal, voz distendida, tentando se ajustar:
“Morta... morta... Bruges-a-Morta...”
À cadência dos últimos sinos, cansados, lentos, pequenas velhas exaustas que pareciam, seria sobre a cidade, seria sobre uma tumba?, desfolhar languidamente flores de ferro.