Diplomacia Kwaidan: Histórias e Estudos de Coisas Estranhas · Capítulo 6 de 21
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Ficara ordenado que a execução se realizasse no jardim do yashiki (1). Assim, levaram o homem até lá e o fizeram ajoelhar-se num largo espaço coberto de areia, atravessado por uma fileira de tobi-ishi, ou pedras de passagem, como ainda se podem ver nos jardins paisagísticos japoneses. Seus braços foram amarrados atrás das costas. Criados trouxeram água em baldes e sacos de arroz cheios de pedrinhas; e arrumaram os sacos de arroz em torno do homem ajoelhado, calçando-o de tal modo que ele não podia mover-se. O senhor veio e examinou os preparativos. Achou-os satisfatórios e nada comentou.

De súbito, o condenado gritou para ele:-

"Honrado senhor, a falta pela qual fui condenado eu não cometi conscientemente. Foi apenas minha grande estupidez que causou a falta. Tendo nascido estúpido, por causa do meu Karma, nem sempre pude evitar cometer erros. Mas matar um homem por ser estúpido é errado, e esse erro será pago. Tão certo quanto me matais, tão certo serei vingado; do ressentimento que provocais virá a vingança; e mal será retribuído com mal."...

Se uma pessoa é morta sentindo forte ressentimento, o fantasma dessa pessoa será capaz de vingar-se de quem a matou. O samurai sabia disso. Respondeu com muita suavidade, quase com carinho:-

"Permitiremos que nos assustes tanto quanto quiseres, depois que estiveres morto. Mas é difícil acreditar que digas a sério o que dizes. Tentarás dar-nos algum sinal de teu grande ressentimento, depois que tua cabeça for cortada?"

"Certamente que sim", respondeu o homem.

"Muito bem", disse o samurai, desembainhando a longa espada; "agora vou cortar tua cabeça. Bem diante de ti há uma pedra de passagem. Depois que tua cabeça for cortada, tenta morder a pedra. Se teu fantasma irado puder ajudar-te a fazer isso, alguns de nós talvez fiquem assustados... Tentarás morder a pedra?"

"Vou mordê-la!", gritou o homem, com grande cólera, "vou mordê-la! Vou morder"-

Houve um clarão, um sibilo, um baque seco e esmagado: o corpo amarrado inclinou-se sobre os sacos de arroz, dois longos jatos de sangue pulsando do pescoço decepado; e a cabeça rolou sobre a areia. Pesadamente rolou em direção à pedra de passagem; então, de repente, saltando, prendeu entre os dentes a borda superior da pedra, agarrou-se desesperadamente por um instante, e caiu inerte.

Ninguém falou; mas os criados olharam horrorizados para seu senhor. Ele parecia inteiramente indiferente. Apenas estendeu a espada ao atendente mais próximo, que, com uma concha de madeira, derramou água sobre a lâmina, do punho à ponta, e depois enxugou cuidadosamente o aço várias vezes com folhas de papel macio... E assim terminou a parte cerimonial do incidente.

Durante meses depois disso, os criados e os domésticos viveram em medo incessante de uma visitação fantasmagórica. Nenhum deles duvidava de que a vingança prometida viria; e seu terror constante fazia-os ouvir e ver muita coisa que não existia. Passaram a temer o som do vento nos bambus, a temer até mesmo o movimento das sombras no jardim. Por fim, depois de se aconselharem entre si, decidiram pedir ao senhor que mandasse realizar um serviço de Ségaki (2) em favor do espírito vingativo.

"Inteiramente desnecessário", disse o samurai, quando seu principal criado expressou o desejo geral... "Compreendo que o desejo de vingança de um homem moribundo possa ser motivo de medo. Mas, neste caso, não há nada a temer."

O criado olhou suplicante para seu senhor, mas hesitou em perguntar a razão daquela confiança alarmante.

"Oh, a razão é bastante simples", declarou o samurai, adivinhando a dúvida não dita. "Somente a última intenção do sujeito poderia ter sido perigosa; e, quando o desafiei a dar-me o sinal, desviei sua mente do desejo de vingança. Ele morreu com o propósito fixo de morder a pedra de passagem; e esse propósito ele pôde cumprir, mas nada além disso. Todo o resto ele deve ter esquecido... Portanto, não precisais sentir mais ansiedade alguma a respeito do assunto."

- E, de fato, o morto não causou mais nenhum transtorno. Nada aconteceu.

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