Formigas
Formigas
I
O céu desta manhã, depois da tempestade da noite, é de um azul puro e deslumbrante. O ar, o ar delicioso!, está cheio de doces odores resinosos, desprendidos dos incontáveis ramos de pinheiro quebrados e espalhados pelo vendaval. No bosque de bambus vizinho, ouço o chamado de flauta da ave que louva o Sûtra do Lótus; e a terra está muito quieta por causa do vento sul. Agora o verão, longamente adiado, está verdadeiramente conosco: borboletas de estranhas cores japonesas tremulam por toda parte; semi (1) arquejam; vespas zumbem; mosquitos dançam ao sol; e as formigas estão ocupadas reparando suas habitações danificadas... Lembro-me de um poema japonês:-
Yuku é naki: Ari no sumai ya! Go-getsu amé.
[Agora a pobre criatura não tem para onde ir!... Ai das moradas das formigas nesta chuva do quinto mês!]
Mas aquelas grandes formigas negras de meu jardim não parecem precisar de simpatia alguma. Resistiram à tempestade de algum modo inimaginável, enquanto grandes árvores eram arrancadas pela raiz, casas eram sopradas em fragmentos e estradas eram lavadas até desaparecer. Ainda assim, antes do tufão, não tomaram outra precaução visível senão bloquear os portões de sua cidade subterrânea. E o espetáculo de seu labor triunfante hoje me impele a tentar um ensaio sobre Formigas.
Eu gostaria de ter prefaciado minhas dissertações com algo da antiga literatura japonesa, algo emocional ou metafísico. Mas tudo que meus amigos japoneses conseguiram encontrar para mim sobre o assunto, excetuando alguns versos de pouco valor, era chinês. Esse material chinês consistia principalmente em histórias estranhas; e uma delas me parece digna de citação, faute de mieux.
Na província de Taishū, na China, havia um homem piedoso que, todos os dias, durante muitos anos, adorava fervorosamente certa deusa. Certa manhã, enquanto estava entregue às suas devoções, uma bela mulher, usando uma veste amarela, entrou em seu aposento e ficou diante dele. Ele, muito surpreso, perguntou-lhe o que queria e por que entrara sem ser anunciada. Ela respondeu: "Não sou uma mulher: sou a deusa que há tanto tempo e tão fielmente adorais; e vim agora provar-vos que vossa devoção não foi em vão... Conheceis a língua das Formigas?" O adorador respondeu: "Sou apenas uma pessoa de baixo nascimento e ignorante, não um erudito; e nem sequer da linguagem dos homens superiores sei coisa alguma." A essas palavras, a deusa sorriu e tirou do seio uma caixinha, com a forma de uma caixa de incenso. Abriu a caixa, mergulhou nela um dedo e tirou dali uma espécie de unguento com o qual ungiu as orelhas do homem. "Agora", disse-lhe, "procurai algumas Formigas; e, quando encontrardes alguma, curvai-vos e escutai atentamente sua conversa. Sereis capaz de compreendê-la; e ouvireis algo em vosso proveito... Lembrai-vos apenas de que não deveis assustar nem irritar as Formigas." Então a deusa desapareceu.
O homem saiu imediatamente para procurar algumas Formigas. Mal atravessara o limiar da porta quando percebeu duas Formigas sobre uma pedra que sustentava um dos pilares da casa. Curvou-se sobre elas e escutou; e ficou espantado ao descobrir que podia ouvi-las falar e compreender o que diziam. "Tentemos encontrar um lugar mais quente", propôs uma das Formigas. "Por que um lugar mais quente?", perguntou a outra; "o que há de errado com este lugar?" "É úmido e frio demais embaixo", disse a primeira Formiga; "há um grande tesouro enterrado aqui; e a luz do sol não consegue aquecer o chão ao redor dele." Então as duas Formigas foram embora juntas, e o ouvinte correu para buscar uma pá.
Escavando nas proximidades do pilar, logo encontrou várias grandes jarras cheias de moedas de ouro. A descoberta desse tesouro fez dele um homem muito rico.
Depois disso, tentou muitas vezes escutar a conversa das Formigas. Mas nunca mais conseguiu ouvi-las falar. O unguento da deusa abrira seus ouvidos à misteriosa língua delas por apenas um único dia.
Ora, eu, como aquele devoto chinês, devo confessar-me pessoa muito ignorante, e naturalmente incapaz de ouvir a conversa das Formigas. Mas a Fada da Ciência às vezes toca meus ouvidos e meus olhos com sua varinha; e então, por um breve tempo, sou capaz de ouvir coisas inaudíveis e perceber coisas imperceptíveis.
II
Pela mesma razão que, em certos círculos, se considera perverso falar de um povo não cristão que produziu uma civilização eticamente superior à nossa, certas pessoas não ficarão satisfeitas com o que vou dizer sobre as formigas. Mas há homens, incomparavelmente mais sábios do que jamais posso esperar ser, que pensam sobre insetos e civilizações independentemente das bênçãos do Cristianismo; e encontro encorajamento na nova Cambridge Natural History, que contém as seguintes observações do professor David Sharp a respeito das formigas:-
"A observação revelou os fenômenos mais notáveis na vida desses insetos. De fato, mal podemos evitar a conclusão de que eles adquiriram, em muitos aspectos, a arte de viver juntos em sociedades mais perfeitamente do que nossa própria espécie; e que se anteciparam a nós na aquisição de algumas das indústrias e artes que facilitam grandemente a vida social."
Suponho que poucas pessoas bem informadas contestarão essa afirmação clara de um especialista treinado. O homem de ciência contemporâneo não costuma sentimentalizar formigas ou abelhas; mas não hesitará em reconhecer que, em relação à evolução social, esses insetos parecem ter avançado "além do homem". O sr. Herbert Spencer, a quem ninguém acusará de tendências românticas, vai consideravelmente mais longe que o professor Sharp; mostrando-nos que as formigas são, em sentido muito real, eticamente assim como economicamente adiantadas em relação à humanidade, pois suas vidas são inteiramente devotadas a fins altruísticos. De fato, o professor Sharp qualifica um tanto desnecessariamente seu elogio da formiga com esta observação cautelosa:-
"A competência da formiga não é como a do homem. Ela se dedica ao bem-estar da espécie antes que ao do indivíduo, que é, por assim dizer, sacrificado ou especializado em benefício da comunidade."
- A implicação óbvia, de que qualquer estado social no qual o aperfeiçoamento do indivíduo seja sacrificado ao bem comum deixa muito a desejar, é provavelmente correta do ponto de vista humano atual. Pois o homem ainda é imperfeitamente evoluído; e a sociedade humana tem muito a ganhar com sua individualização ulterior. Mas, em relação aos insetos sociais, a crítica implícita é discutível. "O aperfeiçoamento do indivíduo", diz Herbert Spencer, "consiste em melhor ajustá-lo à cooperação social; e isso, sendo conducente à prosperidade social, é conducente à manutenção da raça." Em outras palavras, o valor do indivíduo só pode estar em relação à sociedade; e, concedido isso, se o sacrifício do indivíduo em favor dessa sociedade é bom ou mau deve depender daquilo que a sociedade poderia ganhar ou perder por uma individualização ulterior de seus membros... Mas, como veremos dentro em pouco, as condições da sociedade das formigas que mais merecem nossa atenção são as condições éticas; e estas estão além da crítica humana, pois realizam aquele ideal de evolução moral descrito pelo sr. Spencer como "um estado em que egoísmo e altruísmo são tão conciliados que um se funde no outro". Isto é, um estado em que o único prazer possível é o prazer da ação desinteressada. Ou, para citar de novo o sr. Spencer, as atividades da sociedade dos insetos são "atividades que postergam tão completamente o bem-estar individual ao bem-estar da comunidade que a vida individual parece ser atendida apenas na medida exatamente necessária para tornar possível a devida atenção à vida social,... o indivíduo tomando apenas exatamente tal alimento e tal repouso quanto sejam necessários para manter seu vigor."
III
Espero que meu leitor saiba que as formigas praticam horticultura e agricultura; que são hábeis no cultivo de cogumelos; que domesticaram (segundo o conhecimento atual) quinhentos e oitenta e quatro tipos diferentes de animais; que fazem túneis através de rocha sólida; que sabem como prevenir mudanças atmosféricas que poderiam pôr em perigo a saúde de suas crianças; e que, para insetos, sua longevidade é excepcional, vivendo os membros das espécies mais altamente evoluídas por um número considerável de anos.
Mas não é especialmente sobre esses assuntos que desejo falar. Aquilo de que quero tratar é a terrível propriedade, a formidável moralidade, da formiga[1]. Nossos mais apavorantes ideais de conduta ficam aquém da ética da formiga, como o progresso é calculado no tempo, por nada menos que milhões de anos!... Quando digo "a formiga", refiro-me ao tipo mais alto de formiga, não, naturalmente, à família inteira das formigas. Cerca de duas mil espécies de formigas já são conhecidas; e estas exibem, em suas organizações sociais, graus de evolução amplamente variados. Certos fenômenos sociais da maior importância biológica, e de importância não menor em sua estranha relação com o tema da ética, podem ser estudados com proveito apenas na existência das sociedades de formigas mais altamente evoluídas.
Depois de tudo que se escreveu nos últimos anos sobre o provável valor da experiência relativa na longa vida da formiga, suponho que poucas pessoas se aventurariam a negar caráter individual à formiga. A inteligência da pequena criatura ao enfrentar e superar dificuldades de tipo inteiramente novo, e ao adaptar-se a condições totalmente estranhas à sua experiência, prova considerável poder de pensamento independente. Mas ao menos isto é certo: que a formiga não possui individualidade capaz de exercer-se numa direção puramente egoísta; uso a palavra "egoísta" em sua acepção comum. Uma formiga gananciosa, uma formiga sensual, uma formiga capaz de qualquer um dos sete pecados mortais, ou mesmo de um pequeno pecado venial, é inimaginável. Igualmente inimaginável, naturalmente, uma formiga romântica, uma formiga ideológica, uma formiga poética, ou uma formiga inclinada a especulações metafísicas. Nenhuma mente humana poderia alcançar a qualidade absolutamente factual da mente da formiga; nenhum ser humano, como agora constituído, poderia cultivar um hábito mental tão impecavelmente prático quanto o da formiga. Mas essa mente supremamente prática é incapaz de erro moral. Seria difícil, talvez, provar que a formiga não tem ideias religiosas. Mas é certo que tais ideias não poderiam ter utilidade alguma para ela. O ser incapaz de fraqueza moral está além da necessidade de "orientação espiritual".
Apenas de modo vago podemos conceber o caráter da sociedade das formigas e a natureza da moralidade das formigas; e, para fazer mesmo isso, devemos tentar imaginar algum estado ainda impossível da sociedade humana e da moral humana. Imaginemos, então, um mundo cheio de pessoas trabalhando incessante e furiosamente, todas elas parecendo mulheres. Nenhuma dessas mulheres poderia ser persuadida ou iludida a tomar um único átomo de alimento além do necessário para manter sua força; e nenhuma delas jamais dorme um segundo mais do que o necessário para conservar seu sistema nervoso em boa ordem de funcionamento. E todas são constituídas de modo tão peculiar que a menor indulgência desnecessária resultaria em algum desarranjo de função.
O trabalho diariamente executado por essas trabalhadoras compreende abertura de estradas, construção de pontes, corte de madeira, construção arquitetônica de inúmeros tipos, horticultura e agricultura, alimentação e abrigo de uma centena de variedades de animais domésticos, fabricação de diversos produtos químicos, armazenamento e conservação de incontáveis gêneros alimentícios, e cuidado das crianças da raça. Todo esse trabalho é feito pela comunidade, nenhum cidadão da qual é capaz sequer de pensar em "propriedade", exceto como res publica; e o único objeto da comunidade é a nutrição e o treinamento de seus jovens, quase todos meninas. O período de infância é longo: as crianças permanecem por muito tempo não apenas desamparadas, mas informes, e além disso tão delicadas que devem ser cuidadosamente protegidas contra a menor mudança de temperatura. Felizmente suas amas compreendem as leis da saúde: cada uma sabe perfeitamente tudo que deve saber a respeito de ventilação, desinfecção, drenagem, umidade e perigo dos germes, talvez os germes sendo tão visíveis para sua visão míope quanto se tornam para nossos próprios olhos ao microscópio. De fato, todos os assuntos de higiene são tão bem compreendidos que nenhuma ama jamais comete erro sobre as condições sanitárias de sua vizinhança.
Apesar desse trabalho perpétuo, nenhuma trabalhadora permanece desalinhada: cada uma é escrupulosamente asseada, fazendo sua toalete muitas vezes ao dia. Mas, como toda trabalhadora nasce com os mais belos pentes e escovas presos aos pulsos, não se perde tempo no quarto de toalete. Além de manterem-se estritamente limpas, as trabalhadoras devem também manter suas casas e jardins em ordem impecável, por causa das crianças. Nada menos que um terremoto, uma erupção, uma inundação ou uma guerra desesperada é permitido interromper a rotina diária de tirar pó, varrer, esfregar e desinfetar.
IV
Agora, fatos mais estranhos:-
Esse mundo de labuta incessante é um mundo mais que vestal. É verdade que machos às vezes podem ser percebidos nele; mas aparecem apenas em estações particulares, e nada têm, absolutamente, a ver com as trabalhadoras ou com o trabalho. Nenhum deles presumiria dirigir-se a uma trabalhadora, exceto, talvez, em circunstâncias extraordinárias de perigo comum. E nenhuma trabalhadora pensaria em falar com um macho; pois os machos, nesse mundo estranho, são seres inferiores, igualmente incapazes de lutar ou trabalhar, e tolerados apenas como males necessários. Uma classe especial de fêmeas, as Mães-Eleitas da raça, de fato condescende em consorciar-se com machos durante um período muito breve, em estações particulares. Mas as Mães-Eleitas não trabalham; e elas devem aceitar maridos. Uma trabalhadora não poderia sequer sonhar em manter companhia com um macho, não apenas porque tal associação significaria o mais frívolo desperdício de tempo, nem ainda porque a trabalhadora necessariamente considere todos os machos com desprezo indizível; mas porque a trabalhadora é incapaz de casamento. Algumas trabalhadoras, de fato, são capazes de partenogênese e dão à luz crianças que nunca tiveram pais. Como regra geral, contudo, a trabalhadora é verdadeiramente feminina apenas por seus instintos morais: tem toda a ternura, a paciência e a previsão que chamamos "maternais"; mas seu sexo desapareceu, como o sexo da Donzela-Dragão (Dragon-Maiden) na lenda budista.
Para defesa contra criaturas de presa, ou inimigos do Estado, as trabalhadoras são providas de armas; e além disso são protegidas por uma grande força militar. As guerreiras são tão maiores que as trabalhadoras (ao menos em algumas comunidades) que é difícil, à primeira vista, acreditar que sejam da mesma raça. Soldados cem vezes maiores que as trabalhadoras que guardam não são incomuns. Mas todos esses soldados são Amazonas, ou, mais corretamente falando, semifêmeas. Podem trabalhar vigorosamente; mas, sendo construídas principalmente para lutar e para puxar coisas pesadas, sua utilidade se restringe às direções em que força, antes que habilidade, é necessária.
[Por que fêmeas, antes que machos, foram evolutivamente especializadas em soldados e trabalhadoras pode não ser pergunta tão simples quanto parece. Tenho muita certeza de não ser capaz de respondê-la. Mas a economia natural talvez tenha decidido a questão. Em muitas formas de vida, a fêmea excede grandemente o macho em volume e energia; talvez, neste caso, a maior reserva de força vital possuída originalmente pela fêmea completa pudesse ser mais rápida e efetivamente utilizada para o desenvolvimento de uma casta especial de combate. Todas as energias que, na fêmea fértil, seriam gastas em dar vida parecem aqui ter sido desviadas para a evolução do poder agressivo, ou da capacidade de trabalho.]
Das verdadeiras fêmeas, as Mães-Eleitas, há pouquíssimas; e estas são tratadas como rainhas. São servidas tão constantemente e com tanta reverência que raramente podem ter quaisquer desejos a expressar. São aliviadas de todo cuidado da existência, exceto o dever de gerar descendência. Noite e dia são cuidadas de todas as maneiras possíveis. Somente elas são superabundantemente e ricamente alimentadas: em favor da descendência, devem comer e beber e repousar de maneira verdadeiramente régia; e sua especialização fisiológica permite tal indulgência ad libitum. Raramente saem, e nunca a menos que acompanhadas por poderosa escolta; pois não se pode permitir que incorram em fadiga ou perigo desnecessários. Provavelmente não têm grande desejo de sair. Ao redor delas gira toda a atividade da raça: toda a sua inteligência, labor e economia se dirigem unicamente ao bem-estar dessas Mães e de seus filhos.
Mas por último e em menor posição na raça estão os maridos dessas Mães, os Males necessários, os machos. Aparecem apenas numa estação particular, como já observei; e suas vidas são muito curtas. Alguns nem podem vangloriar-se de nobre descendência, embora destinados a núpcias reais; pois não são progênie real, mas nascidos de virgem, filhos partenogenéticos, e, por essa razão especialmente, seres inferiores, resultados ocasionais de algum misterioso atavismo. Mas, de qualquer tipo de machos, a comunidade tolera poucos, apenas o bastante para servir de maridos às Mães-Eleitas; e esses poucos perecem quase assim que seu dever foi cumprido. O significado da lei da Natureza, neste mundo extraordinário, é idêntico ao ensinamento de Ruskin de que vida sem esforço é crime; e, como os machos são inúteis como trabalhadores ou combatentes, sua existência tem importância apenas momentânea. Não são, de fato, sacrificados, como a vítima asteca escolhida para o festival de Tezcatlipoca e a quem se permitia uma lua de mel de vinte dias antes que seu coração fosse arrancado. Mas são pouco menos desafortunados em sua alta fortuna. Imaginai jovens criados no conhecimento de que estão destinados a se tornar noivos reais por uma única noite, que depois de suas bodas não terão direito moral de viver, que o casamento, para todos e cada um deles, significará morte certa, e que nem sequer podem esperar ser lamentados por suas jovens viúvas, que lhes sobreviverão por um tempo de muitas gerações...!
V
Mas tudo o que precede não é mais que um prólogo ao verdadeiro "Romance do Mundo dos Insetos".
- De longe a descoberta mais espantosa em relação a essa civilização surpreendente é a supressão do sexo. Em certas formas avançadas de vida das formigas, o sexo desaparece totalmente na maioria dos indivíduos; em quase todas as sociedades superiores de formigas, a vida sexual parece existir apenas na medida absolutamente necessária à continuação da espécie. Mas o fato biológico em si é muito menos espantoso que a sugestão ética que oferece; pois essa supressão prática, ou regulação, da faculdade sexual parece ser voluntária! Voluntária, ao menos, no que diz respeito à espécie. Acredita-se agora que essas criaturas maravilhosas aprenderam como desenvolver, ou deter o desenvolvimento, do sexo em seus jovens, por algum modo particular de nutrição. Conseguiram colocar sob perfeito controle aquilo que comumente se supõe ser o mais poderoso e ingovernável dos instintos. E essa rígida restrição da vida sexual aos limites necessários para prevenir a extinção é apenas uma (embora a mais assombrosa) de muitas economias vitais efetuadas pela raça. Toda capacidade para prazer egoístico, no sentido comum da palavra "egoístico", foi igualmente reprimida por modificação fisiológica. Nenhuma indulgência de qualquer apetite natural é possível exceto no grau em que tal indulgência possa, direta ou indiretamente, beneficiar a espécie; até as necessidades indispensáveis de alimento e sono sendo satisfeitas apenas na exata medida necessária à manutenção de atividade saudável. O indivíduo pode existir, agir, pensar, apenas para o bem comum; e a comuna recusa triunfantemente, na medida em que a lei cósmica permite, deixar-se governar pelo Amor ou pela Fome.
A maioria de nós foi criada na crença de que, sem algum tipo de credo religioso, alguma esperança de recompensa futura ou medo de punição futura, nenhuma civilização poderia existir. Fomos ensinados a pensar que, na ausência de leis baseadas em ideias morais, e na ausência de uma polícia eficaz para fazer cumprir tais leis, quase todos buscariam apenas sua vantagem pessoal, em detrimento de todos os demais. Os fortes então destruiriam os fracos; piedade e simpatia desapareceriam; e todo o tecido social cairia em pedaços... Esses ensinamentos confessam a imperfeição existente da natureza humana; e contêm verdade óbvia. Mas aqueles que primeiro proclamaram essa verdade, milhares e milhares de anos atrás, nunca imaginaram uma forma de existência social em que o egoísmo fosse naturalmente impossível. Coube à Natureza irreligiosa fornecer-nos prova positiva de que pode existir uma sociedade em que o prazer da beneficência ativa torna desnecessária a ideia de dever, uma sociedade em que a moralidade instintiva pode dispensar códigos éticos de todo tipo, uma sociedade da qual cada membro nasce tão absolutamente desinteressado, e tão energicamente bom, que a educação moral poderia significar, mesmo para o mais jovem, nem mais nem menos que desperdício de tempo precioso.
Para o Evolucionista, tais fatos necessariamente sugerem que o valor de nosso idealismo moral é apenas temporário; e que algo melhor que a virtude, melhor que a bondade, melhor que a abnegação, no significado humano atual desses termos, poderia, sob certas condições, eventualmente substituí-los. Ele se vê obrigado a encarar a questão de saber se um mundo sem noções morais talvez não fosse moralmente melhor que um mundo em que a conduta é regulada por tais noções. Deve até perguntar a si mesmo se a existência de mandamentos religiosos, leis morais e padrões éticos entre nós não prova que ainda estamos num estágio muito primitivo da evolução social. E essas perguntas naturalmente conduzem a outra: será que a humanidade algum dia será capaz, neste planeta, de alcançar uma condição ética além de todos os seus ideais, uma condição em que tudo que agora chamamos mal terá atrofiado até deixar de existir, e tudo que chamamos virtude terá sido transmutado em instinto; um estado de altruísmo em que conceitos e códigos éticos terão se tornado tão inúteis quanto seriam, mesmo agora, nas sociedades das formigas superiores?
Os gigantes do pensamento moderno deram alguma atenção a essa questão; e o maior entre eles respondeu-a, em parte, afirmativamente. Herbert Spencer expressou sua crença de que a humanidade chegará a algum estado de civilização eticamente comparável ao da formiga:-
"Se temos, nas ordens inferiores de criaturas, casos em que a natureza está constitucionalmente tão modificada que atividades altruísticas se tornaram uma só coisa com atividades egoísticas, há uma implicação irresistível de que uma identificação paralela ocorrerá, sob condições paralelas, entre seres humanos. Os insetos sociais nos fornecem exemplos completamente pertinentes, e exemplos que nos mostram, de fato, a que grau maravilhoso a vida do indivíduo pode ser absorvida em servir às vidas de outros indivíduos... Nem a formiga nem a abelha podem supor-se dotadas de senso de dever, na acepção que damos a essa palavra; nem se pode supor que estejam continuamente passando por autossacrifício, na acepção comum dessa palavra... [Os fatos] nos mostram que está dentro das possibilidades da organização produzir uma natureza que seja tão enérgica na busca de fins altruísticos quanto, em outros casos, se mostra na busca de fins egoísticos; e mostram que, em tais casos, esses fins altruísticos são perseguidos ao perseguir fins que, em sua outra face, são egoísticos. Para a satisfação das necessidades da organização, essas ações, conducentes ao bem-estar de outros, devem ser realizadas...
"Longe de ser verdade que deva prosseguir, por todo o futuro, uma condição em que a consideração por si mesmo seja continuamente submetida pela consideração pelos outros, ocorrerá, ao contrário, que a consideração pelos outros eventualmente se tornará fonte tão grande de prazer que superará o prazer derivável da gratificação egoística direta... Eventualmente, então, virá também um estado em que egoísmo e altruísmo estarão tão conciliados que um se fundirá no outro."
VI
Naturalmente, a previsão anterior não implica que a natureza humana jamais passará por mudança fisiológica tal que fosse representada por especializações estruturais comparáveis àquelas pelas quais se diferenciam as várias castas das sociedades de insetos. Não somos convidados a imaginar um estado futuro da humanidade em que a maioria ativa consistiria de trabalhadoras semifêmeas e Amazonas labutando por uma minoria inativa de Mães selecionadas. Mesmo em seu capítulo "A População Humana no Futuro", o sr. Spencer não tentou nenhuma declaração detalhada das modificações físicas inevitáveis à produção de tipos morais superiores, embora sua declaração geral a respeito de um sistema nervoso aperfeiçoado e de uma grande diminuição da fertilidade humana sugira que tal evolução moral significaria uma quantidade muito considerável de mudança física. Se é legítimo acreditar numa humanidade futura para a qual o prazer da beneficência mútua representará toda a alegria da vida, não seria também legítimo imaginar outras transformações, físicas e morais, que os fatos da biologia dos insetos provaram estar dentro do alcance da possibilidade evolutiva?... Não sei. Reverencio Herbert Spencer com a maior veneração como o maior filósofo que já apareceu neste mundo; e ficaria muito pesaroso de escrever algo contrário ao seu ensinamento de tal modo que o leitor pudesse imaginá-lo inspirado pela Filosofia Sintética (Synthetic Philosophy). Pelas reflexões que seguem, sou eu apenas o responsável; e, se erro, que o pecado recaia sobre minha própria cabeça.
Suponho que as transformações morais previstas pelo sr. Spencer só poderiam ser efetuadas com o auxílio de mudança fisiológica, e a um custo terrível. Essas condições éticas manifestadas pelas sociedades de insetos só podem ter sido alcançadas por esforço desesperadamente sustentado durante milhões de anos contra as necessidades mais atrozes. Necessidades igualmente impiedosas talvez tenham de ser enfrentadas e dominadas finalmente pela raça humana. O sr. Spencer mostrou que o tempo do maior sofrimento humano possível ainda está por vir, e que será concomitante com o período da maior pressão populacional possível. Entre outros resultados desse longo estresse, entendo que haverá vasto aumento da inteligência e da simpatia humanas; e que esse aumento de inteligência será efetuado à custa da fertilidade humana. Mas esse declínio no poder reprodutivo não será, segundo nos dizem, suficiente para assegurar as mais altas condições sociais: apenas aliviará aquela pressão populacional que tem sido a principal causa do sofrimento humano. O estado de perfeito equilíbrio social será aproximado, mas nunca alcançado completamente, pela humanidade-
A menos que se descubra algum meio de resolver os problemas econômicos exatamente como os insetos sociais os resolveram, pela supressão da vida sexual.
Supondo que tal descoberta fosse feita, e que a raça humana decidisse deter o desenvolvimento do sexo na maioria de seus jovens, a fim de efetuar uma transferência daquelas forças, agora demandadas pela vida sexual, para o desenvolvimento de atividades superiores, não poderia o resultado ser um estado eventual de polimorfismo, como o das formigas? E, em tal evento, não poderia a Raça Vindoura ser de fato representada em seus tipos superiores, pela evolução feminina antes que masculina, por uma maioria de seres sem sexo?
Considerando quantas pessoas, mesmo agora, por motivos meramente desinteressados (para não falar dos religiosos), sentenciam a si mesmas ao celibato, não deveria parecer improvável que uma humanidade mais altamente evoluída sacrificasse alegremente grande proporção de sua vida sexual pelo bem comum, particularmente tendo em vista certas vantagens a serem obtidas. Não a menor dessas vantagens, sempre supondo que a humanidade fosse capaz de controlar a vida sexual à maneira natural das formigas, seria um aumento prodigioso da longevidade. Os tipos superiores de uma humanidade superior ao sexo talvez fossem capazes de realizar o sonho de vida por mil anos.
Já achamos as vidas curtas demais para o trabalho que temos a fazer; e, com o progresso constantemente acelerado da descoberta e a expansão incessante do conhecimento, certamente encontraremos cada vez mais razão, com o passar do tempo, para lamentar a brevidade da existência. Que a Ciência um dia descubra o Elixir da esperança dos Alquimistas é extremamente improvável. As Potências Cósmicas não nos permitirão enganá-las. Por cada vantagem que nos concedem, o preço integral deve ser pago: nada por nada é a lei eterna. Talvez o preço da longa vida se revele o preço que as formigas pagaram por ela. Talvez, em algum planeta mais antigo, esse preço já tenha sido pago, e o poder de produzir descendência esteja restrito a uma casta morfologicamente diferenciada, de modos inimagináveis, do restante da espécie...
VII
Mas, enquanto os fatos da biologia dos insetos sugerem tanto a respeito do curso futuro da evolução humana, não sugerem também algo da maior significação quanto à relação da ética com a lei cósmica? Aparentemente, a evolução mais alta não será permitida a criaturas capazes daquilo que a experiência moral humana condenou em todas as áreas. Aparentemente, a maior força possível é a força do desinteresse; e o poder supremo jamais será concedido à crueldade ou à luxúria. Talvez não haja deuses; mas as forças que moldam e dissolvem todas as formas do ser pareceriam ser muito mais exigentes que deuses. Provar uma "tendência dramática" nos caminhos das estrelas não é possível; mas o processo cósmico parece, ainda assim, afirmar o valor de todo sistema humano de ética fundamentalmente oposto ao egoísmo humano.