De um Espelho e um Sino Kwaidan: Histórias e Estudos de Coisas Estranhas · Capítulo 7 de 21
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De um Espelho e um Sino

De um Espelho e um Sino

Há oito séculos, os sacerdotes de Mugenyama, na província de Tōtōmi (1), queriam um grande sino para seu templo; e pediram às mulheres de sua paróquia que os ajudassem contribuindo com antigos espelhos de bronze para o metal do sino.

[Mesmo hoje, nos pátios de certos templos japoneses, podem-se ver montes de velhos espelhos de bronze doados para tal fim. A maior coleção desse tipo que já vi ficava no pátio de um templo da seita Jōdo, em Hakata, em Kyūshū: os espelhos haviam sido oferecidos para a fabricação de uma estátua de bronze de Amida, com trinta e três pés de altura.]

Havia naquele tempo uma jovem mulher, esposa de um lavrador, vivendo em Mugenyama, que ofereceu seu espelho ao templo, para ser usado no metal do sino. Mas depois ela se arrependeu muito de seu espelho. Lembrou-se das coisas que sua mãe lhe contara a respeito dele; e lembrou-se de que ele pertencera não apenas à sua mãe, mas à mãe de sua mãe e à avó de sua mãe; e lembrou-se de alguns sorrisos felizes que ele refletira. Naturalmente, se pudesse ter oferecido aos sacerdotes certa soma em dinheiro no lugar do espelho, poderia ter-lhes pedido que devolvessem sua herança. Mas ela não tinha o dinheiro necessário. Sempre que ia ao templo, via seu espelho deitado no pátio, atrás de uma grade, entre centenas de outros espelhos amontoados ali. Reconhecia-o pelo Shō-Chiku-Bai em relevo no verso, aqueles três emblemas afortunados do pinheiro, do bambu e da flor de ameixeira, que tinham encantado seus olhos de bebê quando sua mãe lhe mostrou o espelho pela primeira vez. Ansiava por alguma oportunidade de furtar o espelho e escondê-lo, para que depois pudesse guardá-lo sempre como tesouro. Mas a oportunidade não vinha; e ela ficou muito infeliz, sentindo como se tivesse tolamente dado embora uma parte de sua própria vida. Pensava no velho ditado segundo o qual o espelho é a Alma de uma Mulher, ditado misticamente expresso, pelo caractere chinês para Alma, no verso de muitos espelhos de bronze, e temia que ele fosse verdadeiro de modos mais estranhos do que antes imaginara. Mas não ousava falar de sua dor a ninguém.

Ora, quando todos os espelhos doados para o sino de Mugenyama foram enviados à fundição, os fundidores descobriram que havia entre eles um espelho que não derretia. Repetidas vezes tentaram fundi-lo; mas ele resistia a todos os esforços. Evidentemente, a mulher que dera aquele espelho ao templo devia ter-se arrependido da doação. Não apresentara sua oferta de todo o coração; e, portanto, sua alma egoísta, permanecendo presa ao espelho, mantinha-o duro e frio no meio da fornalha.

É claro que todos ouviram falar do caso, e todos logo souberam de quem era o espelho que não queria derreter. Por causa dessa exposição pública de sua falta secreta, a pobre mulher ficou muito envergonhada e muito zangada. E, como não pôde suportar a vergonha, afogou-se, depois de escrever uma carta de despedida contendo estas palavras:-

"Quando eu estiver morta, não será difícil derreter o espelho e fundir o sino. Mas, à pessoa que quebrar esse sino tocando-o, grande riqueza será dada pelo meu fantasma."

- Deveis saber que o último desejo ou promessa de qualquer pessoa que morre em cólera, ou se suicida em cólera, é geralmente tido como possuidor de uma força sobrenatural. Depois que o espelho da mulher morta foi derretido e o sino foi fundido com sucesso, as pessoas se lembraram das palavras daquela carta. Tinham certeza de que o espírito da autora daria riqueza a quem quebrasse o sino; e, assim que o sino foi suspenso no pátio do templo, foram em multidão tocá-lo. Com toda a força de seus braços, balançavam o madeiro de percussão; mas o sino mostrou ser um bom sino e resistiu bravamente aos ataques. Ainda assim, o povo não desanimou facilmente. Dia após dia, a todas as horas, continuaram a tocar furiosamente o sino, sem se importar minimamente com os protestos dos sacerdotes. Assim, o badalar tornou-se uma aflição; e os sacerdotes não puderam suportá-lo; e livraram-se do sino rolando-o colina abaixo para dentro de um pântano. O pântano era profundo e o engoliu, e esse foi o fim do sino. Apenas sua lenda permanece; e nessa lenda ele é chamado Mugen-Kané, ou Sino de Mugen.

Ora, há antigas e curiosas crenças japonesas na eficácia mágica de certa operação mental implicada, embora não descrita, pelo verbo nazoraëru. A palavra em si não pode ser adequadamente traduzida por nenhuma palavra inglesa; pois é usada em relação a muitos tipos de magia mimética, assim como em relação à prática de muitos atos religiosos de fé. Significados comuns de nazoraëru, segundo os dicionários, são "imitar", "comparar", "assemelhar"; mas o sentido esotérico é substituir, na imaginação, um objeto ou ação por outro, de modo a produzir algum resultado mágico ou milagroso.

Por exemplo:- talvez não possas arcar com a construção de um templo budista; mas podes facilmente colocar uma pedrinha diante da imagem do Buda, com o mesmo sentimento piedoso que te levaria a construir um templo se fosses rico o bastante para construir um. O mérito de oferecer assim a pedrinha torna-se igual, ou quase igual, ao mérito de erguer um templo... Talvez não possas ler os seis mil setecentos e setenta e um volumes dos textos budistas; mas podes fazer girar uma biblioteca rotativa que os contenha, empurrando-a como a um sarilho. E, se a empurras com o sincero desejo de que pudesses ler os seis mil setecentos e setenta e um volumes, adquirirás o mesmo mérito que a leitura deles te permitiria obter... Talvez isto baste para explicar os significados religiosos de nazoraëru.

Os significados mágicos não poderiam ser todos explicados sem uma grande variedade de exemplos; mas, para os fins presentes, servirá o seguinte. Se fizesses um pequeno homem de palha, pela mesma razão por que a Irmã Helen fez um pequeno homem de cera, e o pregasses, com pregos de não menos de cinco polegadas de comprimento, a alguma árvore num bosque de templo, na Hora do Boi (2), e se a pessoa imaginativamente representada por aquele homenzinho de palha morresse depois em atroz agonia, isso ilustraria uma significação de nazoraëru... Ou suponhamos que um ladrão tenha entrado em tua casa durante a noite e levado teus objetos de valor. Se puderes descobrir as pegadas desse ladrão em teu jardim, e em seguida queimar prontamente uma moxa muito grande sobre cada uma delas, as solas dos pés do ladrão ficarão inflamadas e não lhe permitirão descanso até que ele volte, por vontade própria, para pôr-se à tua mercê. Esse é outro tipo de magia mimética expresso pelo termo nazoraëru. E um terceiro tipo é ilustrado por várias lendas do Mugen-Kané.

Depois que o sino foi rolado para dentro do pântano, naturalmente já não havia chance de tocá-lo de maneira a quebrá-lo. Mas pessoas que lamentavam a perda dessa oportunidade golpeavam e quebravam objetos imaginativamente substituídos pelo sino, esperando assim agradar ao espírito da dona do espelho que causara tanto transtorno. Uma dessas pessoas foi uma mulher chamada Umégaë, famosa na lenda japonesa por sua relação com Kajiwara Kagesue, guerreiro do clã Heiké. Enquanto o par viajava junto, Kajiwara certa vez se viu em grande aperto por falta de dinheiro; e Umégaë, lembrando a tradição do Sino de Mugen, tomou uma bacia de bronze e, representando-a mentalmente como o sino, bateu nela até quebrá-la, clamando ao mesmo tempo por trezentas peças de ouro. Um hóspede da estalagem onde os dois estavam hospedados perguntou a causa do estrondo e dos gritos e, ao saber a história da dificuldade, de fato presenteou Umégaë com trezentos ryō (3) em ouro. Depois, compôs-se uma canção sobre a bacia de bronze de Umégaë; e essa canção é cantada por dançarinas até hoje:-

Umégaë no chōzubachi tataïté O-kané ga déru naraba Mina San mi-uké wo Sōré tanomimasu

["Se, batendo na bacia de lavar de Umégaë, eu pudesse fazer com que honrado dinheiro viesse a mim, então negociaria a liberdade de todas as minhas companheiras."]

Depois desse acontecimento, a fama do Mugen-Kané tornou-se grande; e muitas pessoas seguiram o exemplo de Umégaë, esperando assim igualar sua sorte. Entre essas pessoas havia um lavrador dissoluto que vivia perto de Mugenyama, à margem do Ōïgawa. Tendo desperdiçado seus bens em vida desregrada, esse lavrador fez para si, com a lama de seu jardim, um modelo de barro do Mugen-Kané; e bateu no sino de barro e o quebrou, clamando enquanto isso por grande riqueza.

Então, da terra diante dele, ergueu-se a figura de uma mulher vestida de branco, com longos cabelos soltos e ondulantes, segurando uma jarra coberta. E a mulher disse: "Vim responder à tua fervorosa prece como ela merece ser respondida. Toma, portanto, esta jarra." Dizendo isso, pôs a jarra em suas mãos e desapareceu.

Para dentro de casa correu o homem feliz, para contar à esposa a boa notícia. Colocou diante dela a jarra coberta, que era pesada, e juntos a abriram. E descobriram que estava cheia, até a borda, de...

Mas não! Eu realmente não posso dizer-vos de que estava cheia.

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