Rokuro-kubi Kwaidan: Histórias e Estudos de Coisas Estranhas · Capítulo 10 de 21
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Rokuro-kubi

Rokuro-kubi

Há quase quinhentos anos, havia um samurai chamado Isogai Héïdazaëmon Takétsura, a serviço do senhor Kikuji, de Kyūshū. Esse Isogai herdara, de muitos antepassados guerreiros, uma aptidão natural para os exercícios militares e uma força extraordinária. Ainda menino, superara seus mestres na arte da espada, no arco e no uso da lança, e revelara todas as capacidades de um soldado ousado e hábil. Mais tarde, no tempo da guerra de Eikyō[1], distinguiu-se tanto que altas honrarias lhe foram concedidas. Mas, quando a casa de Kikuji caiu em ruína, Isogai viu-se sem senhor. Poderia então facilmente ter obtido serviço sob outro daimyō; mas, como nunca buscara distinção apenas por si mesmo, e como seu coração permaneceu fiel ao antigo senhor, preferiu renunciar ao mundo. Assim, cortou os cabelos e tornou-se sacerdote viajante, tomando o nome budista de Kwairyō.

Mas sempre, sob o koromo[2] do sacerdote, Kwairyō conservou quente dentro de si o coração do samurai. Como em outros anos rira do perigo, agora também desprezava o perigo; e em todos os climas e todas as estações viajava para pregar a boa Lei em lugares aonde nenhum outro sacerdote ousaria ir. Pois aquela era uma época de violência e desordem; e nas estradas não havia segurança para o viajante solitário, mesmo que por acaso fosse sacerdote.

No curso de sua primeira longa jornada, Kwairyō teve ocasião de visitar a província de Kai. (1) Certa noite, enquanto viajava pelas montanhas daquela província, a escuridão o alcançou numa região muito solitária, léguas distante de qualquer aldeia. Então resignou-se a passar a noite sob as estrelas; e, tendo encontrado à beira da estrada um ponto gramado adequado, deitou-se ali e preparou-se para dormir. Sempre acolhera o desconforto; e até uma rocha nua era para ele uma boa cama, quando nada melhor se podia encontrar, e a raiz de um pinheiro, um excelente travesseiro. Seu corpo era de ferro; e nunca se inquietava com orvalhos, chuva, geada ou neve.

Mal se deitara quando um homem surgiu pela estrada, carregando um machado e um grande feixe de lenha cortada. Esse lenhador parou ao ver Kwairyō deitado e, depois de um momento de observação silenciosa, disse-lhe num tom de grande surpresa:-

"Que espécie de homem podeis ser, bom senhor, para ousardes deitar-vos sozinho num lugar como este?... Há assombrações por aqui, muitas delas. Não tendes medo das Coisas Peludas?"

"Meu amigo", respondeu alegremente Kwairyō, "sou apenas um sacerdote errante, um 'Hóspede de Nuvem e Água', como o povo diz: Unsui-no-ryokaku. (2) E não tenho o menor medo de Coisas Peludas, se quereis dizer raposas-feiticeiras, texugos-feiticeiros ou quaisquer criaturas desse tipo. Quanto aos lugares solitários, gosto deles: são apropriados à meditação. Estou acostumado a dormir ao ar livre; e aprendi a nunca me inquietar com minha vida."

"Deveis ser de fato um homem corajoso, senhor sacerdote", respondeu o camponês, "para deitar-vos aqui! Este lugar tem má fama, fama muito má. Mas, como diz o provérbio, Kunshi ayayuki ni chikayorazu ['O homem superior não se expõe desnecessariamente ao perigo']; e devo assegurar-vos, senhor, que é muito perigoso dormir aqui. Portanto, embora minha casa seja apenas uma miserável cabana de palha, permiti que eu vos rogue vir comigo agora mesmo. Em matéria de comida, nada tenho a oferecer; mas há pelo menos um teto, e podereis dormir sob ele sem risco."

Ele falou com seriedade; e Kwairyō, gostando do tom bondoso do homem, aceitou essa oferta modesta. O lenhador guiou-o por uma trilha estreita, que subia da estrada principal através da floresta montanhosa. Era uma trilha áspera e perigosa, às vezes margeando precipícios, às vezes oferecendo ao pé apenas uma rede de raízes escorregadias, às vezes serpenteando sobre ou entre massas de rocha serrilhada. Mas por fim Kwairyō encontrou-se num espaço aberto no alto de uma colina, com a lua cheia brilhando acima; e viu diante de si uma pequena cabana de palha, alegremente iluminada por dentro. O lenhador levou-o a um abrigo nos fundos da casa, para onde a água fora conduzida, por tubos de bambu, desde algum riacho próximo; e os dois homens lavaram os pés. Além do abrigo havia uma horta e um bosque de cedros e bambus; e além das árvores aparecia o clarão de uma cascata, caindo de alguma altura mais elevada e oscilando ao luar como uma longa veste branca.

Quando Kwairyō entrou na cabana com seu guia, percebeu quatro pessoas, homens e mulheres, aquecendo as mãos junto a um pequeno fogo aceso no ro[3] do aposento principal. Curvaram-se profundamente diante do sacerdote e o saudaram da maneira mais respeitosa. Kwairyō estranhou que pessoas tão pobres, e vivendo em tal solidão, conhecessem as formas polidas de saudação. "São boas pessoas", pensou consigo; "e devem ter sido ensinadas por alguém bem familiarizado com as regras de propriedade." Então, voltando-se para seu anfitrião, o aruji, ou dono da casa, como os outros o chamavam, Kwairyō disse:-

"Pela bondade de vossa fala e pela acolhida tão cortês que me foi dada por vossa família, imagino que nem sempre fostes lenhador. Talvez outrora pertencêsseis a uma das classes superiores?"

Sorrindo, o lenhador respondeu:-

"Senhor, não vos enganais. Embora agora eu viva como me vedes, fui um dia pessoa de certa distinção. Minha história é a história de uma vida arruinada, arruinada por minha própria culpa. Eu costumava servir a um daimyō; e minha posição nesse serviço não era insignificante. Mas amei demais as mulheres e o vinho; e, sob a influência da paixão, agi perversamente. Meu egoísmo provocou a ruína de nossa casa e causou a morte de muitas pessoas. A retribuição me perseguiu; e por muito tempo permaneci fugitivo pela terra. Agora rezo frequentemente para que me seja possível fazer alguma expiação pelo mal que pratiquei e restabelecer a casa ancestral. Mas temo nunca encontrar modo de fazê-lo. Ainda assim, procuro vencer o karma de meus erros por sincero arrependimento e ajudando, tanto quanto posso, os desafortunados."

Kwairyō ficou satisfeito com essa declaração de boa resolução; e disse ao aruji:-

"Meu amigo, tive ocasião de observar que homens inclinados à insensatez na juventude podem, em anos posteriores, tornar-se muito sinceros na vida reta. Nos santos sûtras está escrito que os mais fortes no mal podem tornar-se, pelo poder da boa resolução, os mais fortes no bem. Não duvido de que tendes bom coração; e espero que melhor fortuna vos venha. Esta noite recitarei os sûtras por vossa causa e rezarei para que obtenhais a força de vencer o karma de quaisquer erros passados."

Com essas garantias, Kwairyō deu boa-noite ao aruji; e seu anfitrião mostrou-lhe um quartinho lateral, onde uma cama fora preparada. Então todos adormeceram, exceto o sacerdote, que começou a ler os sûtras à luz de uma lanterna de papel. Até tarde continuou a ler e rezar; depois abriu uma pequena janela em seu quartinho de dormir para lançar um último olhar à paisagem antes de deitar-se. A noite era bela: não havia nuvem no céu; não havia vento; e o forte luar projetava sombras negras e nítidas da folhagem, e cintilava nos orvalhos do jardim. O estridular de grilos e insetos-sinos (3) fazia um tumulto musical; e o som da cascata próxima aprofundava-se com a noite. Kwairyō sentiu sede ao ouvir o ruído da água; e, lembrando-se do aqueduto de bambu nos fundos da casa, pensou que poderia ir até lá beber sem perturbar a família adormecida. Muito suavemente afastou os painéis corrediços que separavam seu quarto do aposento principal; e viu, à luz da lanterna, cinco corpos reclinados, sem cabeças!

Por um instante ficou desnorteado, imaginando um crime. Mas no momento seguinte percebeu que não havia sangue e que os pescoços sem cabeça não pareciam ter sido cortados. Então pensou consigo:- "Ou isto é uma ilusão criada por espíritos, ou fui atraído à morada de um Rokuro-Kubi... (4) No livro Sōshinki (5) está escrito que, se alguém encontra o corpo de um Rokuro-Kubi sem a cabeça e remove o corpo para outro lugar, a cabeça nunca mais conseguirá unir-se ao pescoço. E o livro diz ainda que, quando a cabeça volta e descobre que seu corpo foi movido, bate-se contra o chão três vezes, saltando como uma bola, ofega como em grande medo, e logo morre. Ora, se estes são Rokuro-Kubi, não me querem bem; portanto estarei justificado em seguir as instruções do livro."...

Agarrou o corpo do aruji pelos pés, puxou-o até a janela e empurrou-o para fora. Depois foi à porta dos fundos, que encontrou trancada por dentro; e supôs que as cabeças tivessem saído pelo buraco de fumaça no teto, que fora deixado aberto. Destrancando suavemente a porta, abriu caminho até o jardim e seguiu com toda a cautela possível para o bosque além dele. Ouviu vozes conversando no bosque; e foi na direção das vozes, esgueirando-se de sombra em sombra até alcançar um bom esconderijo. Então, por trás de um tronco, avistou as cabeças, todas as cinco, adejando de um lado para outro e conversando enquanto adejavam. Comiam vermes e insetos que encontravam no chão ou entre as árvores. Logo a cabeça do aruji parou de comer e disse:-

"Ah, aquele sacerdote viajante que veio esta noite! Como todo o seu corpo é gordo! Quando o tivermos comido, nossas barrigas ficarão bem cheias... Fui tolo em falar com ele como falei; isso apenas o pôs a recitar os sûtras em favor de minha alma! Aproximar-nos dele enquanto recita seria difícil; e não podemos tocá-lo enquanto estiver rezando. Mas, como agora já é quase manhã, talvez ele tenha adormecido... Algum de vós vá à casa e veja o que o sujeito está fazendo."

Outra cabeça, a cabeça de uma jovem mulher, imediatamente ergueu-se e voou até a casa, leve como um morcego. Depois de alguns minutos voltou e gritou roucamente, num tom de grande alarme:-

"Aquele sacerdote viajante não está na casa; foi embora! Mas isso não é o pior. Ele levou o corpo de nosso aruji; e não sei onde o pôs."

Ao ouvir esse anúncio, a cabeça do aruji, nitidamente visível ao luar, assumiu um aspecto terrível: seus olhos se abriram monstruosamente; seus cabelos se eriçaram; e seus dentes rangeram. Então um grito rompeu de seus lábios; e, chorando lágrimas de raiva, exclamou:-

"Já que meu corpo foi movido, unir-me a ele é impossível! Então devo morrer!... E tudo por obra daquele sacerdote! Antes de morrer vou alcançar aquele sacerdote! Vou rasgá-lo! Vou devorá-lo!... E ali está ele, atrás daquela árvore! Escondido atrás daquela árvore! Vede-o! O covarde gordo!"...

No mesmo instante a cabeça do aruji, seguida pelas outras quatro cabeças, lançou-se contra Kwairyō. Mas o forte sacerdote já se armara arrancando uma árvore jovem; e com essa árvore golpeou as cabeças quando vieram, afastando-as com pancadas tremendas. Quatro delas fugiram. Mas a cabeça do aruji, embora espancada uma e outra vez, continuou desesperadamente a saltar contra o sacerdote, e por fim prendeu-se à manga esquerda de sua veste. Kwairyō, porém, com igual rapidez agarrou a cabeça pelo topete e golpeou-a repetidamente. Ela não soltou a presa; mas emitiu um longo gemido e depois deixou de lutar. Estava morta. Mas seus dentes ainda seguravam a manga; e, apesar de toda a sua grande força, Kwairyō não conseguiu abrir-lhe as mandíbulas.

Com a cabeça ainda pendurada à manga, voltou à casa; e ali avistou os outros quatro Rokuro-Kubi agachados juntos, com as cabeças machucadas e sangrentas reunidas aos corpos. Mas, quando o perceberam à porta dos fundos, todos gritaram: "O sacerdote! o sacerdote!" e fugiram, pela outra entrada, para dentro da floresta.

A leste o céu clareava; o dia estava prestes a nascer; e Kwairyō sabia que o poder dos espíritos era limitado às horas de escuridão. Olhou para a cabeça presa à sua manga, o rosto todo sujo de sangue, espuma e barro; e riu alto ao pensar consigo: "Que miyagé![4], a cabeça de um espírito!" Depois disso, reuniu seus poucos pertences e desceu sem pressa a montanha para continuar sua jornada.

Seguiu adiante até chegar a Suwa, em Shinano; (6) e pela rua principal de Suwa avançou solenemente, com a cabeça balançando junto ao cotovelo. Então mulheres desmaiaram, crianças gritaram e fugiram; e houve grande ajuntamento e clamor até que os torité (como se chamava a polícia naqueles dias) prenderam o sacerdote e o levaram à cadeia. Pois supunham que a cabeça fosse a de um homem assassinado que, no momento de ser morto, agarrara com os dentes a manga do assassino. Quanto a Kwairyō, apenas sorria e nada dizia quando o interrogavam. Assim, depois de passar uma noite na prisão, foi levado diante dos magistrados do distrito. Então lhe ordenaram que explicasse como ele, um sacerdote, fora encontrado com a cabeça de um homem presa à manga, e por que ousara assim desfilar sem vergonha seu crime diante do povo.

Kwairyō riu longa e sonoramente dessas perguntas; e então disse:-

"Senhores, não prendi a cabeça à minha manga: ela mesma se prendeu ali, muito contra a minha vontade. E não cometi crime algum. Pois esta não é cabeça de homem; é cabeça de um espírito; e, se causei a morte do espírito, não o fiz por derramamento de sangue, mas simplesmente tomando as precauções necessárias para assegurar minha própria segurança."... E passou a relatar toda a aventura, irrompendo em outra risada franca ao contar seu encontro com as cinco cabeças.

Mas os magistrados não riram. Julgaram-no um criminoso endurecido, e sua história, um insulto à inteligência deles. Portanto, sem mais interrogatório, decidiram ordenar sua execução imediata, todos exceto um, homem muito idoso. Esse velho oficial não fizera comentário algum durante o julgamento; mas, depois de ouvir a opinião dos colegas, levantou-se e disse:-

"Examinemos primeiro a cabeça cuidadosamente; pois isso, creio, ainda não foi feito. Se o sacerdote falou a verdade, a própria cabeça deve testemunhar em seu favor... Trazei a cabeça aqui!"

Assim, a cabeça, ainda segurando nos dentes o koromo que fora arrancado dos ombros de Kwairyō, foi posta diante dos juízes. O velho virou-a de um lado para outro, examinou-a cuidadosamente, e descobriu, na nuca, vários estranhos caracteres vermelhos. Chamou a atenção de seus colegas para eles, e também lhes pediu que observassem que as bordas do pescoço em parte alguma apresentavam aparência de terem sido cortadas por qualquer arma. Ao contrário, a linha de separação era lisa como a linha pela qual uma folha caída se desprende do caule... Então disse o ancião:-

"Estou bem certo de que o sacerdote nos disse apenas a verdade. Esta é a cabeça de um Rokuro-Kubi. No livro Nan-hō-ï-butsu-shi está escrito que certos caracteres vermelhos sempre podem ser encontrados na nuca de um verdadeiro Rokuro-Kubi. Aqui estão os caracteres: podeis ver por vós mesmos que não foram pintados. Além disso, é bem sabido que tais espíritos habitam as montanhas da província de Kai desde tempos muito antigos... Mas vós, senhor", exclamou ele, voltando-se para Kwairyō, "que espécie de sacerdote robusto podeis ser? Certamente destes prova de uma coragem que poucos sacerdotes possuem; e tendes mais o ar de soldado que de sacerdote. Talvez tenhais pertencido outrora à classe dos samurais?"

"Adivinhastes corretamente, senhor", respondeu Kwairyō. "Antes de me tornar sacerdote, segui por muito tempo a profissão das armas; e naqueles dias nunca temi homem nem demônio. Meu nome então era Isogai Héïdazaëmon Takétsura, de Kyūshū: talvez haja entre vós alguns que o recordem."

À menção daquele nome, um murmúrio de admiração encheu a sala do tribunal; pois havia muitos presentes que se lembravam dele. E Kwairyō imediatamente se viu entre amigos em vez de juízes, amigos ansiosos por provar sua admiração com bondade fraterna. Com honra o escoltaram à residência do daimyō, que o recebeu, ofereceu-lhe banquete e deu-lhe belo presente antes de permitir que partisse. Quando Kwairyō deixou Suwa, estava tão feliz quanto é permitido a qualquer sacerdote estar neste mundo transitório. Quanto à cabeça, levou-a consigo, insistindo jocosamente que a destinava a ser um miyagé.

E agora resta apenas contar o que aconteceu à cabeça.

Um ou dois dias depois de deixar Suwa, Kwairyō encontrou um ladrão, que o deteve num lugar solitário e ordenou que se despisse. Kwairyō removeu imediatamente seu koromo e o ofereceu ao ladrão, que então pela primeira vez percebeu o que pendia da manga. Embora corajoso, o salteador assustou-se: deixou cair a vestimenta e saltou para trás. Então gritou:- "Vós! Que espécie de sacerdote sois? Ora, sois homem pior do que eu! É verdade que matei pessoas; mas nunca andei por aí com a cabeça de alguém presa à manga... Bem, senhor sacerdote, suponho que somos do mesmo ofício; e devo dizer que vos admiro!... Agora essa cabeça me seria útil: eu poderia assustar pessoas com ela. Quereis vendê-la? Podeis ficar com minha túnica em troca de vosso koromo; e vos darei cinco ryō pela cabeça."

Kwairyō respondeu:-

"Deixarei que fiqueis com a cabeça e a veste, se insistis; mas devo dizer-vos que esta não é cabeça de homem. É cabeça de espírito. Portanto, se a comprares e tiveres algum problema em consequência, lembra-te, por favor, de que não foste enganado por mim."

"Que sacerdote agradável sois!", exclamou o ladrão. "Matais homens e brincais sobre isso!... Mas eu falo muito sério. Aqui está minha túnica; e aqui está o dinheiro; deixai-me ficar com a cabeça... Para que essa brincadeira?"

"Leva a coisa", disse Kwairyō. "Eu não estava brincando. A única brincadeira, se há alguma brincadeira, é que és tolo o bastante para pagar bom dinheiro por uma cabeça de espírito." E Kwairyō seguiu seu caminho, rindo alto.

Assim o ladrão ficou com a cabeça e o koromo; e por algum tempo fez-se de sacerdote-espírito pelas estradas. Mas, chegando à vizinhança de Suwa, soube ali a verdadeira história da cabeça; e então teve medo de que o espírito do Rokuro-Kubi lhe causasse problemas. Por isso decidiu levar a cabeça de volta ao lugar de onde viera e enterrá-la com seu corpo. Encontrou o caminho até a cabana solitária nas montanhas de Kai; mas não havia ninguém lá, e ele não conseguiu descobrir o corpo. Portanto, enterrou a cabeça sozinha no bosque atrás da cabana; mandou erguer uma lápide sobre a sepultura; e fez realizar um serviço de Ségaki em favor do espírito do Rokuro-Kubi. E essa lápide, conhecida como a Lápide do Rokuro-Kubi, pode ser vista (ao menos assim declara o contador japonês da história) até o dia de hoje.

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