Riki-Baka Kwaidan: Histórias e Estudos de Coisas Estranhas · Capítulo 16 de 21
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Riki-Baka

Riki-Baka

Seu nome era Riki, significando Força; mas as pessoas o chamavam Riki-o-Simples, ou Riki-o-Tolo, "Riki-Baka", porque nascera numa infância perpétua. Pela mesma razão eram bondosas com ele, até mesmo quando pôs fogo numa casa ao encostar um fósforo aceso num mosquiteiro, e bateu palmas de alegria ao ver a chama. Aos dezesseis anos era um rapaz alto e forte; mas na mente permanecia sempre na idade feliz de dois anos, e por isso continuava a brincar com crianças muito pequenas. As crianças maiores da vizinhança, de quatro a sete anos, não gostavam de brincar com ele, porque ele não conseguia aprender suas canções e jogos. Seu brinquedo favorito era um cabo de vassoura, que usava como cavalinho; e por horas a fio cavalgava esse cabo de vassoura, subindo e descendo a ladeira diante de minha casa, com espantosas explosões de riso. Mas por fim tornou-se incômodo por causa do barulho; e tive de lhe dizer que precisava encontrar outro lugar para brincar. Ele se curvou submissamente e então foi embora, arrastando tristemente o cabo de vassoura atrás de si. Gentil em todos os momentos, e perfeitamente inofensivo se não lhe fosse dada chance de brincar com fogo, raramente dava a alguém motivo de queixa. Sua relação com a vida de nossa rua era pouco mais que a de um cachorro ou de uma galinha; e, quando finalmente desapareceu, não senti sua falta. Meses e meses se passaram antes que algo acontecesse para me fazer lembrar de Riki.

"Que foi feito de Riki?", perguntei então ao velho lenhador que abastece nossa vizinhança com combustível. Lembrei-me de que Riki muitas vezes o ajudara a carregar seus feixes.

"Riki-Baka?", respondeu o velho. "Ah, Riki morreu, pobre sujeito!... Sim, morreu há quase um ano, muito de repente; os médicos disseram que ele tinha alguma doença do cérebro. E agora há uma história estranha sobre aquele pobre Riki.

"Quando Riki morreu, sua mãe escreveu o nome dele, 'Riki-Baka', na palma de sua mão esquerda, pondo 'Riki' em caractere chinês, e 'Baka' em kana (1). E repetiu muitas preces por ele, preces para que renascesse em alguma condição mais feliz.

"Ora, há cerca de três meses, na honrada residência de Nanigashi-Sama (2), em Kojimachi (3), nasceu um menino com caracteres na palma da mão esquerda; e os caracteres eram perfeitamente claros de ler, 'RIKI-BAKA'!

"Então as pessoas daquela casa souberam que o nascimento devia ter acontecido em resposta à prece de alguém; e mandaram fazer perguntas por toda parte. Por fim, um vendedor de legumes levou-lhes a notícia de que costumava haver um rapaz simples, chamado Riki-Baka, vivendo no bairro de Ushigomé, e que ele morrera durante o último outono; e eles enviaram dois criados para procurar a mãe de Riki.

"Esses criados encontraram a mãe de Riki e contaram-lhe o que havia acontecido; e ela ficou extremamente feliz, pois aquela casa de Nanigashi era uma casa muito rica e famosa. Mas os criados disseram que a família de Nanigashi-Sama estava muito zangada por causa da palavra 'Baka' na mão da criança. 'E onde está enterrado vosso Riki?', perguntaram os criados. 'Está enterrado no cemitério de Zendōji', disse ela. 'Por favor, dai-nos um pouco da terra de seu túmulo', pediram.

"Assim ela foi com eles ao templo Zendōji e mostrou-lhes o túmulo de Riki; e eles levaram consigo um pouco da terra da sepultura, embrulhada num furoshiki[1].... Deram à mãe de Riki algum dinheiro, dez ienes."... (4)

"Mas o que queriam com aquela terra?", perguntei.

"Bem", respondeu o velho, "sabeis que não convinha deixar a criança crescer com aquele nome na mão. E não há outro meio de remover caracteres que aparecem desse modo no corpo de uma criança: é preciso esfregar a pele com terra retirada do túmulo do corpo do nascimento anterior."...

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