A tarde A Cachoeira de Paulo Afonso · Capítulo 1 de 31
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A tarde

Era a hora em que a tarde se debruça

Lá da crista das serras mais remotas...

E d'araponga o canto, que soluça,

Acorda os ecos nas sombrias grotas;

Quando sobre a lagoa, que s'embuça,

Passa o bando selvagem das gaivotas...

E a onça sobre as lapas salta urrando,

Da cordilheira os visos abalando.

Era a hora em que os cardos rumorejam

Como um abrir de bocas inspiradas,

E os angicos as comas espanejam

Pelos dedos das auras perfumadas...

A hora em que as gardênias, que se beijam,

São tímidas, medrosas desposadas;

E a pedra... a flor... as selvas... os condores

Gaguejam... falam... cantam seus amores!

Hora meiga da Tarde! Como és bela

Quando surges do azul da zona ardente!

... Tu és do céu a pálida donzela,

Que se banha nas termas do oriente...

Quando é gota do banho cada estrela,

Que te rola da espádua refulgente...

E, — prendendo-te a trança a meia lua,

Te enrolas em neblinas seminua!...

Eu amo-te, ó mimosa do infinito!

Tu me lembras o tempo em que era infante.

Inda adora-te o peito do precito

No meio do martírio excruciante;

E, se não te dá mais da infância o grito

Que menino elevava-te arrogante,

É que agora os martírios foram tantos,

Que mesmo para o riso só tem prantos!...

Mas não m'esqueço nunca dos fraguedos

Onde infante selvagem me guiavas,

E os ninhos do sofrer que entre os silvedos

Da embaíba nos ramos me apontavas;

Nem, mais tarde, dos lânguidos segredos

De amor do nenufar que enamoravas...

E as tranças mulheris da granadilha!...

E os abraços fogosos da baunilha!...

E te amei tanto — cheia de harmonias

A murmurar os cantos da serrana, —

A lustrar o broquel das serranias,

A doirar dos rendeiros a cabana...

E te amei tanto — à flor das águas frias —

Da lagoa agitando a verde cana,

Que sonhava morrer entre os palmares,

Fitando o céu ao tom dos teus cantares!...

Mas hoje, da procela aos estridores,

Sublime, desgrenhada sobre o monte,

Eu quisera fitar-te entre os condores

Das nuvens arruivadas do horizonte...

... Para então, — do relâmpago aos livores,

Que descobrem do espaço a larga fronte, —

Contemplando o infinito..., na floresta

Rolar ao som da funeral orquestra!!!

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