História de um crime A Cachoeira de Paulo Afonso · Capítulo 21 de 31
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História de um crime

"Fazem hoje muitos anos

Que de uma escura senzala

Na estreita e lodosa sala

Arquejava u'a mulher.

Lá fora por entre as urzes

O vendaval s'estorcia...

E aquela triste agonia

Vinha mais triste fazer.

"A pobre sofria muito.

Do peito cansado, exangue,

Às vezes rompia o sangue

E lhe inundava os lençóis.

Então, como quem se agarra

Às últimas esperanças,

Duas pávidas crianças

Ela olhava... e ria após.

"Que olhar! que olhar tão extenso!

Que olhar tão triste e profundo!

Vinha já de um outro mundo,

Vinha talvez lá do céu.

Era o raio derradeiro.

Que a lua, quando se apaga,

Manda por cima da vaga

Da espuma por entre o véu.

"Ainda me lembro agora

Daquela noite sombria,

Em que u'a mulher morria

Sem rezas, sem oração!...

Por padre — duas crianças...

E apenas por sentinela

Do Cristo a face amarela

No meio da escuridão.

"Às vezes naquela fronte

Como que a morte pousava

E da agonia aljofrava

O derradeiro suor...

Depois acordava a mártir,

Como quem tem um segredo...

Ouvia em torno com medo,

Com susto olhava em redor.

"Enfim, quando noite velha

Pesava sobre a mansarda,

E somente o cão de guarda

Ladrava aos ermos sem fim,

Ela, nos braços sangrentos

As crianças apertando,

Num tom meigo, triste e brando

Pôs-se a falar-lhes assim.

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