O bandolim da desgraça A Cachoeira de Paulo Afonso · Capítulo 26 de 31
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O bandolim da desgraça

Quando de amor a Americana douda

A moda tange na febril viola,

E a mão febrenta sobre a corda fina

Nervosa, ardente, sacudida rola.

A gusla geme, s'estorcendo em ânsias,

Rompem gemidos do instrumento em pranto...

Choro indizível... comprimir de peitos...

Queixas, soluços... desvairado canto!

E mais dorida a melodia arqueja!

E mais nervosa corre a mão nas cordas!...

Ai! tem piedade das crianças louras

Que soluçando no instrumento acordas!...

"Ai! tem piedade dos meus seios trêmulos..."

Diz estalando o bandolim queixoso.

... E a mão palpita-lhe apertando as fibras...

E fere, e fere em dedilhar nervoso!...

Sobre o regaço da mulher trigueira,

Doida, cruel, a execução delira!...

Então — co'as unhas cor-de-rosa, a moça,

Quebrando as cordas, o instrumento atira!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Assim, Desgraça, quando tu, maldita!

As cordas d'alma delirante vibras...

Como os teus dedos espedaçam rijos

Uma por uma do infeliz as fibras!

— Basta —, murmura esse instrumento vivo.

— Basta —, murmura o coração rangendo,

E tu, no entanto, num rasgar de artérias,

Feres lasciva em dedilhar tremendo.

Crença, esperança, mocidade e glória,

Aos teus arpejos, — gemebundas morrem!...

Resta uma corda... — a dos amores puros — ...

E mais ardentes os teus dedos correm!...

E quando farta a cortesã cansada

A pobre gusla no tapete atira,

Que resta?... — Uma alma — que não tem mais vida!

Olhos — sem pranto! Desmontada — lira!!!

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