Na fonte A Cachoeira de Paulo Afonso · Capítulo 14 de 31
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Na fonte

I

"Era hoje ao meio-dia.

Nem uma brisa macia

Pela savana bravia

Arrufava os ervaçais...

Um sol de fogo abrasava;

Tudo a sombra procurava;

Só a cigarra cantava

No tronco dos coqueirais.

II

"Eu cobri-me da mantilha,

Na cabeça pus a bilha,

Tomei do deserto a trilha,

Que lá na fonte vai dar.

Cansada cheguei na mata:

Ali, na sombra, a cascata

As alvas tranças desata

Como u'a moça a brincar.

III

"Era tão densa a espessura!

Corria a brisa tão pura!

Reinava tanta frescura,

Que eu quis me banhar ali.

Olhei em roda... Era quedo

O mato, o campo, o rochedo...

Só nas galhas do arvoredo

Saltava alegre o sagüi.

IV

"Junto às águas cristalinas

Despi-me louca, traquinas,

E as roupas alvas e finas

Atirei sobre os cipós.

Depois mirei-me inocente,

E ri vaidosa... e contente...

Mas voltei-me de repente...

Como que ouvira uma voz!

V

"Quem foi que passou ligeiro,

Mexendo ali no ingazeiro,

E se embrenhou no balceiro,

Rachando as folhas do chão?...

Quem foi?! Da mata sombria

Uma vermelha cutia

Saltou tímida e bravia,

Em procura do sertão.

VI

"Chamei-me então de criança;

A meus pés a onda mansa

Por entre os juncos s'entrança

Como uma cobra a fugir!

Mergulho o pé docemente;

Com o frio fujo à corrente...

De um salto após de repente

Fui dentro d'água cair.

VII

"Quando o sol queima as estradas,

E nas várzeas abrasadas

Do vento as quentes lufadas

Erguem novelos de pó,

Como é doce em meio às canas,

Sob um teto de lianas,

Das ondas nas espadanas

Banhar-se despida e só!...

VIII

"Rugitavam os palmares...

Em torno dos nenufares

Zumbiam pejando os ares

Mil insetos de rubim...

Eu naquele leito brando

Rolava alegre cantando...

Súbito... um ramo estalando

Salta um homem junto a mim!"

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