O segredo A Cachoeira de Paulo Afonso · Capítulo 24 de 31
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O segredo

"Agora vou dizer-te por que morro;

Mas hás de jurar primeiro,

Que jamais tuas mãos inocentes

Ferirão meu algoz derradeiro...

Meu filho, eu fui a vítima

Da raiva e do ciúme.

Matou-me como um tigre carniceiro,

Bem vês,

Uma branca mulher, que em si resume

Do tigre — a malvadez,

Do cascavel — o rancor!...

Deixo-te, pois...

— Um grito de vingança?

— Não, pobre criança! ...

Um crime a perdoar... o que é melhor!...

"Depois. teve razão... Esta mulher

É tua e minha senhora!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Lucas, silêncio! que por ela implora

Teu pai... e teu irmão! ...

"Teu irmão, que é seu filho... (ó magoa e dor!)

"Teu pai — que é seu marido... e teu senhor! ...

"Juras não me vingar? — ó mãe, eu juro

Por ti, pelos beijos teus!

"— Obrigada! agora... agora

Já nada mais me demora...

Deus! — recebe a pecadora!

Filho! — recebe este adeus!"

______________

Quando, rompendo as barras do oriente,

A estrela da manhã mais desmaiava,

E o vento da floresta ao céu levava

O canto jovial do bem-te-vi;

Na casinha de palha uma criança,

Da defunta abraçando o corpo frio,

Murmurava chorando em desvario:

— Eu não me vingo, ó mãe... juro por ti!..."

______________

Maria calou-se... Na fronte do Escravo

Suor de agonia gelado passou;

Com riso convulso murmura: "Que importa

Se o filho da escrava na campa jurou?!...

"Que tem o passado com o crime de agora?

Que tem a vingança, que tem com o perdão?"

E como arrancando do crânio uma idéia

Na fronte corria-lhe a gélida mão...

"Esquece o passado! Que morra no olvido...

Ou antes relembra-o cruento, feroz!

Legenda de lodo, de horror e de crimes

E gritos de vítima e risos de algoz!

"No frio da cova que jaz na explanada,

— Vingança — murmuram os ossos dos meus!"

— Não ouves um canto, que passa nos ares?

— Perdoa! — respondem as almas nos céus!"

— "São longos gemidos do seio materno

Lembrando essa noite de horror e traição!"

— "É o flébil suspiro do vento, que outrora

Bebera nos lábios da morta o perdão!..."

E descaiu profundo

Em longo meditar...

Após sombrio e fero

Viram-no murmurar:

"Mãe! Na região longínqua

Onde tua alma vive,

Sabes que eu nunca tive

Um pensamento vil.

Sabes que esta alma livre

Por ti curvou-se escrava;

E devorou a bava...

E tigre — foi reptil!

"Nem um tremor correra-me

A face fustigada!

Beijei a mão armada

Com o ferro que a feriu...

Filho, de um pai misérrimo

Fui o fiel rafeiro...

Caim, irmão traiçoeiro!

Feriste... e Abel sorriu!

"De tanto horror o cúmulo,

Ó mãe, alma celeste

Se perdoar quiseste,

Eu perdoei também.

Santificaste os míseros;

Curvei-me reverente

A eles tão-somente,

Somente... a mais ninguém!

"Ninguém! que a nada humilho-me

Na terra, nem no espaço!...

Pode ferir meu braço...

— "Lucas! não pode, não!

Mísero a mão que abrira

De tua mãe a cova...

O golpe hoje renova!...

Mata-me!... É teu irmão!..."

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