A tapéra da lua
A tapéra da lua
FORMAÇÃO DA LUA
As auroras do sol e as nuvens do occidente
Encoutram-n'a bem só no horizonte vago...
E pia a yerêrê na quéda da vertente,
E bebe o cangussú lambendo o morno lago.
A serra enorme é lá: - quaes negros crocodilos,
Que serpe.:1.ndo vão a se lançar nos rios,
Da noite á bruma fria, aos colossaes estylos,
Semelham em tropel os pincos seus sombrios.
:U.2
JS MYTHOS E POEMAS
A serra, contemplando as equatoreas zonas,
Resguarda ao seio a luz d'eterno talisman;
Ao perlustral-a outr'ora as bravas Amazonas
Chamou-se Taperé - e hoje a d' Acunan.
E dous irmãos, após combate crú, renhido,
Ficaram sobre o monte - irmão e irmã - á tôa.
- Tu ficas na Tapéra, ó meu irmão querido,
Eu desço ao lar amigo, ás margens da lagôa!
Já tua rêde armei nos castanheiros grossos:
Ao lado um arco eu puz e as flechas mais bonitas j
De cada rama antiga, aos perennaes destroços,
Virá sempre afagar-te o odor das parasitas.
Adeus, eu parto, adeus! Té quando? sim, té quando?
- Té quando a noite fôr-se e despontar o dia I
- Que venha despertar-te o sonoroso bando
Das aves mais gentis, rompendo a manhã fria.
E desce lentamente a india a vasta encosta,
A coma ao dôrso nú, a pallidez no rosto ...
E quando o braço alonga á rêde e se recosta,
Fica-lhe em frente o sol, o sol já quasi posto.
E vinha a noite além, pelos outeiros,
Enxugando o fulgor da luz do espaço:
Na testa chata, ao longo dos madeiros,
Acolhe o reptil um brilho escasso 1. ..
Rumor perdido de animaes matreiros
No estalar da folha, ao leve passo...
E do insecto á timida algazarra
Das rãs no charco a tetrica fanfarra.
Ella sentiu amor! Foi no momento
Em que sózinha, em meio á natureza,
Ouviu a selva segredar ao vento,
A estrella á cascata, á correnteza!
- Á Tapéra eu irei! O meu tormento
Quero afogar-te d'alma na grandeza ...
Na tréva te amarei; de dia - irmã!
Avante, coração! Tupan! Tupan!
Quando á rêde chegou, a branda aragem
Do sassafraz batia pelas frestas;
Escuridão no céo, calida arfagem,
Saltos no matto das cotias lestas...
Estremecia toda ... Elia, a selvagem,
Quer da mente apagar sombras funestas I
E toca a rêde ... a rêde se estremece ...
- Quem és? 1- Susurra um beijo e a voz faIlece!
E toda a noite assim na serra vasta,
- Pomba das selvas, procurava o ninho
E ás margens puras da lagôa casta
Sempre a noite a topava em seu caminho.
- Mas quem na solidão meu fado arrasta ? .•
Quem tanto affecto dá-me e tal carinho?
Genio dos serros d'além mUJ1do, azues,
Como na luz verei a tua luz?! ...
Viceja o urucú e a briza afaga
Da Tapéra a extensão, prados, rumas'
E o orvalho que chove a terra alaga
E o verde genipapo das campinas.
Belles terei a côr que não se apaga,
Com que lhe tingirei as faces finas!
Só assim saberei quem aos negrores
Vai a aurora acordar com sens fulgores.
Pela terceira vez - ella - o pudor e o crime,
Sentiu o que sentira. A terra era sublime,
Bem como os ideaes do bello, a fantasia
Da narureza inteira ao primitivo dia.
O que fazer? o que? Reflecte, e olha e scisma:
A alma vê no corpo a tréva em que se abysma.
O lago se arripia. Ás aguas branqueadas
Ao através da folha estrellas desmaiadas
Como espelhar-se vão... A india se levanta,
A serrania explora e á rêde se adianta.
Elle a espera então - ella, a irmã d' outr' ora,
Que a noite faz amante - e fal-o irmão a aurora.
- Porque tardaste tanto? Os genios bemfazejos
Ciosos são de ti, de ti, desses teus beijos ? ..
Eu amo-te, vem cá... E presa a seus joelhos,
O labia aos labios seus esplendidos, vermelhos,
Lhe amima e o doce oval que tinge, do semblante,
Com as tintas do urucú.
A india nesse instan te,
Turbada, a mão levou ao rosto e sorprendida
Notou achar-se a face um pouco humedecida.
Depois que ella desceu, e os longes da manhã
Orlavam d' ouro fusco os cimos d' Acunan,
E as trombetas em flôr e os lyrios pelos valles
Entornam sobre a terra as perl'as de seu calix,
Ella, trepada a um galho, o qual, secco, projecta
A sombra sobre o azul da lagôa quieta,
Pendendo a fronte vê, do alto pendurada,
Por entre a côr do pejo, a face então manchada.
Tomando o arco rijo, o arco affeito á guerra,
Ao céo manda uma flecha; a flecha lá s'enterra.
E outra logo após, e aos lumes sideraes
Flechando vai assim - e n'uma, n'outra - mais.
E rente estando a si a oscillante vara
Por ella galga o céo, - torna-se em lua clara!
Nas fontes, desde então, e rios, pelos mares,
Das aguas no crystal, nos lagos dos palmares,
A india vem mirar-se, á noite, em seu desgosto,
A ver s'inda conserva as manchas de seu rosto.