A tapéra da lua Mitos e poemas: Nacionalismo · Capítulo 4 de 19
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A tapéra da lua

A tapéra da lua

FORMAÇÃO DA LUA

As auroras do sol e as nuvens do occidente

Encoutram-n'a bem só no horizonte vago...

E pia a yerêrê na quéda da vertente,

E bebe o cangussú lambendo o morno lago.

A serra enorme é lá: - quaes negros crocodilos,

Que serpe.:1.ndo vão a se lançar nos rios,

Da noite á bruma fria, aos colossaes estylos,

Semelham em tropel os pincos seus sombrios.

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JS MYTHOS E POEMAS

A serra, contemplando as equatoreas zonas,

Resguarda ao seio a luz d'eterno talisman;

Ao perlustral-a outr'ora as bravas Amazonas

Chamou-se Taperé - e hoje a d' Acunan.

E dous irmãos, após combate crú, renhido,

Ficaram sobre o monte - irmão e irmã - á tôa.

- Tu ficas na Tapéra, ó meu irmão querido,

Eu desço ao lar amigo, ás margens da lagôa!

Já tua rêde armei nos castanheiros grossos:

Ao lado um arco eu puz e as flechas mais bonitas j

De cada rama antiga, aos perennaes destroços,

Virá sempre afagar-te o odor das parasitas.

Adeus, eu parto, adeus! Té quando? sim, té quando?

- Té quando a noite fôr-se e despontar o dia I

- Que venha despertar-te o sonoroso bando

Das aves mais gentis, rompendo a manhã fria.

E desce lentamente a india a vasta encosta,

A coma ao dôrso nú, a pallidez no rosto ...

E quando o braço alonga á rêde e se recosta,

Fica-lhe em frente o sol, o sol já quasi posto.

E vinha a noite além, pelos outeiros,

Enxugando o fulgor da luz do espaço:

Na testa chata, ao longo dos madeiros,

Acolhe o reptil um brilho escasso 1. ..

Rumor perdido de animaes matreiros

No estalar da folha, ao leve passo...

E do insecto á timida algazarra

Das rãs no charco a tetrica fanfarra.

Ella sentiu amor! Foi no momento

Em que sózinha, em meio á natureza,

Ouviu a selva segredar ao vento,

A estrella á cascata, á correnteza!

- Á Tapéra eu irei! O meu tormento

Quero afogar-te d'alma na grandeza ...

Na tréva te amarei; de dia - irmã!

Avante, coração! Tupan! Tupan!

Quando á rêde chegou, a branda aragem

Do sassafraz batia pelas frestas;

Escuridão no céo, calida arfagem,

Saltos no matto das cotias lestas...

Estremecia toda ... Elia, a selvagem,

Quer da mente apagar sombras funestas I

E toca a rêde ... a rêde se estremece ...

- Quem és? 1- Susurra um beijo e a voz faIlece!

E toda a noite assim na serra vasta,

- Pomba das selvas, procurava o ninho ­

E ás margens puras da lagôa casta

Sempre a noite a topava em seu caminho.

- Mas quem na solidão meu fado arrasta ? .•

Quem tanto affecto dá-me e tal carinho?

Genio dos serros d'além mUJ1do, azues,

Como na luz verei a tua luz?! ...

Viceja o urucú e a briza afaga

Da Tapéra a extensão, prados, rumas'

E o orvalho que chove a terra alaga

E o verde genipapo das campinas.

Belles terei a côr que não se apaga,

Com que lhe tingirei as faces finas!

Só assim saberei quem aos negrores

Vai a aurora acordar com sens fulgores.

Pela terceira vez - ella - o pudor e o crime,

Sentiu o que sentira. A terra era sublime,

Bem como os ideaes do bello, a fantasia

Da narureza inteira ao primitivo dia.

O que fazer? o que? Reflecte, e olha e scisma:

A alma vê no corpo a tréva em que se abysma.

O lago se arripia. Ás aguas branqueadas

Ao através da folha estrellas desmaiadas

Como espelhar-se vão... A india se levanta,

A serrania explora e á rêde se adianta.

Elle a espera então - ella, a irmã d' outr' ora,

Que a noite faz amante - e fal-o irmão a aurora.

- Porque tardaste tanto? Os genios bemfazejos

Ciosos são de ti, de ti, desses teus beijos ? ..

Eu amo-te, vem cá... E presa a seus joelhos,

O labia aos labios seus esplendidos, vermelhos,

Lhe amima e o doce oval que tinge, do semblante,

Com as tintas do urucú.

A india nesse instan te,

Turbada, a mão levou ao rosto e sorprendida

Notou achar-se a face um pouco humedecida.

Depois que ella desceu, e os longes da manhã

Orlavam d' ouro fusco os cimos d' Acunan,

E as trombetas em flôr e os lyrios pelos valles

Entornam sobre a terra as perl'as de seu calix,

Ella, trepada a um galho, o qual, secco, projecta

A sombra sobre o azul da lagôa quieta,

Pendendo a fronte vê, do alto pendurada,

Por entre a côr do pejo, a face então manchada.

Tomando o arco rijo, o arco affeito á guerra,

Ao céo manda uma flecha; a flecha lá s'enterra.

E outra logo após, e aos lumes sideraes

Flechando vai assim - e n'uma, n'outra - mais.

E rente estando a si a oscillante vara

Por ella galga o céo, - torna-se em lua clara!

Nas fontes, desde então, e rios, pelos mares,

Das aguas no crystal, nos lagos dos palmares,

A india vem mirar-se, á noite, em seu desgosto,

A ver s'inda conserva as manchas de seu rosto.

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