Tempestade dos trópicos
Tempestade dos trópicos
TEMPESTADE DOS TROPICOS
A fronte acinzentada
Do largo firmamen to
Enruga avermelhado
Fuzil; - e rosna o Vento
Passando nas abobadas
Das seculares mattas,
Ouvindo irrequieto
O ronco das cascatas!
Parece o céo um velho ...
As sombras, em novellos,
Fluctuam - longos cachos
Da barba, dos cabeIlos!
Erguendo a mão sinistra
Na alcova do Arrebol
Tropeça e cahe o Tempo
Por sobre a luz do sol.
A natureza embuça-se
Nos véos da cerração:
É qual um mago o dia,
A suspender então
Por cima das florestas
E rochas alcan tís
Um feixe de rel:l1npagos,
- As serpes dos fuzis,
Que remordendo as nuvens
•escapam, cruzam, erram,
E flammejando a cauda
a tréva o dente aferram.
A matta espavorida
Se curva aos pés do Vento:
- Missionario intrepido
Da selva, - que ao momento
Em que brame a tempesta
TE1IlPE TADE DOS TROPICOS
A soma, e abre a sacola
Do vacuo onde recebe
A s folhas por esmola
Dos grandes vegetaes,
Do piquiá, do cedro
Dos climas tropicaes !
O monge desce abysmos,
E galga a poeirenta
Montanha, e se ajoeL'1a
Nas aras da tormenta,
E diz: - Eu toda a noite
Meu breviario inteiro
Rezei, no chão, de bruços,
Aos lumes do Cruzeiro.
Preserve um genio amigo
Da Ámerica os destinos j
O' Tempestade impavida,
A ti darei meus hymnos!
A selva antecipando-se
A surdos descalabros,
Dos a' tus côr de opála.
Aos bronzeos candelabros,
Deixei, de horror transida,
Qual Magdalena outr'ora ...
E disse a Tempestade:
cc Tu vens?! - Eu desço agora! II
E as cataractas rompe.
A enormidade estoura! ...
O relam pago audaz, soltando a grenha loura,
Lá foi brilhar além, e deslumbrando a matta
É como um pente d'ouro em fontes côr de prata !...
Das chuvas ao tropel, ao vendaval que estruge,
Assombrado o jaguar a fauce abrindo ruge,
E sobre a rocha em pé abala a selva e atrôa ...
E busca a aguia o raio ... e pia, e sobe, e vôa!
Ao lento fuzilar, da serrania ao viso,
Quando esvai-se o clarão, dissereis um granizo
De chammas a cahir. .. Depois, rumor obscuro,
E uma aranha de fogo ao firmamento escuro.
Retine a solidão, a solidão feroz...
Ribomba o raio e rola a Tempestade atroz
Pelas serras e mar. .. Ás tontas, na floresta,
Nem cavas naturaes á propria féra resta,
Onde asylar-se vá. Nos troncos gottejantes,
Estendidos no chão, das arvores gigantes,
A onça negra avulta e a onça mosqueada,
Que espia n'agua a luz da pl1pilla dourada.
TEMPESTADE DOS TROPICOS 57
Estala a selva!. .. Estala ao furacão tremendo
Um lenho colossal, que em arco vem descendo,
Quasi a varrer o céo! O céo então s'inflamma
De vêr que fôra a um sec' lo o berço cada rama.
Como a saraiva são ou como gdos de areia
Os grossos pingos qne, na tran parente cheia,
Qual nítido sendal, dos tectos desiguaes
Pendura-se, da selva aos cantos vegetaes.
E jorra a enchente e jorra ... Enormes aguaceiros,
Ao louco galopar - o pinho dos outeiros
Derrubam, que rolando aos aquilães bravios
Esbarra aqui e aUi, montando os grandes rios.
Depois, corisco ao longe ... um vivido lampejo
Accende-se no ar: o derradeiro arquejo
Da Tempestade, emfim. As arvores pesadas
Da chuva, na lagôa, e mudas desgrenhadas,
De braço ao peito estão ...
Horror! Inda a borrasca
Um raio vibra á selva e um tronco eterno lasca.
E cresta, e queima, e abraza o ralO que aviventa
Nas mãos da Tempestade a tocha da tormenta!