Tempestade dos trópicos Mitos e poemas: Nacionalismo · Capítulo 11 de 19
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Tempestade dos trópicos

Tempestade dos trópicos

TEMPESTADE DOS TROPICOS

A fronte acinzentada

Do largo firmamen to

Enruga avermelhado

Fuzil; - e rosna o Vento

Passando nas abobadas

Das seculares mattas,

Ouvindo irrequieto

O ronco das cascatas!

Parece o céo um velho ...

As sombras, em novellos,

Fluctuam - longos cachos

Da barba, dos cabeIlos!

Erguendo a mão sinistra

Na alcova do Arrebol

Tropeça e cahe o Tempo

Por sobre a luz do sol.

A natureza embuça-se

Nos véos da cerração:

É qual um mago o dia,

A suspender então

Por cima das florestas

E rochas alcan tís

Um feixe de rel:l1npagos,

- As serpes dos fuzis,

Que remordendo as nuvens

•escapam, cruzam, erram,

E flammejando a cauda

a tréva o dente aferram.

A matta espavorida

Se curva aos pés do Vento:

- Missionario intrepido

Da selva, - que ao momento

Em que brame a tempesta

TE1IlPE TADE DOS TROPICOS

A soma, e abre a sacola

Do vacuo onde recebe

A s folhas por esmola

Dos grandes vegetaes,

Do piquiá, do cedro

Dos climas tropicaes !

O monge desce abysmos,

E galga a poeirenta

Montanha, e se ajoeL'1a

Nas aras da tormenta,

E diz: - Eu toda a noite

Meu breviario inteiro

Rezei, no chão, de bruços,

Aos lumes do Cruzeiro.

Preserve um genio amigo

Da Ámerica os destinos j

O' Tempestade impavida,

A ti darei meus hymnos!

A selva antecipando-se

A surdos descalabros,

Dos a' tus côr de opála.

Aos bronzeos candelabros,

Deixei, de horror transida,

Qual Magdalena outr'ora ...

E disse a Tempestade:

cc Tu vens?! - Eu desço agora! II

E as cataractas rompe.

A enormidade estoura! ...

O relam pago audaz, soltando a grenha loura,

Lá foi brilhar além, e deslumbrando a matta

É como um pente d'ouro em fontes côr de prata !...

Das chuvas ao tropel, ao vendaval que estruge,

Assombrado o jaguar a fauce abrindo ruge,

E sobre a rocha em pé abala a selva e atrôa ...

E busca a aguia o raio ... e pia, e sobe, e vôa!

Ao lento fuzilar, da serrania ao viso,

Quando esvai-se o clarão, dissereis um granizo

De chammas a cahir. .. Depois, rumor obscuro,

E uma aranha de fogo ao firmamento escuro.

Retine a solidão, a solidão feroz...

Ribomba o raio e rola a Tempestade atroz

Pelas serras e mar. .. Ás tontas, na floresta,

Nem cavas naturaes á propria féra resta,

Onde asylar-se vá. Nos troncos gottejantes,

Estendidos no chão, das arvores gigantes,

A onça negra avulta e a onça mosqueada,

Que espia n'agua a luz da pl1pilla dourada.

TEMPESTADE DOS TROPICOS 57

Estala a selva!. .. Estala ao furacão tremendo

Um lenho colossal, que em arco vem descendo,

Quasi a varrer o céo! O céo então s'inflamma

De vêr que fôra a um sec' lo o berço cada rama.

Como a saraiva são ou como gdos de areia

Os grossos pingos qne, na tran parente cheia,

Qual nítido sendal, dos tectos desiguaes

Pendura-se, da selva aos cantos vegetaes.

E jorra a enchente e jorra ... Enormes aguaceiros,

Ao louco galopar - o pinho dos outeiros

Derrubam, que rolando aos aquilães bravios

Esbarra aqui e aUi, montando os grandes rios.

Depois, corisco ao longe ... um vivido lampejo

Accende-se no ar: o derradeiro arquejo

Da Tempestade, emfim. As arvores pesadas

Da chuva, na lagôa, e mudas desgrenhadas,

De braço ao peito estão ...

Horror! Inda a borrasca

Um raio vibra á selva e um tronco eterno lasca.

E cresta, e queima, e abraza o ralO que aviventa

Nas mãos da Tempestade a tocha da tormenta!

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