A mulata Mitos e poemas: Nacionalismo · Capítulo 16 de 19
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A mulata

A mulata

Eu sou mulata vaidosa,

Linda, faceira, mimosa,

Quaes muitas brancas não são;

Tenho requebros mais bellos,

Si a noite são meus cabellos,

O dia é meu coração.

Sob a camisa bordada,

Fina, tão alva, arrendada,

'1 reme-me o seio moreno:

É como o jambo cheiroso,

Que pende ao galho frondoso

Coberto pelo sereno!

OS bicos da chinel1inha,

Quem vôa mais levesinha,

Mais levesinha do que eu? ..

Eu sou mulata tafula·

No samba, rompendo a chula,

Jámais nmguem me venceu.

Ao afinar da viola,

Quando estalo a castanhola,

Ferve a dansa e o desafio;

Peneiro n'um molle anceio,

Vou mansa n'ulD bambaleio

Qual vai a garça no rio.

Aos moços todos esquiva,

Sendo de todos captiva,

Demoro os olhares meus:

« Que tentação ... que maldicta ...

Bravo, mulata bonita' "

- Adeus, meu yôyõ, adeus ...

Minhas yáyás - da janella

Me- atiram cada olhadella. •.

Ai! dá-se 7 mortas assim I

E eu sigo mais orgulhosa,

Como si a cara raivosa

Não fosse feita p' ra mim.

Na fronte, ainda que baça,

Me assen ta o troço de cassa

Melhor que c'rôa gentil;

E eu posso dizer ufana

Que, qual mulata bahiana,

Outra não ha no Brazil.

Nos meus pulsos delicados

Trago coraes engrazados,

Contas d'ouro e coralinas;

Prendo meu panno á cintura.

Que mais realça á brancura

Das saias de rendas finas.

Se tenho um desejo agora,

De meus affectos senhora,

Sei encontraI-o no amor.

- Ai I mulata! ai! borboleta I

É tua sina inquieta,

Tu pousas de flôr em flôr.

Meus brincos de pedraria

Tombam, fazendo harmonia

Com meu cordão reluzente!

Na correntinha de prata

Tem sempre e sempre a mulata

Figuinhas de boa gente.

Eu gosto bem d'esta vida,

Que assim se passa esquecida

De tudo que é triste e vão I

Um dito bem requebrado,

Um mimo, um riso, um agrado,

Captivam meu coração.

Nos presepes da Lapinha

Só a mulata é rainha,

Meiga a mostrar-se, de novo;

Da sua face ao encanto

Vai-se o fervor pelo santo,

Pr'a o santo não olha o povo I

Minha existencia é de flôres,

De sonhos, de luz, de amores,

Alegre como um festim I

Escrava, na terra um dono,

Outro no céo sobre um throno,

Que é meu Senhor do Bomfim.

Na fronte, ainda que baça,

Me assenta o troço de cassa,

Melhor que c'rôa gentil;

E eu posso dizer ufana

Que, qual mulata bahiana,

Outra não ha no Brazil.

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