A romaria do Bom-Despacho Mitos e poemas: Nacionalismo · Capítulo 14 de 19
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A romaria do Bom-Despacho

A romaria do Bom-Despacho

BAHIA

T

A PARTIDA.

O' sertão é todo em flôres,

É todo o sertão folguedo j

Quem mette o pé nas estradas,

Quem das leguas não tem medo,

Esquece os bois nas pastagens,

O fuso, o crivo, o bicão,

O fogo, a lenda, as historias

Das noitadas do serão.

Com seu rodaque engommado,

Calça branca á domingueira,

E farfalhan te, anilada,

Lenço vermelho á algibeira,

Chapéo de palha amarella,

Se retorcendo á viola,

Um tabaréo rompe a marcha

Junto do mestre d'escola.

Felizes ranchos os seguem:

É deserta a freguezia.

Onde vão? que rumo os leva?

- Vão todos em romaria!

As moças, as sertanejas,

Na dansa que a senda encurta,

A perna mostram bem feita

Por baixo da saia curta.

No ar arrufa o pandeiro

Todo enfeitaào de fitas,

A morena peneirando

Redondas fórmas bonitas.

E guincha um carro de bois

Que abana o toldo de lona ...

Sobre o ventre, mãos ao queixo,

Goza da festa a matrona.

A mucama, os creoulinhos,

Em volta della, na esteira,

Levam promessas, alfaias,

Levam milagres de cêra.

E ferve, referve a dansa

Na pousada, em corropio ...

-- Senhora, minha senllOra,

Vou cantar meu desafio I

- Ha tanta flôr pelo matto,

Tanta fructinha no chão;

Cada flôr diz um sorriso,

Cada fructa um coração.

- Cada fructa um coração,

Mas, patricio, escute bem:

A fructa pertence a todos,

O coração é d'alguem.

- O coração é d' alguem ?

Espere, qu'eu já discorro ...

Mulata, minha mulata,

Uma umbigada qu'eu morro I

:74 MYTHOS E POEMAS

- Uma umbigada qu'eu morro ...

Não me mette figa, não;

Dê-me da branca qu' eu mostro

O cabra como é pimpão.

- O cabra como é pimpão ...

O cabra falla e não faz;

Eu tomo por testemunha

O nosso juiz de paz.

- O nosso juiz de paz,

Que faz honra á romaria ...

Com as cadeiras da mulata

Que tem sua senhoria?!

- Que tem sua senhoria ? ..

Que não tem nada, eu bem selo...

O cantador qu'é de fama

Faz dar gosto como eu dei.

- Faz dar gosto como eu dei,

Como eu dou nesta funcçã.o;

Requebra, minha mulata,

Da' maior veneração.

« Ai toma, mulata,

Toma que te dou!

Adeus, m.inha gente,

Adeus, que me vou! )1

SEGUINDO SEMPRE

Os romeiros se encaminham

Serra acima, serra abaixo;

Soltam foguetes, aos vivas

A Virgem do Bom-Despacho L.

E a multidão sertaneja,

Em seus festivos clamores,

No ar suspende, agitando,

Selvagens palmas e flõres.

Vão no carro da bagagem

Crianças, velhos, doentes;

As senhoras mais devotas,

Pias almas penitentes.

De quando em quando, na frente

Do povo, embargando o passo,

Sobre as mãos cahe um menino

Que vai virando bagaço.

(( Ai toma, mulata,

Toma, que te dou!

Adeus, minha gente,

Adeus, que me vou! »

NA ALTA DO CAMINHO

Na esplanada os romeiros,

Em cêpos, troncos, no chão,

Descansam; outros s'encostam

Aos coqueiraes do sertão.

E levando a mão á fronte,

Braço apoiado ao arvoredo,

O suor limpam, qu'escorre

E salta ao estalar do dedo.

A ROi\1ARL

o chapéo de couro, ás costas,

No rodaque de riscado,

Balança, preso á correia

Que o tem ao colo amarrado.

As sandalias, as perneiras,

Cheias do pó da jornada,

Nas ramas prendem, que descem

Quasi rentinhas da estrada.

Da trigueira o olhar tão meigo

Tem luz que incendeia e brilha;

Rescende-lhe a trança crespa

Á perfulUosa baunilha.

O sertanejo de ouvil-a,

Da jaqueira á verde copa,

Nem mais alegre escutára

As campainhas da tropa I

Emquanto reina a fieira,

Emquanto chora a viola,

Do centurão descem outros

li a faca, a pistola ...

Depois - a branca que aquece,

Lauta mesa, e vivas, ftôres;

Depois - a trova sentida,

Sentida trova de amores.

- O' trigueira dos meus olhos,

Trigueira dos olhos meus;

Os olhos d' outras trigueiras,

Não são olhos como os teus.

- Não são olhos como os teus,

Mas teu riso é que me mata,

Teus cabellos côr da noite,

Teus seios, minha mulata.

- Teus seios, minha mulata,

Teus seios não quero não;

Ha tanta cousa escondida ...

Dentro de teu coração.

(C Ai toma, mulata,

Toma, que te dou!

Adeus, minha gente,

Adeus, que me vou! »

ESPERANDO A FESTA

A bruma azul do poente

Abate os vôos no monte:

Assim colhereira mansa

Alonga as azas na fonte.

Nas lagôas, nos banhados,

Em torno aos charcos silentes,

As lavadeiras bravias

Despertam gritos plangentes.

A ermida illuminada

Com seus copinhos de côres,

Era um castello de fadas

Sobre uma cesta de ftôres.

No adro o padre, o sacrista,

Mandam foguetes ao ar.:.

Quantos romeiros na serra!. ..

Quantas canôas no mar!. ..

Vai chegando o povaréo,

Já se acampam no terreiro;

Das casas nos gruposinhos

enhuma sobra ao romeiro.

Entan to a festa lhes tarda!

Dos fieis a piedade

Espera a santa que volte,

De se encarnar, da cidade.

Os bailados, as cantigas,

O fandango, o sapateio,

As quadrinhas á viola,

Um namoro de permeio,

Enchem a noite de encantos,

Das fogueiras ao clarão,

Os valles da minha terra,

As terras do meu sertão.

Quem póde fugir ás dansas,

Quem fecha o peito á alegria?

Emquanto não chega a imagem,

Que tem de chegar com o dia,

Toca a banda dos matutos,

Olha o fogo a sertaneja,

Regaça o padre a batina

Sambando á porta da igreja:

- Aqui, minhas gente,

Eu padre não sou!

Ai toma, mulata,

Toma, que te dou!

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