A romaria do Bom-Despacho
A romaria do Bom-Despacho
BAHIA
T
A PARTIDA.
O' sertão é todo em flôres,
É todo o sertão folguedo j
Quem mette o pé nas estradas,
Quem das leguas não tem medo,
Esquece os bois nas pastagens,
O fuso, o crivo, o bicão,
O fogo, a lenda, as historias
Das noitadas do serão.
Com seu rodaque engommado,
Calça branca á domingueira,
E farfalhan te, anilada,
Lenço vermelho á algibeira,
Chapéo de palha amarella,
Se retorcendo á viola,
Um tabaréo rompe a marcha
Junto do mestre d'escola.
Felizes ranchos os seguem:
É deserta a freguezia.
Onde vão? que rumo os leva?
- Vão todos em romaria!
As moças, as sertanejas,
Na dansa que a senda encurta,
A perna mostram bem feita
Por baixo da saia curta.
No ar arrufa o pandeiro
Todo enfeitaào de fitas,
A morena peneirando
Redondas fórmas bonitas.
E guincha um carro de bois
Que abana o toldo de lona ...
Sobre o ventre, mãos ao queixo,
Goza da festa a matrona.
A mucama, os creoulinhos,
Em volta della, na esteira,
Levam promessas, alfaias,
Levam milagres de cêra.
E ferve, referve a dansa
Na pousada, em corropio ...
-- Senhora, minha senllOra,
Vou cantar meu desafio I
- Ha tanta flôr pelo matto,
Tanta fructinha no chão;
Cada flôr diz um sorriso,
Cada fructa um coração.
- Cada fructa um coração,
Mas, patricio, escute bem:
A fructa pertence a todos,
O coração é d'alguem.
- O coração é d' alguem ?
Espere, qu'eu já discorro ...
Mulata, minha mulata,
Uma umbigada qu'eu morro I
:74 MYTHOS E POEMAS
- Uma umbigada qu'eu morro ...
Não me mette figa, não;
Dê-me da branca qu' eu mostro
O cabra como é pimpão.
- O cabra como é pimpão ...
O cabra falla e não faz;
Eu tomo por testemunha
O nosso juiz de paz.
- O nosso juiz de paz,
Que faz honra á romaria ...
Com as cadeiras da mulata
Que tem sua senhoria?!
- Que tem sua senhoria ? ..
Que não tem nada, eu bem selo...
O cantador qu'é de fama
Faz dar gosto como eu dei.
- Faz dar gosto como eu dei,
Como eu dou nesta funcçã.o;
Requebra, minha mulata,
Da' maior veneração.
« Ai toma, mulata,
Toma que te dou!
Adeus, m.inha gente,
Adeus, que me vou! )1
SEGUINDO SEMPRE
Os romeiros se encaminham
Serra acima, serra abaixo;
Soltam foguetes, aos vivas
A Virgem do Bom-Despacho L.
E a multidão sertaneja,
Em seus festivos clamores,
No ar suspende, agitando,
Selvagens palmas e flõres.
Vão no carro da bagagem
Crianças, velhos, doentes;
As senhoras mais devotas,
Pias almas penitentes.
De quando em quando, na frente
Do povo, embargando o passo,
Sobre as mãos cahe um menino
Que vai virando bagaço.
(( Ai toma, mulata,
Toma, que te dou!
Adeus, minha gente,
Adeus, que me vou! »
NA ALTA DO CAMINHO
Na esplanada os romeiros,
Em cêpos, troncos, no chão,
Descansam; outros s'encostam
Aos coqueiraes do sertão.
E levando a mão á fronte,
Braço apoiado ao arvoredo,
O suor limpam, qu'escorre
E salta ao estalar do dedo.
A ROi\1ARL
o chapéo de couro, ás costas,
No rodaque de riscado,
Balança, preso á correia
Que o tem ao colo amarrado.
As sandalias, as perneiras,
Cheias do pó da jornada,
Nas ramas prendem, que descem
Quasi rentinhas da estrada.
Da trigueira o olhar tão meigo
Tem luz que incendeia e brilha;
Rescende-lhe a trança crespa
Á perfulUosa baunilha.
O sertanejo de ouvil-a,
Da jaqueira á verde copa,
Nem mais alegre escutára
As campainhas da tropa I
Emquanto reina a fieira,
Emquanto chora a viola,
Do centurão descem outros
li a faca, a pistola ...
Depois - a branca que aquece,
Lauta mesa, e vivas, ftôres;
Depois - a trova sentida,
Sentida trova de amores.
- O' trigueira dos meus olhos,
Trigueira dos olhos meus;
Os olhos d' outras trigueiras,
Não são olhos como os teus.
- Não são olhos como os teus,
Mas teu riso é que me mata,
Teus cabellos côr da noite,
Teus seios, minha mulata.
- Teus seios, minha mulata,
Teus seios não quero não;
Ha tanta cousa escondida ...
Dentro de teu coração.
(C Ai toma, mulata,
Toma, que te dou!
Adeus, minha gente,
Adeus, que me vou! »
ESPERANDO A FESTA
A bruma azul do poente
Abate os vôos no monte:
Assim colhereira mansa
Alonga as azas na fonte.
Nas lagôas, nos banhados,
Em torno aos charcos silentes,
As lavadeiras bravias
Despertam gritos plangentes.
A ermida illuminada
Com seus copinhos de côres,
Era um castello de fadas
Sobre uma cesta de ftôres.
No adro o padre, o sacrista,
Mandam foguetes ao ar.:.
Quantos romeiros na serra!. ..
Quantas canôas no mar!. ..
Vai chegando o povaréo,
Já se acampam no terreiro;
Das casas nos gruposinhos
enhuma sobra ao romeiro.
Entan to a festa lhes tarda!
Dos fieis a piedade
Espera a santa que volte,
De se encarnar, da cidade.
Os bailados, as cantigas,
O fandango, o sapateio,
As quadrinhas á viola,
Um namoro de permeio,
Enchem a noite de encantos,
Das fogueiras ao clarão,
Os valles da minha terra,
As terras do meu sertão.
Quem póde fugir ás dansas,
Quem fecha o peito á alegria?
Emquanto não chega a imagem,
Que tem de chegar com o dia,
Toca a banda dos matutos,
Olha o fogo a sertaneja,
Regaça o padre a batina
Sambando á porta da igreja:
- Aqui, minhas gente,
Eu padre não sou!
Ai toma, mulata,
Toma, que te dou!