Noites do Equador
Noites do Equador
OITES DO EQUADOR
os climas do Equador é tão tranquill:l.
A Noite pelos céos!
Os pés no mar, a fronte nas alturas
E sobre os seios seus
O tremulo filá de estrellas puras'
Ao descer da montanha que se el \'a,
Scismadora, idéal,
Dissereis, escondendo o colo mago,
A morena do vaI
Que esfria o corpo e vai banhar-se ao lago.
Das aras da savana odôres quentes
A ~arde á Noite envia,
E dos morrões do sol tomando as côres
A palmeira alumia
.A Noite americana em céos de amores.
E ella - nos lenç6es de brancas nuvens,
a solidão do espaço,
Se espreguiça em volupia, e mollemente
Ao estirar do braço
Mostra da coma o arco do crescente.
A.. floresta topando-a em seu caminho,
É mais amena e doce j
Ü rio, para ouvir-lhe o sonho brando,
Pendura-se na fouce
Do leve barco, ao remo se apartando ...
Das plagas suavlss11uas
Á rêde da floresta,
A Noite toda em festa
Descendo o ar fluctúa!
NOITES no EQUADOR
E somnolenta e límpida,
Lasciva, ardente e meiga)
Rescende á flôr da veiga
E bella e toda núa ...
Sonhando, assim levada
Das nuvens nos arminhos,
Alaga ermos caminhos
De trausparencia e luz!
Nos céos milHões d'estrellas,
Quaes borboletas d'ouro,
Palhetam seu thesouro
Nos limbos sempre azues I
Oh! quando ella apparece
Tão flllgida e brilhante
A projectar distante
Seus traços indecisos,
A selva dá-lhe aromas,
As virações bafejas,
t rra é toda em beijos,
O céu é todo em risos I
Trepando limosas pedras
Da restinga na corôa,
O pescador amarrando
Vae as cordas da canôa.
E corre o fio e na vaga
Atira a isca e o anzol,
A fiôr d'agua sobe a espuma
Que se apaga em caracol.
Nas paragens mais remotas,
Dos indios bravos na aldêa,
Conta lendas a tapuya,
Rola a criança na arêa.
Chega da caça o caboclo,
Arma a rêde em que descança;
Os outros, dos arvoredos,
Assistem, silvando, á dansa.
O vaqueiro enamorado
Canta as noites do sertão,
O rapaz da guia os riscos
Do tanger do boiadão.
a porta, a gentil matuta,
No batente da cabana,
Galhofa das serenatas,
Palmeja ouvindo a tyranna.
Findou o terço, os escravos
Louvado seja o Sen/zor
Dizem, volvendo á senzala,
Depois que os conta o feitor.
Outros, d'afanosa lida,
Á candeia do paiol,
São os espias da noite
Que vão sorprender o sol.
Das rochas altivas
Despenham-se vivas
As aguas ... lá vêm ...
Espanam-se as garças e as emas esqll1vas
Não vendo ninguem.
M. ~
50 1IlYTHOS E POEMAS
Doqdeja nas balsas
Phanta ·ticas va.lsas
Aos raios da luz,
O bando dos fogos que errando se exalça
Do chão dos paúcs.
Nos tanques, apathicas,
As plantas aquaticas
Desbrocham ... Que côres!
Parecem, pousando nas moitas selvaticas,
Subtis beija-flores!
E reza nas palmas
O côro das almac;
Das tribu de então,
Que foram traídas nas guerras mais alma.,
Vencidas... oh não!
lOS ares a lua,
Na plaga que estúa,
Afw1da-se e brilha:
Assim n'ardentia suspende a falúa
O bojo da quilha.
Doudeja nas balsas
Phantasticas va1sas
Aos raios da luz,
O bando de fogos que errando se exalça
Do chão dos paúes.
As claras noites do Equador são moças
Que o céos bu cam contentes'
As noites negras, tetricas, e curas,
E cravas que as correntes
Mostram do pulso a Deus nas desventuras.
E ellas, germinando o horror dos crimes
- Da escravidã.o imagem,
Passam quietas, quando o crime passa,
Ao gargalhar selvagem
Do mocho que nos craneo esvoaça
E nas trévas lá vão... lá vão fugindo
a aridez do pranto;
Os mortos têm pavor - de seus caixões
Lhes tecem roto manto
De fatua luz e vis exhalações.
i\IYTHOS E POEMAS
As noites do Equador são as ciganas
Lendo da selva as sinas j
Si lhes empresta o sol a côr morena,
O céo as faz divinas!
-~-