A véspera de Reis
A véspera de Reis
A VESPERA DE REIS
"BARIA
É vesp'ra de Reis 1- o povo,
Que estima festas tão snas,
Guarnece a Praça, () Terreiro,
Esquinas, adros e ruas.
Aos uatuq ues, as creoulas
Batendo palmas lá vão ....
E chora e chora a IDodÍlilia
Nas cordas do violão.
As mulatas requebradas,
As sultanas da Bahia,
Essas musas predilectas
Da popular poesia,
A chula animam, as dansas,
Riso ao labia e alma franca,
De panno da Costa ao hombro
E troço de cassa branca.
Nos batentes das janellas,
Nas sacadas dos sobrados
Vê-se moças e meninos
Ás grades dependurados.
E na moldura de um chale
Que já não se usa agora,
De vez em quando uma velha
Bota a cabeça de fóra.
Pela muralha formada
De longinqua escuridão,
Rebenta um rio de luzes
Por onde adeja a canção.
E aos archotes que circundam
O panacum da bltrrin/la,
Seguem ranchos de pastores
Aos presepes da Lapinha.
A VESPERA DE REIS
(C O' de casa, nobre gente,
Escutai e ouvireis,
Lá das bandas do Oriente
8110 chegados os tres Reis. ))
Os ranchos ornados
De fitas e flôres,
Trajando costumes
De todas as côres,
Arrufam pandeiros,
Não tardam ... lá vem,
p'ra ver o Menino
Nascido em Belém.
E pucha o farrancho
Moleque traquino,
Moleque bregeiro,
Mané Pequenino.
cc Sapo cururú
Da beira do rio,
Quanto sapo canta,
Ai maninhal
Cururú tem frio. ))
Na confusão, na alegria,
Os ranchos passam. :Bailando,
As castanholas prendiam
Rompentes mãos que ondulando
Mostravam, tombando em laços,
Coraes em formosos braços
Da côr do jambo ou da tréva ...
Rasgando a camisa fina
Redondo seio illumina
O fogaréo que se eleva ...
Como é linda a pastorinha1...
No seu chapéo de palhinha
Quantos jasmins, quantas flôres I
Que mimos' Que lentejoulas I
Que peneirar de creoulas,
Que descantar de pastores I'
cc Se eu soubesse que havia fUl1cção,
Trazia mulatas de meu coração. »
E dos estribilhos e cantos e córos
Os ares sonoros
Saturól.m-se, aos facho5 de vivo clarão j
A VESPERA DE REIS
Depois, aos tinidos das langues violas,
Febris castanholas
Uns dedos morenos estalam então.
De mãos á cintura, subtil, despachada,
Mulata engraçada
Balança na chula, travessa, ligeira ...
As luzes lhe beijam de leve a pontinha
Da azul chinellinba,
Quando ella levanta do chão a lieira.
Nas golas aber~as de talhe furtivo,
Nas rendas de crivo,
Os seios lhe tremem no- seu: palpitar 1
E dansam pastores as dansas incautas ...
Modulam as flautas,
E os ranchos pararain, mas sernpre a cantar.
« Senhora dona da casa,
Mande entrar, faça favor,
Que dos céos nos 'stão cahindo
Pinguinhas d'agua de fiôr. »
«( Inda bem 1 lia de vir:
Que som.os de longe, queremos nos ir.»
(C Eh 1. •• bumba!
Ora bumba meu boi!
Eh! bumba!
Ora chega p'ra frente!
E!ol! bumba!
Ora espalha esta gente I l)
Assim bradava o vaqueiro
Guiando o seu boi malhado;
Tem rodaque ao peito aberto,
Largo chapéo desabado .
.Pelos chifres traI-o preso,
Verga-lhe o cachaço a canga
Pelas flôres, pelo peso
Das ramagens de pitanga.
Sua vara de aguilhão
Sobe e desce e relampêa;
Marra o boi - o povo corre,
Volve o povo - elle campêa.
A VESPERA DE REIS
Em torno, o tio Matheus,
Engrolando uma cantiga,
Varre o chão com a carapuça,
Faz tabaque da barriga.
Segue a tia Catharina
Com seu cesto na cabeça,
Que é para levar o fato
I o caso que o boi falleça.
o doutor da cirurgia,
O chamado S1trgião,
Exhibindo vai na frente
Sua lanceta na mào.
E o vaqueiro escuta as lôa
Como um rei nos seus solares,
Vús, pandeiros, bombos, pratos,
Trovas, cantos populares.
cc Eh! bumba!
Ora bumba meu boi I »
Mo7
g8 1I1VTHOS E POEMA
o rancho do mundo,
Bizarro apparelho,
Dirigi-se ás bandas
Do Rio Vermelho;
Navega a fi'a
De accesos boeiros,
Com seus almirantes,
Com seus marinheiros.
A Caiporinha
Pula .n'um pé só,
Cabocla bravia,
Tapuya sem dó.
Quem ha que de vê-la.
Do matto não tema,
Com o rosto coberto
Dos véos da urupema? ..
Gyrando,
Silvando,
Saltando,
Nem falla!
A VESPERA DE REIS
a onda que cre-ce,
Do povo - apparece,
Depois desparece
Tão leve,
Tão breve,
Com medo da gente
Qual genio indolente
Que á noite resvala.
1\0 rancho da garça,
Aos ranchos gentis,
Su cede o pl/a1/tasma ;
Após, CltClllllbis,
Ou negros malês
Tocando canzá,
Vestidos das plumas
Do ueus d Dongi.
Agitam chocalhos
O ar atroando,
Em lubrica ardcncia,
Do flanco á cadencia
Em barb' ra estridencia
De rude roncar:
o tronco estorcendo,
Os musc' los tremendo,
Com os pés vão batendo,
O corpo mexendo ...
Gemendo ...
A dansar I
- l( A minha Caiporinha
Dansando lá vem,
Parece chamar-se
Marocas meu bem. »)
- Marocas, tu chegas,
Marocas, me vou!
Marocas, me negas,
Marocas, te dou!
« Eh! bumba!
Ora bumba meu boi I I)
Eis quando assoma o vaqueiro
Transpondo altivo o Terreiro:
- Faça roda o povo todo,
Faça roda o povo inteiro!
A VESPERA DE REIS
Chega, meu boisinho,
Chega para frente,
Corteja este povo,
Corteja esta gente.
Viram vosmincês
Como faz mesura,
Venha já de cima
Boa molhadura.
Adoeceu meu boi,
O meu boi morreu;
Tome d'este lenço,
Dê-lhe o que não deu.
Aqui tens, malhado,
Meu amor primeiro;
Chega p'ra viagem,
Guarda o teu dinheiro.
Da Lapinha dista
Pouco mais o dia;
Diz adeus ás moças,
Rasga a cortezia.
lOZ MYTHOS E POEMAS
«( - O meu boi é bonito?
- É bonito·. sinhá!
O meu boi tem dinheiro?
- Tem dinheiro, yáyá! »
Ora dança, rllalhado!
És o boi mais damnado
Que tem meu Pianhy!
Ora toca p'ra o lado!
Olha para o sobrado
Oh! meu boi Surubim L
Su 1. .. boi! boisinho,
Baixinho .
Rentinho .
Mansinho .
Assim!
Depois arremette
Abrindo fileira,
Soando-lhe os guizos
Na rota testeira;
E o povo, sambando,
Acérca, aos magotes,
O boi que no centro
Vai dando pinotes.
A VESPERA DE REIS
E o vaqueiro escuta as lôas
Como um rei nos seus solares,
Vús, pandeiros, bombos, pratos,
Trovas can tos populares.
cc Eh! bumba!
Ora bumba meu boi!»
Colêam archotes
Nos longes escuros,
A.lém destacando
Mil casas e muros:
E os ranchos disper os,
Unidos, por vez
Encantam a noite
Da vesp' ra de Reis!
1°3