A véspera de Reis Mitos e poemas: Nacionalismo · Capítulo 17 de 19
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A véspera de Reis

A véspera de Reis

A VESPERA DE REIS

"BARIA

É vesp'ra de Reis 1- o povo,

Que estima festas tão snas,

Guarnece a Praça, () Terreiro,

Esquinas, adros e ruas.

Aos uatuq ues, as creoulas

Batendo palmas lá vão ....

E chora e chora a IDodÍlilia

Nas cordas do violão.

As mulatas requebradas,

As sultanas da Bahia,

Essas musas predilectas

Da popular poesia,

A chula animam, as dansas,

Riso ao labia e alma franca,

De panno da Costa ao hombro

E troço de cassa branca.

Nos batentes das janellas,

Nas sacadas dos sobrados

Vê-se moças e meninos

Ás grades dependurados.

E na moldura de um chale

Que já não se usa agora,

De vez em quando uma velha

Bota a cabeça de fóra.

Pela muralha formada

De longinqua escuridão,

Rebenta um rio de luzes

Por onde adeja a canção.

E aos archotes que circundam

O panacum da bltrrin/la,

Seguem ranchos de pastores

Aos presepes da Lapinha.

A VESPERA DE REIS

(C O' de casa, nobre gente,

Escutai e ouvireis,

Lá das bandas do Oriente

8110 chegados os tres Reis. ))

Os ranchos ornados

De fitas e flôres,

Trajando costumes

De todas as côres,

Arrufam pandeiros,

Não tardam ... lá vem,

p'ra ver o Menino

Nascido em Belém.

E pucha o farrancho

Moleque traquino,

Moleque bregeiro,

Mané Pequenino.

cc Sapo cururú

Da beira do rio,

Quanto sapo canta,

Ai maninhal

Cururú tem frio. ))

Na confusão, na alegria,

Os ranchos passam. :Bailando,

As castanholas prendiam

Rompentes mãos que ondulando

Mostravam, tombando em laços,

Coraes em formosos braços

Da côr do jambo ou da tréva ...

Rasgando a camisa fina

Redondo seio illumina

O fogaréo que se eleva ...

Como é linda a pastorinha1...

No seu chapéo de palhinha

Quantos jasmins, quantas flôres I

Que mimos' Que lentejoulas I

Que peneirar de creoulas,

Que descantar de pastores I'

cc Se eu soubesse que havia fUl1cção,

Trazia mulatas de meu coração. »

E dos estribilhos e cantos e córos

Os ares sonoros

Saturól.m-se, aos facho5 de vivo clarão j

A VESPERA DE REIS

Depois, aos tinidos das langues violas,

Febris castanholas

Uns dedos morenos estalam então.

De mãos á cintura, subtil, despachada,

Mulata engraçada

Balança na chula, travessa, ligeira ...

As luzes lhe beijam de leve a pontinha

Da azul chinellinba,

Quando ella levanta do chão a lieira.

Nas golas aber~as de talhe furtivo,

Nas rendas de crivo,

Os seios lhe tremem no- seu: palpitar 1

E dansam pastores as dansas incautas ...

Modulam as flautas,

E os ranchos pararain, mas sernpre a cantar.

« Senhora dona da casa,

Mande entrar, faça favor,

Que dos céos nos 'stão cahindo

Pinguinhas d'agua de fiôr. »

«( Inda bem 1 lia de vir:

Que som.os de longe, queremos nos ir.»

(C Eh 1. •• bumba!

Ora bumba meu boi!

Eh! bumba!

Ora chega p'ra frente!

E!ol! bumba!

Ora espalha esta gente I l)

Assim bradava o vaqueiro

Guiando o seu boi malhado;

Tem rodaque ao peito aberto,

Largo chapéo desabado .

.Pelos chifres traI-o preso,

Verga-lhe o cachaço a canga

Pelas flôres, pelo peso

Das ramagens de pitanga.

Sua vara de aguilhão

Sobe e desce e relampêa;

Marra o boi - o povo corre,

Volve o povo - elle campêa.

A VESPERA DE REIS

Em torno, o tio Matheus,

Engrolando uma cantiga,

Varre o chão com a carapuça,

Faz tabaque da barriga.

Segue a tia Catharina

Com seu cesto na cabeça,

Que é para levar o fato

I o caso que o boi falleça.

o doutor da cirurgia,

O chamado S1trgião,

Exhibindo vai na frente

Sua lanceta na mào.

E o vaqueiro escuta as lôa

Como um rei nos seus solares,

Vús, pandeiros, bombos, pratos,

Trovas, cantos populares.

cc Eh! bumba!

Ora bumba meu boi I »

Mo7

g8 1I1VTHOS E POEMA

o rancho do mundo,

Bizarro apparelho,

Dirigi-se ás bandas

Do Rio Vermelho;

Navega a fi'a

De accesos boeiros,

Com seus almirantes,

Com seus marinheiros.

A Caiporinha

Pula .n'um pé só,

Cabocla bravia,

Tapuya sem dó.

Quem ha que de vê-la.

Do matto não tema,

Com o rosto coberto

Dos véos da urupema? ..

Gyrando,

Silvando,

Saltando,

Nem falla!

A VESPERA DE REIS

a onda que cre-ce,

Do povo - apparece,

Depois desparece

Tão leve,

Tão breve,

Com medo da gente

Qual genio indolente

Que á noite resvala.

1\0 rancho da garça,

Aos ranchos gentis,

Su cede o pl/a1/tasma ;

Após, CltClllllbis,

Ou negros malês

Tocando canzá,

Vestidos das plumas

Do ueus d Dongi.

Agitam chocalhos

O ar atroando,

Em lubrica ardcncia,

Do flanco á cadencia

Em barb' ra estridencia

De rude roncar:

o tronco estorcendo,

Os musc' los tremendo,

Com os pés vão batendo,

O corpo mexendo ...

Gemendo ...

A dansar I

- l( A minha Caiporinha

Dansando lá vem,

Parece chamar-se

Marocas meu bem. »)

- Marocas, tu chegas,

Marocas, me vou!

Marocas, me negas,

Marocas, te dou!

« Eh! bumba!

Ora bumba meu boi I I)

Eis quando assoma o vaqueiro

Transpondo altivo o Terreiro:

- Faça roda o povo todo,

Faça roda o povo inteiro!

A VESPERA DE REIS

Chega, meu boisinho,

Chega para frente,

Corteja este povo,

Corteja esta gente.

Viram vosmincês

Como faz mesura,

Venha já de cima

Boa molhadura.

Adoeceu meu boi,

O meu boi morreu;

Tome d'este lenço,

Dê-lhe o que não deu.

Aqui tens, malhado,

Meu amor primeiro;

Chega p'ra viagem,

Guarda o teu dinheiro.

Da Lapinha dista

Pouco mais o dia;

Diz adeus ás moças,

Rasga a cortezia.

lOZ MYTHOS E POEMAS

«( - O meu boi é bonito?

- É bonito·. sinhá!

O meu boi tem dinheiro?

- Tem dinheiro, yáyá! »

Ora dança, rllalhado!

És o boi mais damnado

Que tem meu Pianhy!

Ora toca p'ra o lado!

Olha para o sobrado

Oh! meu boi Surubim L

Su 1. .. boi! boisinho,

Baixinho .

Rentinho .

Mansinho .

Assim!

Depois arremette

Abrindo fileira,

Soando-lhe os guizos

Na rota testeira;

E o povo, sambando,

Acérca, aos magotes,

O boi que no centro

Vai dando pinotes.

A VESPERA DE REIS

E o vaqueiro escuta as lôas

Como um rei nos seus solares,

Vús, pandeiros, bombos, pratos,

Trovas can tos populares.

cc Eh! bumba!

Ora bumba meu boi!»

Colêam archotes

Nos longes escuros,

A.lém destacando

Mil casas e muros:

E os ranchos disper os,

Unidos, por vez

Encantam a noite

Da vesp' ra de Reis!

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