A luz dos afogados Mitos e poemas: Nacionalismo · Capítulo 9 de 19
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A luz dos afogados

A luz dos afogados

LENDA POPULAR

Sobre o rio o céo profundo

Turvo, bem turvo se arquêa ...

E as estrellas miudinhas

São como dourada arêa.

A saracura espan tada

S6lta gritos nos mangaes;

Reza o vento nos caniços

Pela calma dos brejaes.

r 'um barco tisnado vulto

Vai de pé na correnteza;

Ampara com a mão a vela

Que tem n'outra mão acesa.

Aladas, esguias brumas

Resvalam pelas catingas,

E as almas choram 110 côro

Das vagas d' ermas restingas.

Canoeiro, canoeiro,

Mede o abysmo a teus pés! ...

São esquifes verdejantes

A boca dos jacarés !

Da canôa a leve quilha

O limo rasgando vôa...

E as ingaranas murmuram

Vendo passar a canôa.

- N'um leito pleno de horrores,

Sem uma prece, uma cruz,

Dormes, Maria! - mais longe

Irei largar esta luz ...

Que os mortos no fundo

Do rio e corren tes

Ensinam ás gen tes

Seu corpo onde está:

A f1amma parando,

Que fica boiando

E fatua scintilla

Tranquilla

P'ra cá e p'ra lá!

Ella afogou-se no rio,

Quem sabe se enlouqueceu? 1. ..

Ai pobre escrava! Que sina!

Que sina que Deus lhe deu!

Eu busco-a, entretanto;

Assim hei de têl-a,

Embora por vêl-a

Me custe o morrer!

A lua, que é nova,

Abri-lhe uma cova

Da vargerrf no seio,

No meio

Do pranto e soffrer.

Desçamos a vela n'agua,

Mostra-me, ó luz, seu encerro!

Escravidão, tu nos roubas

Os sete palmos do enterro I1...

Sigamos o rastro

Do fogo da trilha,

A taboa que brilha

Com a luz a tremer. ..

No brando arrepio

Do dorso do rio

Resvala e se avança,

Balança,

Mas sempre a correr.

A canôa ia de manso,

O pedestal da figura,

Que sobre o peito curvava

A fronte rugosa, escura.

E ao tetrico marulho

Das aguas no remoinho,

A luz esbarra nos juncos

Que topa lá no caminho.

Ao baque d'um corpo - funebre

A superficie resôa,

Como o som d'um bando d'aguias

Que rente, bem rente vôa.

E boceja á tona o abysmo,

O sorvedouro que o traga j

Desce, remonta ... e se apaga!

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