A luz dos afogados
A luz dos afogados
LENDA POPULAR
Sobre o rio o céo profundo
Turvo, bem turvo se arquêa ...
E as estrellas miudinhas
São como dourada arêa.
A saracura espan tada
S6lta gritos nos mangaes;
Reza o vento nos caniços
Pela calma dos brejaes.
r 'um barco tisnado vulto
Vai de pé na correnteza;
Ampara com a mão a vela
Que tem n'outra mão acesa.
Aladas, esguias brumas
Resvalam pelas catingas,
E as almas choram 110 côro
Das vagas d' ermas restingas.
Canoeiro, canoeiro,
Mede o abysmo a teus pés! ...
São esquifes verdejantes
A boca dos jacarés !
Da canôa a leve quilha
O limo rasgando vôa...
E as ingaranas murmuram
Vendo passar a canôa.
- N'um leito pleno de horrores,
Sem uma prece, uma cruz,
Dormes, Maria! - mais longe
Irei largar esta luz ...
Que os mortos no fundo
Do rio e corren tes
Ensinam ás gen tes
Seu corpo onde está:
A f1amma parando,
Que fica boiando
E fatua scintilla
Tranquilla
P'ra cá e p'ra lá!
Ella afogou-se no rio,
Quem sabe se enlouqueceu? 1. ..
Ai pobre escrava! Que sina!
Que sina que Deus lhe deu!
Eu busco-a, entretanto;
Assim hei de têl-a,
Embora por vêl-a
Me custe o morrer!
A lua, que é nova,
Abri-lhe uma cova
Da vargerrf no seio,
No meio
Do pranto e soffrer.
Desçamos a vela n'agua,
Mostra-me, ó luz, seu encerro!
Escravidão, tu nos roubas
Os sete palmos do enterro I1...
Sigamos o rastro
Do fogo da trilha,
A taboa que brilha
Com a luz a tremer. ..
No brando arrepio
Do dorso do rio
Resvala e se avança,
Balança,
Mas sempre a correr.
A canôa ia de manso,
O pedestal da figura,
Que sobre o peito curvava
A fronte rugosa, escura.
E ao tetrico marulho
Das aguas no remoinho,
A luz esbarra nos juncos
Que topa lá no caminho.
Ao baque d'um corpo - funebre
A superficie resôa,
Como o som d'um bando d'aguias
Que rente, bem rente vôa.
E boceja á tona o abysmo,
O sorvedouro que o traga j
Desce, remonta ... e se apaga!