Notas Mitos e poemas: Nacionalismo · Capítulo 19 de 19
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A LENDA DO ALGODÃO

Esta lenda, da qual conhecemos outra versão,

pertence á mythologia dos Menuderucás, tribu po­

pulosa e guerreira, que se estendia por todo o ter­

ritorio entre o rio Medeira e Tapajós, na provincia

do Pará e Matto-Grosso.

Actualmente disimada, tem conservado, não

obstante perseguições seculares, as suas tradições

religiosas, seu processos mumificatorios, suas tatua­

gens riquissimas e suas festas nacionaes.

A versão de que nos servimos é a de Agassis.

(Vid. Joumerey úz Brazil).

A LENDA DAS PEDRAS VERDES

o Rio Yalllulldá do nosso amigo o celebre

botanico e indianista Barbosa Rodrigues, lê-se:

«( Dizem que nas fontes do rio Yamundá ha

um formoso lago denominado Yacyuaruá, consa­

grado á lua pelas Amazonas. Em certa phase d'esta,

II8 IVIYTHOS E POEMAS

em uma época marcada do anno, renlllam-se as

Amazonas em torno do lago e faziam uma festa á

lua e á mãi dos l11uirákitans, que no fundo do mesmo

habitava. Dias depois de continua festa de expia­

ção, quando o lago apresentava sua face lisa e sem

ondas, e a lua n'elle reflectia-se, atiravam-se n'agua

as Amazonas, e no fundo, da mão da mãi dos mui­

rákitans, recebiam as pedras com as configurações

que desejavam, então molles, porém endurecendo

logo que sahiam d'agua. Essas pedras eram depois

mimoseadas aos homens com quem as Amazonas se

relacionavam. »

Os Uabôys referem a mesma fabula com outros

detalhes. (Vici. Barbosa Rodrigues, Exploração t·

estudos do Valle do Amazonas. )

A LENDA DA ABOBaRA

Pietro Martiri, no seu So7lt1llario delI' .Í1zdz·c

Ocáderztali, é quem dá noticia d'esse mytho ame­

ricano - sem determinar entretanto o povo de que

deriva.

Em todo o caso é uma cosmogonia aquatica

que nos parece original, pois não conhecemos outra.

de semelhanças evidentes.

E grita a a/ma perdida... Pago 34.

A a/llla perdida é um passara que faz parte da

mythologia dos indios do Alto Amazona.

De genios máos esvasialU/o a noite. Pago 35.

Acredita a pluralidade das tribus indianas que

as resinas e archotes accesos em torno do cadaver

afugentam os espiritos maleficos.

E rinclta o marabá, e os ritos cumprem-se

As dallsas jttlteraes dos anlltropopltagos. Pago 35.

o mrwabá era o filho do prisioneiro de guerra

que tinha fatalmente de seguir o destino de seu

pai, isto é, de ser devorado em dia de festa ou

de pompas lustraes.

Baseando a ceremonia funebre que precede á

lenda no dizer dos mais antigos missionarios e

chronistas, era indispensavel a presença d' esse per­

sonagem que atravessava o ultimo dia da vida, não

como phantasia Gonçalves Dias - a transbordar

de declamações cavalheirescas e orgulhoso de sua

genealogia - porém rinchalldo de alegn"a, por isso

que ia ter por sepulhlra estomagos humanos.

l\lYTHOS E POE IAS

E nem outra cousa se encontra em Balthazar

Telles, Simão de Vasconcellos, Leiry, Fernão

Cardim, Anchieta, Gabriel Soares, João Daniel e

André de Barros, o que nos leva a suppor que, o

chefe da e cola indianista, no Y-jitCa-Pyrama e

nas suas poesias selvagens, sacrificou ao effeito de

suas delicadissimas concepções a verdade, embora

ligeiramente observada por aquelles que conviveram

com as nossas tribus primitivas.

O Sr. Dr. Eunapio Deiró, cuja competencia

e vastissima erudição não é permittido a ninguem

pôr em duvida, em um luminoso trabalho que pre­

faciaria dignamente a historia da litteratura bra­

zileira, excluido que fosse o nosso nome, em

relação a Gonçalves Dias, como poeta nacional,. .asSlll1 se promll1Cla:

« Gonçalves Dias é o poeta menos nacional

que temos; sua inspiração desabrocha da philo­

sophia do seculo; sua musa é ora germanica ora

aquecida ao calor do genio de Espronceda ou de

Alf. de Musset.

(C Não é este espirito - devorado das dores

da civilisação - que póde exprimir as impetuosas

tempestades, que r bramiam no seio das raças sel­

vagens e ferozes, primitivas habitadoras do solo

brazileiro. Nesse ponto faltou á sua missão.

(C O indio, que canta nos versos de G. Dias,

modula a mesma nota e toada, que a donzella de

olhos negros, travessa nos bailes e nos salões j que

o trovador das cruzadas, e o frei Antão em suas

primorosas e cinzeladas sextilhas.

« É sempre a corda da dôr, sempre o aba­

timento das forças da vida, sempre a A1cione la­

mentosa na solidão melancolica dos mares.

C( O tupy e os tymbiras de G. Dias são sel­

vagens, que sentem, pensam e fallam com as

emoções, idéas e phrases do homem civilisado.

Elles nem siquer nos illudem! ... l) (Revista Bra­

zzleira - 18BI.)

Citando o pensamento do illustre critico que,

como Sylvio Roméro e Clovis Bevilacqua, dirige

a moderna orientação litteraria do Brazil, susten­

tamos que o (C ideal caboclo não é o ideal da

nação», confirmando entretanto que as Flores

Sylvestres do nosso caro mestre Bittencourt Sam­

paio, o Calabar de Agrario de Menezes, os Quadros

de J. Serra, A fil/ta do Mestre-regio de Sylvio Ro­

méro A Iumlaua e as lendas de Franklin Doria

e os Cantos Popl/./m-es de Juvenal Galeno são mais

brazileiros, representam melhor o sentir nacional,

do que a finada C07lfederação dos Talllo)los e as

phantasmagorias tupicas do auctor dos JYmbiras.

UYÁRAs

Se passamos as Uyáras, a Caipora e A Mitlata

para este livro, foi por ser n' elle e não nos Coutos

KO Equador o seu verdadeiro lugar.

A isto nos conduzia a rubrica - Nacionalismo

- pela primeira vez escripta na folha do rosto de

um livro de versos publicado no Brazil

A ROMARIA DO BOM-DESPACHO

Toma, que te dozt .I

Nas dansas populares do norte-infallivel estri­

bilho, que é acompanhado de lascivos requebros

e termina em umbigada.

A ENDEMONI HADA

Na Bahia os casos de demonomania são fre­

quentes; o sentimento supersticioso e a imitação

constituem o elemento de contagio, de que resultam

endemias.

Não temos noticia de que nas outras provin­

cias a hysteria, a choréa-hysterica e a hystero­

epilepsia se manifestem com tal intensidade e ca­

racteristica.

o Dr. João Severiano da Fonseca na sua

Viagem ao redor do Brazil, obra grandiosa e de rara

estimativa, fallando de nosologias locaes, nada nos

conta á respeito; Barbosa Rodrigues menciona ape­

nas a hysteria esporadica no Amazonas, curiosa­

mente symptomatisada nas tapuyas pelo grito da

cauan, que as doentes imitam por longo tempo e

á perfeição.

O nosso primeiro romancista Franklin Tavora,

que se tem occupado em passar para as fórmas da

arte a' vida das populações do norte, calando-se em

referencia ao assumpto, nos faz crer que nas de­

mais provincias esta nevrose não apresenta physio­

nomia especial, o que não succede na Bahia onde,

até no quadro pathologico, a influencia dos padres

e do africanismo patenteam-se incontestaveis.

A quem nos accusar pela estranheza do mo­

tivo poetico, responderemos que A da1LSa de S.

Cuido de Rubens forneceu materia para uma lição

de Charcot, lição em que o sabio alienista da Sal­

petriére demonstrou epidem ias da mesma natureza,

produzidas pelo fanati mo da idade-média.

A Endemonin1tada é uma scena de costumes e

lIma des ripção de typos authenticos.

J24 l\lYTHOS E l)OE~lAS

LES LEGENDES DES INDIENS

Devido ao eminente jornalista o Sr. Dr. Gusmão

Lobo, ignorado mas importantissimo factor da Ex­

posição Anthropologica Brazileira, que, como adian­

tamos em folhetins do Globo, foi o grande jubileo

scientifico da America do Sul, este acontecimento

tomou vulto no estrangeiro; e emquanto os artigos

da nossa modesta Revista iam sendo vertidos para

varias linguas, um publicista illustre, MI'. E. D€leau,

discutia com invejavel proficiencia assl1mptos no­

vissimos e nos honrava com as tradl1cçàes das nossas

lendas americanas.

A Tapéra da Lua e A Capora, interpretadas

pôr tão brilhante penna, foram transcriptas na

Litterature Popltlaire de M. Jean DespIas e em

diversas revistas e jornaes da França, da Belgica

e da America latina.

Incluindo-as nos lI([yt/IOS e Poemas, enrique­

cidas pelo colorido da expressão franceza e pelas

elegancias do estylista admiravel, entendemos amor­

tisar uma divida na qual se acha empenhado um

contracto inso luvel de gratidão.

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