Notas
Notas
A LENDA DO ALGODÃO
Esta lenda, da qual conhecemos outra versão,
pertence á mythologia dos Menuderucás, tribu po
pulosa e guerreira, que se estendia por todo o ter
ritorio entre o rio Medeira e Tapajós, na provincia
do Pará e Matto-Grosso.
Actualmente disimada, tem conservado, não
obstante perseguições seculares, as suas tradições
religiosas, seu processos mumificatorios, suas tatua
gens riquissimas e suas festas nacionaes.
A versão de que nos servimos é a de Agassis.
(Vid. Joumerey úz Brazil).
A LENDA DAS PEDRAS VERDES
o Rio Yalllulldá do nosso amigo o celebre
botanico e indianista Barbosa Rodrigues, lê-se:
«( Dizem que nas fontes do rio Yamundá ha
um formoso lago denominado Yacyuaruá, consa
grado á lua pelas Amazonas. Em certa phase d'esta,
II8 IVIYTHOS E POEMAS
em uma época marcada do anno, renlllam-se as
Amazonas em torno do lago e faziam uma festa á
lua e á mãi dos l11uirákitans, que no fundo do mesmo
habitava. Dias depois de continua festa de expia
ção, quando o lago apresentava sua face lisa e sem
ondas, e a lua n'elle reflectia-se, atiravam-se n'agua
as Amazonas, e no fundo, da mão da mãi dos mui
rákitans, recebiam as pedras com as configurações
que desejavam, então molles, porém endurecendo
logo que sahiam d'agua. Essas pedras eram depois
mimoseadas aos homens com quem as Amazonas se
relacionavam. »
Os Uabôys referem a mesma fabula com outros
detalhes. (Vici. Barbosa Rodrigues, Exploração t·
estudos do Valle do Amazonas. )
A LENDA DA ABOBaRA
Pietro Martiri, no seu So7lt1llario delI' .Í1zdz·c
Ocáderztali, é quem dá noticia d'esse mytho ame
ricano - sem determinar entretanto o povo de que
deriva.
Em todo o caso é uma cosmogonia aquatica
que nos parece original, pois não conhecemos outra.
de semelhanças evidentes.
E grita a a/ma perdida... Pago 34.
A a/llla perdida é um passara que faz parte da
mythologia dos indios do Alto Amazona.
De genios máos esvasialU/o a noite. Pago 35.
Acredita a pluralidade das tribus indianas que
as resinas e archotes accesos em torno do cadaver
afugentam os espiritos maleficos.
E rinclta o marabá, e os ritos cumprem-se
As dallsas jttlteraes dos anlltropopltagos. Pago 35.
o mrwabá era o filho do prisioneiro de guerra
que tinha fatalmente de seguir o destino de seu
pai, isto é, de ser devorado em dia de festa ou
de pompas lustraes.
Baseando a ceremonia funebre que precede á
lenda no dizer dos mais antigos missionarios e
chronistas, era indispensavel a presença d' esse per
sonagem que atravessava o ultimo dia da vida, não
como phantasia Gonçalves Dias - a transbordar
de declamações cavalheirescas e orgulhoso de sua
genealogia - porém rinchalldo de alegn"a, por isso
que ia ter por sepulhlra estomagos humanos.
l\lYTHOS E POE IAS
E nem outra cousa se encontra em Balthazar
Telles, Simão de Vasconcellos, Leiry, Fernão
Cardim, Anchieta, Gabriel Soares, João Daniel e
André de Barros, o que nos leva a suppor que, o
chefe da e cola indianista, no Y-jitCa-Pyrama e
nas suas poesias selvagens, sacrificou ao effeito de
suas delicadissimas concepções a verdade, embora
ligeiramente observada por aquelles que conviveram
com as nossas tribus primitivas.
O Sr. Dr. Eunapio Deiró, cuja competencia
e vastissima erudição não é permittido a ninguem
pôr em duvida, em um luminoso trabalho que pre
faciaria dignamente a historia da litteratura bra
zileira, excluido que fosse o nosso nome, em
relação a Gonçalves Dias, como poeta nacional,. .asSlll1 se promll1Cla:
« Gonçalves Dias é o poeta menos nacional
que temos; sua inspiração desabrocha da philo
sophia do seculo; sua musa é ora germanica ora
aquecida ao calor do genio de Espronceda ou de
Alf. de Musset.
(C Não é este espirito - devorado das dores
da civilisação - que póde exprimir as impetuosas
tempestades, que r bramiam no seio das raças sel
vagens e ferozes, primitivas habitadoras do solo
brazileiro. Nesse ponto faltou á sua missão.
(C O indio, que canta nos versos de G. Dias,
modula a mesma nota e toada, que a donzella de
olhos negros, travessa nos bailes e nos salões j que
o trovador das cruzadas, e o frei Antão em suas
primorosas e cinzeladas sextilhas.
« É sempre a corda da dôr, sempre o aba
timento das forças da vida, sempre a A1cione la
mentosa na solidão melancolica dos mares.
C( O tupy e os tymbiras de G. Dias são sel
vagens, que sentem, pensam e fallam com as
emoções, idéas e phrases do homem civilisado.
Elles nem siquer nos illudem! ... l) (Revista Bra
zzleira - 18BI.)
Citando o pensamento do illustre critico que,
como Sylvio Roméro e Clovis Bevilacqua, dirige
a moderna orientação litteraria do Brazil, susten
tamos que o (C ideal caboclo não é o ideal da
nação», confirmando entretanto que as Flores
Sylvestres do nosso caro mestre Bittencourt Sam
paio, o Calabar de Agrario de Menezes, os Quadros
de J. Serra, A fil/ta do Mestre-regio de Sylvio Ro
méro A Iumlaua e as lendas de Franklin Doria
e os Cantos Popl/./m-es de Juvenal Galeno são mais
brazileiros, representam melhor o sentir nacional,
do que a finada C07lfederação dos Talllo)los e as
phantasmagorias tupicas do auctor dos JYmbiras.
UYÁRAs
Se passamos as Uyáras, a Caipora e A Mitlata
para este livro, foi por ser n' elle e não nos Coutos
KO Equador o seu verdadeiro lugar.
A isto nos conduzia a rubrica - Nacionalismo
- pela primeira vez escripta na folha do rosto de
um livro de versos publicado no Brazil
A ROMARIA DO BOM-DESPACHO
Toma, que te dozt .I
Nas dansas populares do norte-infallivel estri
bilho, que é acompanhado de lascivos requebros
e termina em umbigada.
A ENDEMONI HADA
Na Bahia os casos de demonomania são fre
quentes; o sentimento supersticioso e a imitação
constituem o elemento de contagio, de que resultam
endemias.
Não temos noticia de que nas outras provin
cias a hysteria, a choréa-hysterica e a hystero
epilepsia se manifestem com tal intensidade e ca
racteristica.
o Dr. João Severiano da Fonseca na sua
Viagem ao redor do Brazil, obra grandiosa e de rara
estimativa, fallando de nosologias locaes, nada nos
conta á respeito; Barbosa Rodrigues menciona ape
nas a hysteria esporadica no Amazonas, curiosa
mente symptomatisada nas tapuyas pelo grito da
cauan, que as doentes imitam por longo tempo e
á perfeição.
O nosso primeiro romancista Franklin Tavora,
que se tem occupado em passar para as fórmas da
arte a' vida das populações do norte, calando-se em
referencia ao assumpto, nos faz crer que nas de
mais provincias esta nevrose não apresenta physio
nomia especial, o que não succede na Bahia onde,
até no quadro pathologico, a influencia dos padres
e do africanismo patenteam-se incontestaveis.
A quem nos accusar pela estranheza do mo
tivo poetico, responderemos que A da1LSa de S.
Cuido de Rubens forneceu materia para uma lição
de Charcot, lição em que o sabio alienista da Sal
petriére demonstrou epidem ias da mesma natureza,
produzidas pelo fanati mo da idade-média.
A Endemonin1tada é uma scena de costumes e
lIma des ripção de typos authenticos.
J24 l\lYTHOS E l)OE~lAS
LES LEGENDES DES INDIENS
Devido ao eminente jornalista o Sr. Dr. Gusmão
Lobo, ignorado mas importantissimo factor da Ex
posição Anthropologica Brazileira, que, como adian
tamos em folhetins do Globo, foi o grande jubileo
scientifico da America do Sul, este acontecimento
tomou vulto no estrangeiro; e emquanto os artigos
da nossa modesta Revista iam sendo vertidos para
varias linguas, um publicista illustre, MI'. E. D€leau,
discutia com invejavel proficiencia assl1mptos no
vissimos e nos honrava com as tradl1cçàes das nossas
lendas americanas.
A Tapéra da Lua e A Capora, interpretadas
pôr tão brilhante penna, foram transcriptas na
Litterature Popltlaire de M. Jean DespIas e em
diversas revistas e jornaes da França, da Belgica
e da America latina.
Incluindo-as nos lI([yt/IOS e Poemas, enrique
cidas pelo colorido da expressão franceza e pelas
elegancias do estylista admiravel, entendemos amor
tisar uma divida na qual se acha empenhado um
contracto inso luvel de gratidão.