A endemoninhada Mitos e poemas: Nacionalismo · Capítulo 12 de 19
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A endemoninhada

A endemoninhada

BAHIA

- A filha da vizinha,

A mana de Totonio,

Ha mais de nove mezes

Tem parte com o demonio.

A noite e os dias passa

Que causa compaixão:

Saltando - é como um bode,

Latindo - é como um cão!

Passeia, faz pergun tas,

Simula, dá respostas,

Depois cahe de joelhos

Contricta, de mãos po tas...

Irrita-se, pragueja,

Suspende olhar vidrado,

Que deixa lá no tecto

Ficar como pregado.

Tem bolo na garganta

E tosse, sequidão,

Os braços abre ás vezes

E resta em estação

Immovel, sem sentidos,

Com gestos desvairados;

Sorri-se ... que sorriso!

Que olhos espantados!

Se alguem lhe falia em santos,

A peste fica muc1a:

Um galho de alecrim,

Um raminho de arruda,

Na furia mais horrenda

Transforma a pobrezinha,

Que rompe n'um delírio

Ouvindo a ladainha.

O que será? O que?

Quebranto?! Não, não é:

Está o qu'ella foi

Buscar no candomblé.

A mãi ficou cansada,

Dizendo o que é verdade,

De toda a sexta-feira

Mandal-a á Piedade

Benzer, surrar com varas;

E os padres nem por isso

Do corpo lhe tiraram

O demo ou o feitiço.

O povo tem razào

Da casa ter cercada:

Se quer levar á igreja

, 62 MYTHOS E POEMAS

- Espie d' esta porta,

Espie lá I r'a dentro:

A cama está no fundo,

A mesa quasi ao centro

Da sala, sem cadeira,

Sem caco de mobilia j

A vela do OJ'atorio

Crepita, estala, brilha,

Fumando esbrazeada,

Lambendo luctulenta

O ramo de alecrim

Do copo d' agua ben ta,

A moça, socegada,

Não vê? Dormita agora j

O padre está do lado,

A mãi resmunga e chora,

Não ha doutor de fama,

De fóra ou da Bahia,

Que não tratasse della;

Tomou homreopathia,

Mezin has, lambedores,

E purgas, infusões,

Rezaram máos olhados,

Benzeu-se nos Perdões ...

Porém não ha tirar-lhe,

(Assullte o que asseguro),

O demo que metteu-se

Lá n' ella, eu te esconjuro!

Enxerga? Se espreguiça ...

Ergueu-se ... cahe de chofre j

As ventas regaçando

Fareja odôr de enxofre.

Ta têa, apalpa, agarra,

Em sonhos mil serpentes,

Corujas que esvoaçam

Em caldeirões fervente.

Acorda, despertou-se

o desvairar sem fim...

Já viram omo faUa

Em grego e em latim?!

Jesus! Quanta fiducial

Que tentação sahida!

Que cara ella apresenta

De pitomba lambida!

A mãi boceja perto

Da filha que suspira;

O padre está de pé,

Contendo-a, nem respira.

Botou-lhe no pescoço

O relicario d'ouro ...

Ouviu, sinhô Cazuza?

- O que, yáyá?

- O estouro?!..

Encurva como ablltre

Os pollegares hecticos;

Estira-se, contorce-se

Nos roncos apopleticos!

Levanta a perna e subito

A língua morde esqualida:

Uma defunta é quasi,

Fria, tranquilla e pallida!

Horrendo accesso lubrico

Se lança a ella indomito!

Agita os gluteos flaccidos,

Banha-lhe o labio um vomito!

Enverga-se invencivel,

Bate pancadas tres ...

É como um arco o rachis,

Toca-lhe á nuca os pés.

Gargalha a demoniaca,

Vê esqueletos, aves

NoctlU"nas, negras, funebres,

Sombras sinistras, graves!

Os monstros mais satanicos

Acercam-n'a carnifices;

Blasphema, grita, ri-se

Dos infernaes pontífices!

Soletra, lê nos páramos

Phrases, legendas, disticos;

Aponta cifras frivolas

Com termos cabalisticos!

Porém a furia hysterica

Vai a deixando tragica j

Ella pran têa, queixa-se,

Quanta fadiga magica!. ..

!I. 5

- Foi bom que visse o caso,

Foi bom que o caso visse:

Assim não póde um dia

Dizer: - « Fulana disse,

« Fulana foi quem via,

l( Fulana é quem contou. J)

Eu cá não sei de nada;

Só sei do meu rasaria

Que rezo por meu homem,

Um velho boticario

E pardo ... mas, senhor!

Acções, como elle, sim!

Chegou a ser irmão

Do Carmo e do Bomfim!

Ao nosso imperador

Via elle pequenino;

Fez toda a Independencia,

A guerra do Sabino ...

Permitta que esta historia

Por hoje não lhe conte.

Agora, com licença,

Espie lá defronte ...

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