A endemoninhada
A endemoninhada
BAHIA
- A filha da vizinha,
A mana de Totonio,
Ha mais de nove mezes
Tem parte com o demonio.
A noite e os dias passa
Que causa compaixão:
Saltando - é como um bode,
Latindo - é como um cão!
Passeia, faz pergun tas,
Simula, dá respostas,
Depois cahe de joelhos
Contricta, de mãos po tas...
Irrita-se, pragueja,
Suspende olhar vidrado,
Que deixa lá no tecto
Ficar como pregado.
Tem bolo na garganta
E tosse, sequidão,
Os braços abre ás vezes
E resta em estação
Immovel, sem sentidos,
Com gestos desvairados;
Sorri-se ... que sorriso!
Que olhos espantados!
Se alguem lhe falia em santos,
A peste fica muc1a:
Um galho de alecrim,
Um raminho de arruda,
Na furia mais horrenda
Transforma a pobrezinha,
Que rompe n'um delírio
Ouvindo a ladainha.
O que será? O que?
Quebranto?! Não, não é:
Está o qu'ella foi
Buscar no candomblé.
A mãi ficou cansada,
Dizendo o que é verdade,
De toda a sexta-feira
Mandal-a á Piedade
Benzer, surrar com varas;
E os padres nem por isso
Do corpo lhe tiraram
O demo ou o feitiço.
O povo tem razào
Da casa ter cercada:
Se quer levar á igreja
, 62 MYTHOS E POEMAS
- Espie d' esta porta,
Espie lá I r'a dentro:
A cama está no fundo,
A mesa quasi ao centro
Da sala, sem cadeira,
Sem caco de mobilia j
A vela do OJ'atorio
Crepita, estala, brilha,
Fumando esbrazeada,
Lambendo luctulenta
O ramo de alecrim
Do copo d' agua ben ta,
A moça, socegada,
Não vê? Dormita agora j
O padre está do lado,
A mãi resmunga e chora,
Não ha doutor de fama,
De fóra ou da Bahia,
Que não tratasse della;
Tomou homreopathia,
Mezin has, lambedores,
E purgas, infusões,
Rezaram máos olhados,
Benzeu-se nos Perdões ...
Porém não ha tirar-lhe,
(Assullte o que asseguro),
O demo que metteu-se
Lá n' ella, eu te esconjuro!
Enxerga? Se espreguiça ...
Ergueu-se ... cahe de chofre j
As ventas regaçando
Fareja odôr de enxofre.
Ta têa, apalpa, agarra,
Em sonhos mil serpentes,
Corujas que esvoaçam
Em caldeirões fervente.
Acorda, despertou-se
o desvairar sem fim...
Já viram omo faUa
Em grego e em latim?!
Jesus! Quanta fiducial
Que tentação sahida!
Que cara ella apresenta
De pitomba lambida!
A mãi boceja perto
Da filha que suspira;
O padre está de pé,
Contendo-a, nem respira.
Botou-lhe no pescoço
O relicario d'ouro ...
Ouviu, sinhô Cazuza?
- O que, yáyá?
- O estouro?!..
Encurva como ablltre
Os pollegares hecticos;
Estira-se, contorce-se
Nos roncos apopleticos!
Levanta a perna e subito
A língua morde esqualida:
Uma defunta é quasi,
Fria, tranquilla e pallida!
Horrendo accesso lubrico
Se lança a ella indomito!
Agita os gluteos flaccidos,
Banha-lhe o labio um vomito!
Enverga-se invencivel,
Bate pancadas tres ...
É como um arco o rachis,
Toca-lhe á nuca os pés.
Gargalha a demoniaca,
Vê esqueletos, aves
NoctlU"nas, negras, funebres,
Sombras sinistras, graves!
Os monstros mais satanicos
Acercam-n'a carnifices;
Blasphema, grita, ri-se
Dos infernaes pontífices!
Soletra, lê nos páramos
Phrases, legendas, disticos;
Aponta cifras frivolas
Com termos cabalisticos!
Porém a furia hysterica
Vai a deixando tragica j
Ella pran têa, queixa-se,
Quanta fadiga magica!. ..
!I. 5
- Foi bom que visse o caso,
Foi bom que o caso visse:
Assim não póde um dia
Dizer: - « Fulana disse,
« Fulana foi quem via,
l( Fulana é quem contou. J)
Eu cá não sei de nada;
Só sei do meu rasaria
Que rezo por meu homem,
Um velho boticario
E pardo ... mas, senhor!
Acções, como elle, sim!
Chegou a ser irmão
Do Carmo e do Bomfim!
Ao nosso imperador
Via elle pequenino;
Fez toda a Independencia,
A guerra do Sabino ...
Permitta que esta historia
Por hoje não lhe conte.
Agora, com licença,
Espie lá defronte ...