Capítulo IV
O dia está macio, de uma claridade leitosa, favorável à minha miopia.
Terei agora de descer da cidade alta, onde estão construídos o Tesouro, varias secretarias, o principal teatro, a catedral e os palácios presidenciais, velho e novo, sendo que este ultimo ainda não concluido, para a cidade baixa, mais comercial e mais ativa. As ruas por que passo, lavadas pela enxurrada de um forte aguaceiro da véspera, desmentem o que delas me tinham dito a bordo em relação ao asseio urbano e dão-me por isso uma impressão agradável.
Não me seduz certamente a arquitetura da maioria das suas casas, cujas linhas desproporcionadas lembram as de um aleijado de pernas curtas e busto avantajado. A maioria dos prédios de residência, feitos recentemente, têm o primeiro pavimento ao rés do chão, muito baixo, e as portas pequenas, em desacordo com o movimento arquitetônico do primeiro andar, de salientes e pesados balcões quase sempre guarnecidos de balaústres grossos ou gradis pomposos.
Tive depois muitas vezes a impressão, quando descia algumas das ladeiras portalegrenses, de que iria bater com a cabeça em uma dessas sacadas barrigudas e ameaçadoras que me disseram terem sido introduzidas na cidade por um arquiteto alemão. Para atestar a sua nacionalidade, ele procurou mesmo encimar alguns dos seus edifícios com um ornato pontudo que lembra a forma do capacete militar do seu país. Por fortuna foi esse talvez o único vestígio que notei do gosto tudesco no Rio Grande, onde o predomínio dos alemães não tem a importância que eu supunha, nem mesmo existe, visto que da sua colaboração nada há dominante, nem sequer interessante no país. Mas se a arquitetura das residências particulares de Porto Alegre não tem na sua generalidade pureza de linhas nem elegância de conjunto, não se pode dizer o mesmo de alguns dos seus edifícios públicos modernos que são de aparência a um tempo nobre e vistosa, como este belo palácio da Municipalidade em que vou entrar agora. Mal o avisto tenho a impressão de que foi construído com certa conciência artística. É de estilo Renascença e tem distinção e certa majestade.
Ah, a mania dos zimbórios, das cúpulas monstruosas, dos minaretes ridículos e torreões enredados por guirlandas em que há mais gesso e complicação do que desenho e gosto, não atribulou felizmente o cérebro do construtor que o delineou. Não há nada mais detestável do que a fantasia de pedra e cal.
Muitas vezes, quando escrevia crônicas semanais no O Paiz, na vaidosa pretensão de que o meu julgamento pudesse ter alguma aceitação, pela sinceridade com que era emitido e pelo ardor da sua convicção, eu gritei como pude contra a exorbitância desses imensos casarões sem arte e sem estilo com que era reedificado o Rio de Janeiro, pedindo de mãos postas aos poderes públicos que nomeassem uma comissão de artistas competentes, artistas de verdade, brasileiros ou estrangeiros, para lhe organizarem um plano geral e dirigirem com harmonia e beleza as novas construções. Alguém haverá por aí de boa memória que se recorde disso. Pois a antipatia que me causavam já esses fantasmas de cantaria e de cimento cresceu com o correr dos dias, pois quanto mais envelheço mais adoro o que é puro e simples.
Foi bem impressionada pela beleza exterior do Palácio da Municipalidade de Porto Alegre que subi a sua larga escadaria, no topo da qual me esperava o Intendente da cidade, Sr. Dr. José Montaury.
Depois de poucos minutos de conversação sinto que este senhor, nascido às margens da Guanabara, é o mais gaúcho dos rio-grandenses. Luzem-lhe os olhos, em que se lê bondade, ao falar desta admirável gente, — desta magnífica terra, — deste excelente ar! A sua pessoa modesta está toda como que a pedir desculpa da situação a que se viu guindada, como a dizer que não foi por culpa sua, enquanto me faz ver no salão nobre a galeria de bustos em gesso policromo executados pelo ilustre pintor Sr. Décio Vilares e que representam vários dos mais eminentes políticos brasileiros, a principiar por José Bonifácio e Tiradentes.
Já, de passagem, eu tinha pouco antes visto, do mesmo autor, na linda praça Marechal Deodoro, que encima como um diadema a cabeça de Porto Alegre, um grande, rico e catapultuoso monumento em homenagem a Júlio de Castilhos, que nele figura em atitude acanhada de pretendente mal aventurado, entre figuras simbólicas de gestos estirados.