Capítulo V Jornadas no meu país · Capítulo 5 de 37
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Capítulo V

É noite; ouço foguetes e vozaria. Chego à janela. É o povo que se diverte na praça com a tradicional festa do Espírito Santo. Acabou a novena na catedral e toda a gente que afluiu ao local e que enche grande parte do imenso largo suporta galhardamente o frio, a olhar com interesse para os quadros sucessivos de um cinematógrafo ao ar livre e para a iluminação da capelinha do Espírito Santo, em cujo topo a pombinha simbólica abre as asas em contínua agitação, por efeito de movimentos bem combinados da luz.

Como por toda a parte, também aqui as tradições se vão perdendo, as usanças poéticas diluindo e os velhos costumes substituindo-se por novos costumes. São as leis da Vida que de instante a instante mudam e se transformam. A gente moça pouco se importa, mas os velhos verificam com tristeza a diferença desses festejos, hoje apenas animados pela gente das camadas mais modestas, quando outr'ora o eram pela fina flor da sociedade portalegrense.

— "Então, suspira com saudosa tristeza a meu lado uma doce velhinha, não havia cinematógrafos, nem bondes elétricos, nem estas luzes de cores mirabolantes, nem estes gramados de jardins públicos. As famílias de maior importância mandavam de casa pelas escravas os seus tapetes e as suas cadeiras para o centro da praça e aí faziam roda com os amigos, comendo pinhões cozidos, amendoim torrado e recitando versos de Castro Alves e de Casimiro de Abreu, até que o fogo de artifício rebentasse em rodas multicores e se desfizesse em deslumbrantes plumas de ouro vivo. Aquele, sim, é que era um bom tempo. Como morávamos longe, minha mãe mandava-nos a todos na frente — as meninas de berlinda, os meninos a pé e ela chegava depois de cadeirinha com as orelhas pesadas de brincos, o vestido de moire aberto sobre a roda do balão e o lencinho de rendas pendurado da pontinha dos dedos. Censuravam-lhe o luxo, porque naquele tempo havia simplicidade, mas gostavam de vê-la. "

Como a do Espírito Santo, há outra festa religiosa de grande devoção na cidade: a da procissão de Corpus Christi, que muitas associações, todas as irmandades, colégios, leigos e religiosos e grande número de senhoras da alta sociedade acompanham a pé, no milagroso equilíbrio do salto alto nas pedrinhas desiguais e terríveis do chão. Porque a cidade é mal calçada. Esse espetáculo oferece à vista do forasteiro um aspecto decorativo e pitoresco. Assim a população riograndense, que se poderia supor positivista pela aceitação dessa doutrina na Constituição do Estado, ou por convicção própria, ou por interesse político em segui-la, é profundamente católica, embora haja uma grande parte, uma imensa parte da sua sociedade que professa o culto protestante.

Escrevo de memória, sem ter lido estatísticas, subordinando as minhas apreciações a puras impressões pessoais de momento, impressões de que raramente tomei notas: não receio, contudo, errar dizendo que a maior parte dos colégios particulares do Rio Grande do Sul pertencem a congregações religiosas, são dirigidos por padres ou por freiras e estão instalados em prédios grandes e modelares. E assim é por todo o Brasil.

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