Capítulo XXVIII Jornadas no meu país · Capítulo 28 de 37
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Capítulo XXVIII

Senhor Deus, ter eu trabalho pelo que faço, vá lá! mas pelo que não faço, parece-me demais. E é o que me sucede agora por amor de uma célebre carta escrita pelo ilustre prosador Carlos Malheiro Dias, na sua popularíssima — "Revista da Semana" —e assinada com o doce e nacional pseudônimo de — Iracema.

Toda a gente aqui no sul acredita ter sido escrita por mim essa vibrante e patriótica página, o que, se me lisongeia a vaidade de profissional das letras, faz-me também passar às vezes por transes de bem esquisito embaraço.

Às pessoas a quem tenho dito positivamente, redondamente, não ser eu a autora dessa peça epistolar que anda a percorrer o Brasil, com a minha assinatura por um desses mistérios que fazem a glória dos romancistas de folhetim, percebo um tão grande, um tão visível desapontamento, que chego a ter pena delas e de mim, porque no fundo das suas pupilas vejo com isso desmoronar-se o pedestal em que estava acente a principal razão talvez, da sua simpatia pela minha obra de escritora insistente. Mas há também quem, demonstrando certa agudeza de perspicácia, atribua teimosamente a minha negativa a qualquer razão particular entre a minha pessoa e a "Revista" e não se queira dar por convencido da verdade.

Nunca uma página de jornal fez tamanho sucesso. Uma certa vez apresentaram-me a uma senhora muito inteligente e distinta que, tendo já adquirido todos os meus livros, mandou, para complemento da obra, encadernar luxuosamente todas as cartas de Iracema, onde mandou gravar o meu nome com todas as suas letras. Compreendo que a confissão peremptória de me não ter cabido a honra da autoria desses escritos de tão larga e justificada divulgação, deva tê-la de algum modo desgostado, mas a decepção ficou atenuada pela convicção de que eles merecem o arquivo que lhes deu.

São poucos os dias em que eu não veja evocada diante dos meus olhos, como a homenagem de maior apreço, a lembrança dessa página, toda palpitante como uma bandeira ao vento, e ocasiões há em que um desmentido implicaria numa incivilidade: é quando em festa pública um orador sacode essa carta sobre a minha cabeça como a obra magna da minha vida literária. Em tais situações calo-me, porque presinto quanto ele se sentiria acanhado com o meu esclarecimento, esclarecimento que eu aliás já tinha feito em jornais do Rio e na própria "Revista da Semana", em carta ao seu abnegado autor

A complicação deste incidente repete-se muitas vezes em salas particulares e lugares públicos, em mesas de hotel e de vapores, e de tal modo, que um dos meus amigos me fez prometer que deixasse passar o caso sem elucidação, para não desapontar ninguém na minha presença, deixando a exposição da verdade para depois. É o que faço pela terceira vez em letra de forma.

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