Capítulo XXVII
Grande dia. Recebo aviso da secretaria do Interior de que o livro — A Árvore — por cuja adoção nas escolas brasileiras tenho quebrado as minhas pobres lanças, foi adotado pelo governo para leitura das crianças rio-grandenses.
Estranha alguém que está a meu lado a minha satisfação e pergunta por que, tendo eu publicado tantos livros e entre eles alguns escolares nunca me dei ao trabalho de viajar por amor de nenhum deles e pela disseminação deste me mostro entretanto tão interessada.
Vejo que é preciso explicar-me:
O modesto volume que trouxe na minha bagagem e que escrevi com o poeta Afonso Lopes de Almeida, não representa para o nosso espírito um motivo de glória literária que nos envaideça mais do que outra qualquer das nossas obras, nem é tampouco um trabalho que nos dê a esperança de nos enriquecer.
Com a sua divulgação o que desejamos, e desejamos com fé viva, é inocular na alma da juventude brasileira essa coisa que só poderá parecer frívola aos frívolos: o amor da árvore. O momento de se lançar essa sementeira deveria ter sido já há quatro ou cinco gerações, e assim teríamos agora benefícios que não fruímos e não ouviríamos essa justa queixa que de todos os lados se levanta contra os devastadores de florestas e esgotadores dos mananciais, contra a pouca abundância de frutas e outras faltas. Temos consciência e certeza de que a nossa propaganda é útil, tanto que, se fôssemos milionários, distribuiríamos montões desses livros por toda a República; como isso não pode ser, e ninguém o lamenta mais do que nós, é forçoso pedirmos aos governos para que façam eles essa distribuição.
Ensinar a amar as aves e as árvores é uma das preocupações mais veementes dos modernos educadores do mundo inteiro. No Brasil, que financeiramente depende tanto delas, pelas culturas do café, borracha, algodão, cacau e madeiras de lei, e onde, como em parte alguma, elas são tratadas com tamanho desamor e mesmo desprezo, uma propaganda em seu benefício não pode ser considerada mera fantasia panteísta, mas um serviço de proveito nacional.
Na secretaria encontro a encomenda de dois mil exemplares "d'A Árvore", que deverão ser espalhados por todas as escolas do Estado. Pedem-me também que esses dois mil exemplares sejam escritos com a ortografia antiga. A atual edição, de que deverei ter ainda alguns milheiros, é grafada com a ortografia reformada em 1911 pelos grandes filólogos D. Carolina Michaelis, Gonçalves Viana, Adolfo Coelho, Cândido de Figueiredo e outros e sancionada no Brasil, pela Academia Brasileira de Letras, que já antes tinha feito reforma quase igual, tendo por fim eliminado as pouquíssimas divergências encontradas. De modo que a presunção é de que a atual grafia da nossa língua foi estabelecida e sancionada pelas maiores autoridades no assunto de ambos os países interessados.
Compreendo que sendo todos os outros livros adotados nas escolas rio-grandenses, grafados pelo velho sistema, o meu só poderia criar confusão no espírito das crianças, e aceito a imposição, tanto mais que ela fora alvitrada por mim.
Foi para chegar a este ponto, que reputo essencialíssimo, que introduzi neste livro estas notas particulares.
Ninguém pode duvidar que dentro de pouquíssimos anos toda a nossa gente se veja impelida a escrever os seus livros ou as suas cartas pela ortografia moderna oficial, e assim, porque não começarmos desde já a ensiná-la às crianças, poupando-lhes o penoso trabalho de estudarem duas vezes de modo diferente a mesma disciplina?
Que a conservem ainda os velhos, de tal modo habituados ao seu uso que o não possam repudiar sem saudades, nem estudar outra sem penoso esforço, vá lá; mas impô-la a quem amanhã terá forçosamente de a renunciar para adotar uma nova, é o que não me parece prudente.
Como em tal assunto fui sempre uma rebelde, e mais de uma vez esbravejei contra a intrincada floresta de tt; pp; ll; mm e nn dobrados e maiores complicações inúteis da ortografia antiga, aceitei a simplicidade e a clareza desta moderna com inefável satisfação.
Fora qualquer ponderação de ordem prática ou sentimental, que no caso não deveria ter cabimento, há ainda a meditar sobre a inconveniência de querermos conservar uma coisa que já começa a parecer arcaica, cuja aprendizagem é tão difícil e em que nunca se alcançou unidade de vistas, sendo que cada professor ensinava a seu modo e cada escritor grafava como queria.