Capítulo VII
Sinto-me, neste momento, dentro do cérebro de Porto Alegre, que é a parte onde nesta cidade se agrupam em grandes edifícios próprios as suas escolas preparatórias e superiores. Poder-se-à, por isso, denominá-la — Vila ou Sede da Inteligência — sem que o nome parecesse a ninguém eivado de pedantismo. Começo a minha visita pela circunvolução das matemáticas, pelas quais a minha admiração é tão profunda e tão vasta quanto a minha incapacidade de as compreender é imensa!
Subo as escadas da Escola de Engenharia pelo braço do seu ilustrado Diretor, Sr. General Barreto Viana, que não cessa de me dar provas da sua amabilidade esclarecedora, fazendo-me a descrição histórica do estabelecimento, corpo central de que se ramificam seis institutos que lhe são subordinados, mas que tem cada um deles a sua vida autônoma: os Institutos Ginasial Júlio de Castilho, Astronômico e Meteorológico, Técnico Profissional, Eletrotécnico, de Agronomia e Veterinária e Gabinete Técnico.
Depois de um pequeno repouso no salão de honra, eis-me em romaria por corredores, aulas, laboratórios, bibliotecas e arquivos, salas de diretoria, secretaria e congregação.
Assisto a um continuado abrir e fechar de portas, da liberdade dos corredores para os recintos silenciosos das aulas vazias, mas em cujo ambiente, entretanto, me parece sentir ainda a temerosa incógnita dos X. X.
As ideias que se cristalizam em palavras deixam sempre no espaço em que são debatidas uma vaga irradiação do seu sentido. É essa coisa invisível, mas sensível, que dá encanto às casas velhas, verdadeiros túmulos de almas.
O diretor adivinha a minha abstração e apressa-se em conduzir-me ao Ginásio Júlio de Castilhos.
Tenho neste Instituto o vaidoso prazer de ver um livro meu adotado particularmente por duas das suas professoras principais e verdadeiras evangelisadoras das letras e da instrução: as ilustradas rio-grandenses Camila Furtado Alves e Pepita Leão.
Tem este fato a importância de fazer a criançada olhar para mim com simpatia. Leio-lhes nos grandes olhos escuros e doces que já eram minhas amigas mesmo antes de me conhecerem. Esta certeza faz-me bem ao coração.
Sem nenhuma competência especial que possa determinar da minha parte um juízo apreciável sobre assunto de natureza tão complexa como o organismo dos grandes estabelecimentos de ensino, eu procuro apenas fixar nestas ligeiras páginas de "croquis" a lápis, as exterioridades das coisas por que passo. Não me sorriem vagares para fazer estudos profundos nem compulsar relatórios, mesmo por que a ter de ler alguma coisa, prefiro ler Shakspeare, com quem me considero sempre em atrazo.
Assim, deixo generosamente as das estatísticas para os profissionais de secretaria e vou traçando as minhas impressões pessoais sobre as lindas terras do Rio Grande do Sul, sem remorsos porque são sinceras, embora sem o peso de exposições documentadas que lhe dariam valor mais apreciável.
Desprevenida, entro no Ginásio Júlio de Castilhos, na hora da saída para o almoço. Em Porto Alegre, todos os trabalhos sofrem uma interrupção das onze horas ao meio-dia. Fecham-se então as portas do comércio e as dos colégios.
As ruas têm espreguiçamentos de sono e de tédio, na moleza do abandono e da sesta. Tenho, porém, ainda tempo para observar os magníficos exemplares de boa raça gaúcha, representados nestas crianças em que predomina o tipo moreno-claro, de olhos e cabelos castanhos. Além de bonitas, revela-se no seu modo e no seu vestuário a simplicidade correta das boas normas educativas.
Ao zumbir das vozes das crianças junta-se agora, vindo de fora, do ar livre, o som alegre de uma banda no — Amor Febril — que é a música mais popular aqui, nesta estação. Quem toca são os rapazinhos do Instituto Parobé, — que é o do ensino técnico profissional mantido pela Escola de Engenharia para proporcionar gratuitamente aos meninos pobres uma educação teórica e prática. Nenhuma das várias secções da escola me pôde ser mais simpática. Ela não representa só a inteligência e a ciência, mas também a equidade e o coração.
Não é por mera sentimentalidade, entretanto, nem só pelo espírito de justiça que eu, governo, favoreceria especialissimamente os estabelecimentos desse gênero; mas pela ideia de que é com os pobres que os povos devem contar de preferência para o progresso e a felicidade do seu país.
Atravesso um jardim e um pátio, por entre alas de alunos bem uniformizados e sorridentes, e penetro, comovida e alegre, nas aulas e nas oficinas. Elas ainda fremem no calor do trabalho interrompido. Passo pelas secções das construções mecânicas, construções metálicas, trabalhos em madeira, artes gráficas, tipografia, encadernação, litografia, eletroquímica e artes de pintura decorativa, escultura e modelagem em barro, onde me obsequiam com dous vasos artísticos para plantas e adorno de mesa.
Como me disponho a ver as coisas com maior minúcia, lembram-me que não tenho tempo às minhas ordens. E, francamente, é do que eu tenho pena. Se esse senhor me obedecesse, o que eu faria!
Entro no Instituto Astronômico e Meteorológico, de que é um dos diretores um discípulo diplomado e premiado pela Escola de Engenharia; ouço coisas interessantes sobre climatologia, previsões do tempo, e belezas do céu rio-grandense; vejo mapas, cartas, instrumentos, subo as escadas do Observatório e torno a descê-las, com a convicção de que tudo aquilo está muito bem organizado e a tristeza, que talvez pareça absurda, de não poder admirar estrelas ao meio-dia!