Capítulo XIII
Tivemos visitas ao jantar e discutiu-se literatura. Como sempre que há discussão houve algazarra. Parece-me que a única pessoa da mesa que permaneceu silenciosa fui eu. O debate teve certos pontos interessantes sob o ponto de vista psicológico e literário. Uma das senhoras presentes, a professora D. Leopolda Barnevitz, demonstra conhecimentos da literatura portuguesa, francesa e inglesa; critica com entusiasmo Camilo e Dickens, Flaubert e Daudet. Abro os ouvidos curiosa. E queixamo-nos de que não se lê em nosso país! A pessoa de opinião mais acatada e imperativa pelo seu saber e experiência, Sr. Victor Silva, a quem os moços chamam: mestre, resumindo suas impressões sobre obras nacionais no gênero — romance — cita como o melhor livro, depois dos de Machado de Assis, — o Canaã, de Graça Aranha.
Enquanto continuava a conversa espiritual e tumultuosa, eu meditava sobre o que pensará hoje dessa sua obra o ilustre romancista. Arderá ainda no seu coração, como quando o descreveu, aquela fé no colono alemão, como sendo o mais propício a infiltrar no Brasil uma superioridade de raça?
Realmente, para o esclarecimento da verdade não há nada como um dia depois do outro, como diz o ditado.
É noite e faz frio; ageito-me nas almofadas e leio um livro arcaico que me faz andar em tempos de Jesus Cristo pelas estradas poeirentas da Palestina.
É uma outra viagem que faço através do tempo e da história sem enjoos de barcas nem incômodos de trens de ferro. Nela, nunca Jesus me aparece como o vemos representado nos mármores e nas telas, com a cabeleira esparsa em ondas sedosas sobre os ombros, mas com a cabeça coberta com a rodilha de panos então usada por todos os hebreus. Em arte, só me lembro de o ter visto assim uma vez: no sonho de Theodorico Raposo, a maravilhosa página de Eça na sua incomparável "Riliquia". Sobre este ponto diz mesmo o autor que estou lendo:
"Os pintores cometem um grande erro quando representam Cristo de cabeça descoberta. Todo o mundo usava turbante. O do Cristo deveria ser como o dos outros, preso em baixo do queixo por um cordão e com a ponta da faixa caída de um lado sobre a manga da túnica."
Apesar de tudo acho que os pintores têm razão.