Capítulo XIV
Por pequenos detalhes e traços insignificantes colhidos em palestras e ouvidos em descrições de hábitos locais, parece-me perceber que o Rio Grande do Sul, não tem só muito dinheiro pelo modo porque é governado nem tampouco pela notável abundância da sua produção agrícola, pecuária e industrial, mas também e muito especialmente, pela índole econômica do seu povo que neste ponto nos poderia dar a todos nós, outros brasileiros, lições proveitosíssimas.
O critério, que faz do francês o povo mais rico do mundo, faz ou fará da população rio-grandense a população mais rica do Brasil.
Com um pouco de exagero poder-se-ia dizer que está no ar que se respira esta prevenção cautelosa que obriga muita gente aqui a pensar com seriedade no dia de amanhã, guardando economias para as debilidades da velhice e da idade madura. Só depois de assegurada a casa e o pão cotidiano é que a maioria das pessoas se permitem satisfazer a ambição de sonhadas viagens ou de aquisições reputadas supérfluas.
Este modo de supitar impaciências é uma demonstração de força de vontade rara em indivíduos da nossa raça vivaz e imprevidente. Não perguntei ainda pelo valor das entradas mensais na caixa Econômica do Estado, mas se a minha percepção não é por demais rombuda elas devem ser de considerável importância.
Enganar-me-ei? É cedo para sabê-lo mas suponho que não erro acreditando nas acertadas tendências financeiras destes nossos patrícios, para os quais todo o brasileiro nascido fora do seu Estado é denominado — baiano.
Pergunto porquê, e não me sabem explicar a razão dessa curiosa anomalia, mas certamente que ela não poderá deixar de ser lisongeira à ilustre e ilustrada terra nortista.
Fui assim baiana durante os dias em que tive o gosto de viver no Rio Grande do Sul, gozando a glória de ser conterrânea do meu bom amigo Constâncio Alves, e do eminente senador Sr. Ruy Barbosa!
Há dois pontos no Planeta a que ainda muito criança me acostumei a amar mesmo sem os conhecer, através da saudade de duas aias que embalaram o meu berço e contaram as primeiras histórias que me embeveceram a imaginação. Esses dois pontos são, um — a Baía, terra da mulata escrava a quem eu dava com ternura o nome de — Mamã Maria; o outro a Ilha de S. Miguel, nos Açores, pátria da governante da casa de meus Pais, que eu chamava de Avó e a quem o meu coração é sempre reconhecido. Deste modo, ser baiana para mim não é muito difícil!