Capítulo XX
Decidi esta manhã ir surpreender o professor Augusto Luís de Freitas, na sua aula da Escola de Belas Artes, no segundo andar do Conservatório de Música. Encontrei-o rodeado de discípulos a circular de cavalete em cavalete, na afanosa e simpática atividade dos mestres esforçados.
No silêncio atento da sala, meninas e rapazes copiavam o gesso clássico do Apolo e das Vênus consagradas, ainda sem forças para arcarem com as dificuldades do modelo vivo. Mas não tardará o dia, dizia-me o mestre com um raio de entusiasmo a tremeluzir-lhe nas pupilas, em que os meus alunos comecem a trabalhar do natural. Possam eles então encontrar sempre bons modelos, o que constitui um dos grandes escolhos dos pintores no Brasil. Há muito pouco quem se queira sujeitar aqui à profissão de pousar nos ateliês para estudos e quadros. Vencidas as primeiras dificuldades, os meus alunos farão milagres porque são inteligentíssimos e pertinazes. É admirável a aplicação da vontade destes moços e destas moças.
Tenho em todos a maior esperança.
Eu não esperava ouvir tanto. Nem supus nunca que numa cidade em que faltam ainda os principais elementos propulsores do gosto artístico, quase sempre formado pela observação e inspiração de obras dos Mestres, pudesse haver já tamanho ardor no estudo do desenho. Um ambiente de arte não se forma de um dia para o outro; assim, todo aquele esforço que eu estava presenciando era o desabrochar de um ideal luminoso, mas que tão cedo não poderia ser completamente realizado, a não ser
"— A não ser, disse o mestre como se tivesse lido em meu pensamento, que o Rio Grande possa manter os melhores destes discípulos na Europa por prazo indeterminado, organizando um grupo de artistas que venha depois para a sua terra transmitir a outros o que tenha aprendido. Uma andorinha só não faz verão."
Criatura que volte fascinada pelos esplendores do velho Mundo, cada vez mais velho e por isso mesmo cada vez mais belo, e não encontre na pátria quem tenha vibrado às mesmas impressões e no irradiar os seus estudos e pensamentos não veja quem o secunde, apoie e acompanhe, sentir-se há como no deserto e perderá o ânimo para o trabalho criador
E criar uma arte regional, é quase um dever neste Estado, um dos mais típicos da União. Ele deve por isso acoroçoar os seus artistas, favorecê-los, acenar-lhes com prêmios compensadores para que, nas suas telas ou nas suas estátuas como nas páginas dos seus livros, resplandeçam todas as qualidades físicas dos seus filhos e toda a graça pitoresca dos seus costumes.