Capítulo XIX Jornadas no meu país · Capítulo 19 de 37
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Capítulo XIX

Nem sempre as preferências de cada viajante, variam segundo as condições do lugar em que ele esteja. Há alguns que ao visitarem uma cidade, a primeira coisa que nela procuram conhecer é o cemitério; outros só se preocupam com os museus; para a curiosidade de muitos nada há como a rua, em que toda a gente passa e em que cada edifício ou mostruário de loja é uma demonstração do sentimento e da vida própria da localidade; para outros não há o que tão grandemente lhes possa atrair a atenção como os teatros ou os jardins, as escolas ou os mercados. O mercado de uma cidade é quase sempre coisa pitoresca e até certo ponto elucidativa dos gostos e dos hábitos da sua população.

Quem leu — "Le Ventre de Paris" — de Emilio Zola, o escritor todo poderoso do romance, em que a natureza morta é reproduzida com pinceladas que só encontram parentesco nas dos quadros de maior realce do nosso grande pintor Pedro Alexandrino; quem saboreou essas cenas multicores que palpitam nas páginas do livro numa expressão flagrante de verdade, não pode deixar de considerar um mercado como um elemento indispensável não só ao estômago cada dia mais exigente do homem, como também à visão cada vez mais original do artista. Pois qualquer colorista à espanhola, encontraria nos kakís que esmaltam de vermelho o Mercado de Porto Alegre, entre mirradas bananas e outras mais ou menos murchas frutas do norte, um elemento admirável para alegres manchas e risonhos quadros de gênero.

O kakí, ou káki, como se diz aqui acentuando a primeira sílaba, é a fruta da estação. Japonesa de origem, cultivada no Brasil há poucos anos, ela parece que em parte alguma se poderá dar melhor do que no Rio Grande, a julgar pelos magníficos exemplares que tenho visto e saboreado. O valor deste fruto é sobretudo decorativo, é ele que põe uma nota alacre nas barracas dos mercadores, agora mal sortidas de verduras e de frutos. A praça é asseada e está construída na parte baixa e comercial da cidade. Falta-lhe, como faltam em todos os mercados brasileiros, a graça da vendedora, a alegria petulante da mulher do povo, que assusta um pouco as senhoras mas que é sempre um elemento de pitoresco em conjuntos dessa natureza.

As Colônias do Rio Grande do Sul, de que toda a gente fala como sendo o que de mais curioso e de mais sugestivo há a ver neste Estado, despejam no comércio da cidade uma grande variedade de produtos, e bons produtos. São da colônia italiana de Alfredo Chaves os excelentes queijos de massa bem ligada e macia que figuram em vários tabuleiros do mercado e dos quais um rapazinho lava um deles com uma escova áspera sob a água corrente de uma bica.

Além dos queijos, de cuja fabricação os italianos sempre gozaram de boa fama em todo o mundo, figuram também na praça, vindos da mesma próspera Colônia, suculentos presuntos e toda a espécie de salsicharia.

As colônias nas montanhas são os celeiros, as hortas, os pomares, e tudo mais que pode fornecer o alimento para a população do Estado. Elas são fontes de fartura de que jorra não só a abundância como a poesia de um encanto próprio, peculiar, porque reproduz cada uma delas, no campo serrano brasileiro, o tipo das suas respectivas nacionalidades. Engastam-se assim na terra rio-grandense, variando-a nos seus aspectos e sistemas de cultura, pequeninos trechos que se diriam europeus. São pedacinhos de alma da Itália, da Alémanha, de Portugal, que, pela fidelidade às suas tradições e ao seu sentimento natural continuam na terra americana, verdadeiro seio de Abraão, a vida começada no outro continente.

Dizem-me todos que as Colônias são a parte mais pitoresca e mais variada do Sul; somente, quando falo em ir vê-las, objetam-me logo que é péssima agora a ocasião para fazê-lo; porque nesta quadra eu só encontraria nelas casas fechadas, frio, chuva e lama.

O frio, confesso, não me assusta nem mesmo desagrada. A provisão que eu trouxe no sangue do calor do Rio faz-me afrontar com bizarria todos os rigores deste inverno; mas para o resto, concordo não valer a pena qualquer esforço.

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