Capítulo XV
Andei parte do dia pelo bairro dos Navegantes entre operários e teares, fornos e chaminés de fábricas.
Há, parece, que nada menos de cento e cinquenta desses estabelecimentos em Porto Alegre. Convidaram-me a visitar cinco de entre eles, o que já não é pouco. O que me vale é que tenho curiosidade para tudo, graças a Deus.
Para mim a vida é um livro em que cada dia é uma página de interesse particular e significação diferente. Um verdadeiro romance, com períodos à Ponson ou à Eça, à Júlio Diniz, ou à Zola.
Neste bairro operário penso involuntariamente em certos contos de Gorki, onde. o rangido das correias e os dentes das engrenagens exprimem ideias confusas em sons mastigados e de ruído insuportável.
Há no mundo só três espécies de rumores com beleza: o das tempestades; o da música e o das ovações ou imprecações das turbas.
Todos os outros fazem desesperar quem os suporte. Lembra-me que a primeira vez que entrei em uma fábrica fiquei tão horrorizada com o barulho, que fiz a mim mesma uma promessa de jamais entrar em nenhuma outra. E essa promessa só deixei de a cumprir hoje, quando transpus a soleira da mais importante fábrica de tecidos desta cidade manufatureira.
E tão manufatureira, que eu cismo em como, com a nossa mania de fazer comparações, tais como a de qualificarmos o Recife de Veneza; S. Luís do Maranhão de — Atenas, etc.; nós não tínhamos ainda dado o nome da fabril Manchester a Porto Alegre! Tanto melhor, por que essas coisas quando não sejam perfeitamente justas, são absolutamente ridículas.
Pois este bairro operário é grande e sugestivo! Já do alto do sítio aristocrático da Independência e dos jardins da Idráulica, eu tinha voltado para ele os olhos notando-lhe a quantidade de chaminés que emergem da sua larga planície, desenrolando no ar consecutivos rolos de fumo.
Percorro a fábrica toda; atravesso pátios, entro em salões sucessivos, vejo tecer, vejo fiar, vejo tingir; sinto o cheiro da lã bruta e da lã cardada; subo e desço escadas, ensurdecida pelo vozear dos maquinismos colossais que me dá a impressão de me ter feito inchar a cabeça; grito para fazer-me ouvida em uma ou outra pergunta, não ouço as respostas que me dão, acanho-me de o confessar e admiro o esforço dos industriais em uma montagem que me parece completa e perfeita, a não ser que já existam no mundo maquinismos que façam as mesmas coisas em absoluto ou mesmo relativo silêncio, e saio, trazendo como lembrança da minha visita, um lindo ramo de flores e um não menos lindo corte de vestido.
Mas, como está determinado que o dia se consagre à observação das indústrias manufatureiras da capital rio-grandense, deste grande estabelecimento levam-me os meus amigos a um outro de não menor importância — a uma Fábrica de Meias em que me dizem trabalhar, se não me falha a memória — seiscentos operários. Há entretanto muitas máquinas paradas por falta de agulhas, que a guerra não deixa exportar da Europa. Reconheço nestas meias rio-grandenses muitas das que vejo expostas nas nossas lojas, como vindas do outro hemisfério... O edifício é grande e de caprichosa montagem, percorro-o todo, declaro-me admirada, recebo flores, e quando entro no automóvel vejo amontoadas no banco da frente várias caixas de meias!
— Mas é um passeio lucrativo! exclama uma das minhas amigas, ao mesmo tempo que eu pergunto:
— E agora para onde vamos?
— Agora para uma fábrica de vidros, respondeu-me o amável dr. Montaury. O trajeto foi curto. Momentos depois atravessávamos a área do novo estabelecimento em que, como nos pátios das outras fábricas, havia empilhada uma enorme quantidade de lenha.
Desde que cheguei ao Rio Grande do Sul tenho a impressão de andar viajando em pleno reino mineral, tão insignificante me parece, relativamente, a vegetação no harmônico conjunto das suas areias, das suas águas e das suas pedras. Causa-me por isso certa estranheza ver tamanha abundância de lenha nas fábricas que visito.
De que matas terão vindo essas árvores esquartejadas, amputadas e lascadas, que esperam ao vento e ao sol a hora suprema da sua última transformação?
Pergunto e respondem-me que elas foram trazidas das regiões ubérrimas do Rio Grande interior, das margens baixas dos rios ou dos dorsos das serras umbrosas.
A aridez que eu noto é limitada à região das cidades principais, onde há pouquíssimas ruas arborizadas e raros parques verdes, tão queridos nas capitais populosas, mesmo naquelas de luz pálida e calma, como Londres.
Eu que adoro o arvoredo e trago na minha bagagem um livro de que faço propaganda ativa, porque o escrevi certa da necessidade cada vez mais imperiosa e urgente do plantio da árvore no Brasil, não posso deixar de lastimar quando a vejo mal estimada. Certamente que o Brasil é uma terra de florestas, mas de florestas dizimadas, quando entretanto a sua glória e a sua fortuna estão exatamente dependentes da árvore cultivada!
Essas matas serranas de onde provém tanta madeira, serão ao menos replantadas?
A esta pergunta ninguém responde de modo claro e positivo. Quer isso dizer que não são replantadas; que não há lei que obrigue o lenhador a substituir a árvore adulta que ele abate por outra árvore pequenina da mesma ou de melhor espécie, que perpetue na pátria o melhor tesouro da sua natureza e da sua previdência. Assim as lindas regiões montanhosas ou as margens férteis dos rios necessitados de sombra, de onde vem a lenha para os ventres insaciáveis dos fornos industriais se converterão pouco a pouco em sítios escalvados, sem poesia nem utilidade.
Um dos meus tios avós, filósofo português aferrado aos livros, sempre que a esposa lhe ia pedir dinheiro para compras e contas, abria uma gaveta, sem mesmo interromper a leitura que fazia, remexia os dedos em moedas de ouro e dava-as sem as contar, com. o único desejo de que o deixassem em paz. Chegou um dia porém, em que à costumada solicitação, ele, executando maquinalmente o mesmo gesto de sempre e não encontrando nada dentro da gaveta, respondeu tranquilamente—Acabou-se. E continuou a ler.
A mulher, nervosa, inteligente, e conhecedora da alta competência literária do marido, não perdeu tempo em fazer exclamações e correu a inscrever o nome de Pedro Seixas num concurso que se encerrava nesse próprio dia para lente de Literatura não sei em que escola oficial de Lisboa. Foi o bom do meu tio avisado da hora em que deveria comparecer às provas públicas desse certamen de que tirou o primeiro lugar com admirável e superior brilhantismo. Foi preciso que a última libra esterlina tivesse rolado do seu bolso para o abismo do incognoscível para que o seu saber fosse útil à sociedade em que vivia.
Esperemos que não seja igualmente necessário o ver desaparecida a última árvore das nossas terras para corrermos então a semeá-las, com gesto vivo e alma esperançosa.
Vejo fabricar vidro. Um operário de bigode ruivo, fisionomia de austríaco, presenteia um dos meus amigos com uma bengala e a mim com uma caneta de cerca de cincoenta centímetros de comprimento! Além disso ainda os diretores me presenteiam com os seus mais vistosos vasos para flores.
— Será preciso ver mais fábricas?
— Sim! Vamos agora a uma de bonbons, que derrama doçura por todo este Brasil, e depois a uma de perfumes habilitada a rivalizar com a do próprio Houbigant!
E assim aconteceu. Em todas a mesma atividade, as mesmas comodidades e boas instalações, em todas muitos operários, ar de riqueza e as mesmas flores e caixas atadas com fitinhas em lembrança da nossa visita. Não se pode ser mais gentil, mas sinto-me cansada. Terei febre? Suponho que sim. Recolho-me mais cedo esta noite e ao adormecer revejo a linda figura de uma rapariga trigueira, de tranças negras, pendidas à moda cigana, e que na fábrica de tecidos tomava conta do seu tear.
A séria e singular expressão dessa operária formosa e moça impressiona ainda a minha imaginação.