A Alma do Homem sob o Socialismo: Bloco 7
Havia uma mulher que foi apanhada em adultério. Desconhecemos a história de seu amor, embora esse amor deva ter sido muito grande, pois Jesus disse que seus pecados lhe foram perdoados em razão da intensidade maravilhosa desse amor, e não por arrependimento. Mais tarde, pouco antes de sua morte, quando ele estava sentado a uma mesa, a mulher entrou e derramou perfumes preciosos sobre seus cabelos. Seus amigos tentaram interferir e disseram que aquilo era uma extravagância, e que o dinheiro custado pelo perfume deveria ter sido gasto em auxílio caritativo a pessoas necessitadas, ou em coisa parecida. Jesus recusou essa opinião. Mostrou que as necessidades materiais do homem eram grandes e muito permanentes, enquanto as necessidades espirituais do homem eram ainda maiores, e que, em um único momento divino, escolhendo seu próprio modo de expressão, uma personalidade podia tornar-se perfeita. O mundo ainda hoje venera essa mulher como santa.
Sim, há coisas sugestivas no individualismo. O socialismo aniquila a vida familiar, por exemplo. Com a abolição da propriedade privada, o casamento em sua forma presente deve desaparecer. Isso faz parte do programa. O individualismo aceita essa consequência e a torna bela. Converte a abolição da restrição legal em uma forma de liberdade que ajudará o pleno desenvolvimento da personalidade e tornará o amor entre homem e mulher mais maravilhoso, mais belo e mais nobre. Jesus sabia disso. Rejeitou as reivindicações da vida familiar, embora elas existissem em seu tempo e em sua comunidade de modo muito marcado. "Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?", disse ele, quando lhe contaram que desejavam falar com ele. Quando um de seus seguidores pediu licença para ir sepultar o pai, "Deixa os mortos sepultar os mortos" foi sua terrível resposta. Ele não admitiria que reivindicação alguma fosse feita sobre a personalidade.
Assim, aquele que levaria uma vida semelhante à de Cristo é aquele que é perfeita e absolutamente ele mesmo. Pode ser um grande poeta, ou um grande homem de ciência. Pode ser um jovem estudante em uma universidade, ou alguém que vigia ovelhas num descampado. Pode ser um criador de dramas, como Shakespeare, ou um pensador sobre Deus, como Spinoza. Pode ser uma criança que brinca num jardim, ou um pescador que lança sua rede ao mar. Pouco importa o que ele seja, desde que realize a perfeição da alma que existe dentro dele. Toda imitação na moral e na vida é errada. Pelas ruas de Jerusalém, no presente, arrasta-se alguém enlouquecido, levando uma cruz de madeira sobre os ombros. Ele é símbolo das vidas estragadas pela imitação. Padre Damien foi semelhante a Cristo quando saiu para viver com os leprosos, porque nesse serviço realizou plenamente o que havia de melhor em si. Wagner também o foi quando realizou sua alma na música. Shelley também, quando realizou sua alma no canto. Não existe um tipo único para o homem. Há tantas perfeições quanto há homens imperfeitos. Um homem pode ceder às exigências da caridade e ainda permanecer livre. Diante das exigências da conformidade, concessão alguma permite que um homem continue livre.