A Alma do Homem sob o Socialismo: Bloco 16 A Alma do Homem sob o Socialismo: Tradução Literunico · Capítulo 16 de 24
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A Alma do Homem sob o Socialismo: Bloco 16

Se um homem se aproxima de uma obra de arte com qualquer desejo de exercer autoridade sobre ela e sobre o artista, aproxima-se num espírito incapaz de receber dela qualquer impressão artística. A obra de arte deve dominar o espectador. O espectador não deve dominar a obra de arte. O espectador deve ser receptivo. Deve ser o violino no qual o mestre toca. Quanto mais completamente conseguir suprimir suas opiniões tolas, seus preconceitos absurdos, suas ideias ridículas sobre o que a Arte deve ser ou deixar de ser, mais provável será que compreenda e aprecie a obra de arte em questão. Isso, é claro, é muito evidente no caso do público vulgar de teatro, formado por homens e mulheres ingleses. É igualmente verdadeiro, porém, no caso das pessoas chamadas educadas. Pois as ideias de uma pessoa educada sobre Arte derivam naturalmente daquilo que a Arte foi, ao passo que a nova obra de arte é bela por ser aquilo que a Arte nunca foi. Medir essa obra pelo padrão do passado é medi-la por um padrão cuja rejeição constitui a própria condição de sua verdadeira perfeição. Um temperamento capaz de receber, por meio imaginativo e sob condições imaginativas, impressões novas e belas é o único temperamento que pode apreciar uma obra de arte.

E, sendo isso verdadeiro na apreciação da escultura e da pintura, é ainda mais verdadeiro na apreciação de artes como o drama. Um quadro e uma estátua não estão em guerra com o Tempo. Não levam em conta sua sucessão. Sua unidade pode ser apreendida num só momento. No caso da literatura, a situação é diferente. O tempo precisa decorrer antes que a unidade de efeito seja percebida. Assim, no drama, pode ocorrer no primeiro ato da peça algo cujo verdadeiro valor artístico só se torne evidente ao espectador quando o terceiro ou o quarto ato for alcançado. Deveria o sujeito tolo se irritar, gritar, perturbar a peça e incomodar os artistas? A resposta é negativa. O homem honesto deve sentar-se tranquilamente e conhecer as emoções deliciosas da admiração, da curiosidade e da suspensão. Ele não deve ir ao teatro para perder um temperamento vulgar. Deve ir ao teatro para realizar um temperamento artístico. Deve ir ao teatro para conquistar um temperamento artístico. Ele não é o árbitro da obra de arte. É alguém admitido a contemplá-la e, se a obra for bela, a esquecer em sua contemplação o egoísmo que o estraga, seja o egoísmo de sua ignorância, seja o egoísmo de sua informação. Esse ponto sobre o drama, creio, dificilmente é reconhecido o bastante. Posso compreender perfeitamente que, se Macbeth fosse apresentado pela primeira vez diante de uma plateia londrina moderna, muitos dos presentes fariam objeção forte e vigorosa à introdução das bruxas no primeiro ato, com suas frases grotescas e suas palavras ridículas. Quando a peça termina, contudo, percebe-se que o riso das bruxas em Macbeth é tão terrível quanto o riso da loucura em Rei Lear, mais terrível que o riso de Iago na tragédia do Mouro. Nenhum espectador de arte precisa de um estado de receptividade mais perfeito que o espectador de uma peça. No instante em que procura exercer autoridade, torna-se inimigo declarado da Arte e de si mesmo. A Arte não se importa. É ele quem sofre.

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