A Alma do Homem sob o Socialismo: Bloco 17
Com o romance acontece a mesma coisa. A autoridade popular e o reconhecimento da autoridade popular são fatais. Esmond, de Thackeray, é uma bela obra de arte porque ele a escreveu para agradar a si mesmo. Em seus outros romances, em Pendennis, em Philip, até em Vanity Fair, por vezes ele está consciente demais do público e estraga sua obra apelando diretamente às simpatias do público, ou zombando diretamente delas. Um artista verdadeiro não presta atenção alguma ao público. O público, para ele, é inexistente. Ele não tem bolos de papoula ou de mel com os quais possa dar sono ou sustento ao monstro. Deixa isso para o romancista popular.
Temos agora na Inglaterra um romancista incomparável, o Sr. George Meredith. Na França há artistas melhores. A França, entretanto, não possui ninguém cuja visão da vida seja tão ampla, tão variada, tão imaginativamente verdadeira. Há narradores na Rússia que têm um sentido mais vivo daquilo que a dor pode ser na ficção. A ele pertence, contudo, a filosofia na ficção. Seus personagens vivem e também vivem em pensamento. Podemos vê-los de inúmeros pontos de vista. São sugestivos. Há alma neles e em torno deles. São interpretativos e simbólicos. E aquele que os fez, aquelas figuras maravilhosas de movimento rápido, fez tudo para seu próprio prazer, jamais perguntou ao público o que queria, jamais se importou em saber o que queria, jamais permitiu que o público lhe ditasse coisa alguma ou o influenciasse de qualquer modo, seguindo adiante na intensificação de sua própria personalidade e na produção de sua própria obra individual. A princípio, ninguém veio até ele. Isso não teve importância. Depois, vieram os poucos. Isso não o modificou. Agora vieram os muitos. Ele continua o mesmo. É um romancista incomparável.