A Capela dos Amaral
Miguel não quis levar Isadora à capela naquela mesma noite. Disse que o terreno dos Amaral ficava do outro lado do lago, com portão particular, cães soltos e seguranças que recebiam ordem direta de Heitor Amaral, o noivo que agora fingia luto dentro da casa principal. Isadora ouviu a explicação com o cartão de memória fechado na mão e a fotografia de Clara sobre a cama. A recusa dele parecia prudência policial, porém também tinha cheiro de proteção antiga, e ela já conhecia demais aquele gesto para aceitar sem reagir. Pediu o mandado, pediu a equipe, pediu a viatura, pediu qualquer desculpa oficial que tirasse a chave da gaveta e colocasse os dois diante da porta certa. Miguel olhou para o vestido azul aberto na cama e depois para a janela, onde o lago escurecia atrás das árvores. Disse que conseguiria entrada legal pela manhã. Isadora respondeu que Clara não escrevera um bilhete para a manhã.
Foram no carro de Miguel, sem sirene, pela estrada estreita que contornava Santa Lúcia e subia até os terrenos antigos. A cidade passava pelas janelas com luzes baixas, farmácia fechando, barulho de copos no bar da praça, duas mulheres paradas diante da igreja fingindo não reconhecer o carro do delegado. Isadora ficou no banco do passageiro com a bolsa no colo, a chave presa entre os dedos e o bilhete de Clara dobrado dentro da carteira. Miguel dirigia em silêncio, com a mão firme no volante e a outra perto do rádio. A proximidade no carro lembrava outras noites, quando ele a deixava em casa depois das aulas e ficava alguns segundos parado diante do portão, esperando coragem ou permissão. Isadora afastou essa lembrança olhando para a estrada. Doze anos não davam direito a nostalgia antes de justiça.
O portão dos Amaral surgiu depois de uma curva, alto, preto, com lanças de ferro e câmeras novas presas aos pilares de pedra. Miguel estacionou antes da guarita e apagou os faróis. A capela ficava abaixo da casa principal, perto de uma fileira de ciprestes que descia até a água. A família a mantinha fechada desde a morte do patriarca, mas Clara usara aquela chave, ou pelo menos acreditara que Isadora conseguiria usar. Miguel conferiu o rádio, avisou a um policial de confiança que entraria para verificação de prova e pediu vinte minutos antes de qualquer chamada aberta. Isadora perguntou se aquilo era legal. Ele respondeu que era suficiente para impedir que a prova desaparecesse até o amanhecer. A sinceridade dele quase a fez sorrir. Miguel Falcão continuava perigoso quando parava de fingir que obedecia a todas as placas.
Entraram pelo caminho de serviço, passando por um muro baixo coberto de hera e uma trilha de cascalho molhado. Isadora ia à frente porque segurava a chave, Miguel logo atrás, perto o bastante para alcançar seu braço se ela escorregasse. Em dois pontos, ele tocou sua cintura sem pedir, apenas para firmá-la no terreno úmido, e em ambos retirou a mão depressa, ciente demais do que aquele contato ainda podia acender. Isadora não comentou. A capela apareceu entre as árvores, pequena, cinza, com vitral quebrado acima da porta e uma imagem de santa sem cabeça no nicho lateral. O lago batia nas pedras logo abaixo, escuro e baixo, trazendo cheiro de barro, folha e gasolina antiga. Isadora encaixou a chave na fechadura. Girou uma vez. A porta cedeu com um estalo que parecia ter esperado anos por aquela mão.
Dentro da capela havia bancos cobertos por panos, flores secas no altar e marcas recentes no chão empoeirado. Miguel acendeu a lanterna do celular e pediu que Isadora não tocasse em nada sem avisar. Ela ergueu a mão livre em acordo, mas seguiu direto para o altar, onde a fotografia de Clara parecia apontar. No fundo, atrás de uma cortina azul presa por pregos, havia uma porta baixa. A chave não servia ali. Miguel abriu com uma ferramenta fina do próprio chaveiro, gesto rápido que denunciava hábitos de delegado em cidade onde muita porta oficial escondia mentira particular. O cômodo atrás da cortina guardava caixas de vinho, capas de chuva, um remo partido e uma mala branca com etiqueta de noiva. Isadora se ajoelhou diante da mala antes que Miguel terminasse de examinar o chão. O nome Clara Montenegro estava escrito na etiqueta, com a data do casamento marcada para o dia seguinte.
A mala trazia um par de sapatos secos, um véu dobrado, remédios contra enjoo, uma pequena câmera portátil e três envelopes lacrados. O primeiro tinha o nome de Isadora. O segundo, o de Miguel. O terceiro, sem nome, guardava apenas uma fotografia antiga de quatro adolescentes diante do lago. Isadora reconheceu a si mesma aos dezessete anos, Miguel com o cabelo mais comprido, Clara ainda criança no colo da mãe e Heitor Amaral ao fundo, borrado pela luz. Havia outra pessoa na margem esquerda da imagem, meio escondida atrás de uma árvore. Um homem jovem, de camisa clara, com a mão no ombro de Clara. Miguel pegou a foto usando um lenço, aproximou da lanterna e ficou rígido. Isadora viu o reconhecimento no rosto dele antes da resposta. Perguntou quem era. Miguel demorou demais. Depois disse que aquele homem se chamava Davi Amaral, irmão de Heitor, morto na mesma noite em que Isadora fugiu da cidade.