A Casa da Tia A Noiva do Lago · Capítulo 9 de 16
Obra Menu

A Casa da Tia

A casa da tia ficava no alto de uma ladeira estreita, de frente para o lago, com uma varanda de madeira pintada de azul-claro e vasos de manjericão nos degraus. Isadora chegou primeiro com Miguel e Heitor, ainda carregando a bolsa cheia de envelopes, a fita e a ficha de Clara. A mulher abriu a porta antes mesmo da batida, enxugando as mãos num pano de prato e olhando os três com a calma de quem já esperava visita ruim. Chamava-se Tereza e conhecia Davi desde menino. Também sabia que Marta não aparecia ali havia meses. Quando viu o nome da sobrinha na ficha, passou a mão pela boca e mandou os três entrarem sem perguntar mais nada.

A sala tinha quadros antigos, um relógio de parede que atrasava cinco minutos e uma mesa coberta por toalha bordada. Tereza puxou uma cadeira para Isadora, outra para Miguel e ficou de pé perto da janela. Heitor foi até a cozinha buscar café, mas voltou sem sentar, com o rosto travado e o celular na mão. Disse que a polícia de Marta estava no caminho da estrada principal e que alguém da prefeitura tinha avisado a chegada deles. Tereza fechou a porta da varanda com duas voltas de chave e pediu que Isadora mostrasse tudo o que tinha. A bolsa veio para cima da mesa, os envelopes foram espalhados um a um, e a tia foi reconhecendo cada nome antes mesmo de ler a letra de Davi.

Quando Isadora abriu a ficha de Clara, Tereza soltou um som curto e disse que a menina tinha passado por ali semanas antes, muito mais magra e com os olhos sempre voltados para a porta. Segundo ela, Clara dormira duas noites no quarto dos fundos e partira antes do amanhecer, acompanhada por uma mulher do cartório e sem o próprio telefone. Miguel cruzou a informação com a folha da casa de vidro e viu a mesma assinatura de recebimento no canto do papel. A rota de Marta começava a ficar repetida demais para ser acidente. Heitor se aproximou da mesa com a fita cassete na mão e perguntou se a tia lembrava do carro branco visto perto da capela naquela mesma semana. Tereza respondeu que lembrava do carro e da mulher dentro dele, porque a mulher não baixava os vidros quando passava pelo portão.

Isadora abriu a última folha de Davi. Era uma carta curta, escrita dois dias antes da morte dele, e pedia que Tereza guardasse a chave amarela junto dos papéis da gaveta do fogão. A carta também pedia para não deixar Marta entrar sozinha na casa, porque a irmã já tinha começado a recolher nomes de testemunhas no cartório e não pararia com facilidade. Miguel leu em silêncio, apoiando os dedos na beirada da mesa, e perguntou onde estava a gaveta. Tereza apontou para o canto da cozinha e foi na frente. A gaveta do fogão escondia um envelope encerado com uma procuração, duas fotografias de Clara na cidade e a cópia de uma assinatura de Marta sobre a autorização da viagem. Isadora viu ali a arma inteira do casamento.

Heitor, que até ali vinha quieto demais, falou que a tia tinha sido a única a questionar a pressa do noivado. Disse que o resto da família aceitara o arranjo porque o nome Amaral não podia sair torto no jornal de São Bento. Isadora levantou os olhos devagar. A frase vinha com veneno velho e defesa cansada. Miguel percebeu a mudança e não deixou a conversa virar confronto. Pediu que Tereza confirmasse se Davi também sabia da saída de Clara da ilha. A tia assentiu. Disse que o rapaz apareceu na varanda duas noites antes do sumiço, com as mãos tremendo e a camisa toda marcada de lama. Falou que ele deixara uma carta no porta-luvas do carro e saíra sem aceitar café, porque o tempo dele já tinha acabado na estrada.

O telefone de Tereza tocou com número privado e ninguém falou no outro lado. Ela desligou na hora e apontou o aparelho para Miguel, dizendo que Marta usava esse mesmo código quando queria intimidar gente da família. Heitor puxou a cortina da janela e viu os faróis subindo a ladeira. Não houve tempo para fuga elegante. Miguel fechou a bolsa de Isadora, guardou a procuração dentro da camisa e mandou que todos apagassem a luz da sala. Tereza levou os papéis da gaveta para a lata de pão atrás do fogão, enquanto Heitor destrancava a porta dos fundos com a chave azul do depósito. A sirene ainda não havia chegado. A voz de Marta já subia da rua pedindo que a tia abrisse a porta para entregar o que era da família.

Isadora subiu primeiro pela escada lateral do quintal, com Miguel logo atrás e Heitor fechando a fila. Tereza ficou na varanda por um segundo extra, encarando a estrada e segurando o pano de prato contra o peito. Antes de correr, levantou a mão e mostrou para Isadora um pequeno maço de chaves preso a uma fita azul, exatamente o tipo de objeto que Davi deixara fora de vista para o dia em que alguém viesse cobrar verdade. Quando os três alcançaram o quintal vizinho, a primeira pancada contra a porta da frente já estava ecoando pela casa azul. No alto da ladeira, a luz de Marta desceu pela rua e parou diante da varanda da tia.

1/1
Menu

Fazer anotação