A Moldura Azul A Noiva do Lago · Capítulo 15 de 16
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A Moldura Azul

Clara voltou para a casa de vidro no banco de trás da viatura, acompanhada pelo delegado e por Vânia, que aceitou seguir com a equipe para confirmar os nomes da ficha de São Bento. Isadora ficou no carro de Tereza com Miguel e Heitor, porque o delegado pediu que eles esperassem a busca final antes de entrar de novo na casa. O lago já escurecia quando a viatura parou no deck e o portão lateral foi aberto com a chave azul que Heitor tinha guardado desde o depósito. Clara desceu devagar, olhou a fachada inteira de vidro e apontou sem hesitar para a sala de jantar. Era ali que Marta escondia a segunda cópia dos documentos.

A sala de jantar mantinha a mesa posta como em noite de visita. Havia pratos sem uso, copos virados para baixo e uma moldura azul pendurada acima da cristaleira, exatamente no ponto que Clara indicara no bilhete de Davi. Miguel subiu no encosto da cadeira mais próxima, retirou a moldura da parede e encontrou, atrás dela, um compartimento estreito com uma pasta plástica, uma folha do cartório de São Bento e um recibo da fundação em nome de uma empresa de fachada. Heitor leu o primeiro nome da lista e reconheceu a assinatura de Marta na linha de autorização. O delegado pediu que tudo fosse colocado na sacola de prova, sem tocar no material solto.

Quando Isadora entrou com Tereza, a casa já tinha outra cara. O barulho de passos no piso de madeira parecia maior, e qualquer movimento perto da janela vinha acompanhado pelo reflexo do lago escuro. Clara foi direto para a mesa e tirou do bolso o último bilhete de Davi, agora dobrado com a ponta já gasta. Ela contou que ele deixara aquele recado depois de voltar da cidade, no mesmo dia em que a família decidiu fechar a união antes do jornal local publicar a primeira linha sobre a fundação. Davi sabia que Marta tentava apagar o rastro com papel novo. Por isso escondeu a cópia onde ninguém pensaria em olhar duas vezes.

Vânia confirmou a data da passagem de Clara por São Bento e disse que a pousada do bairro alto já tinha recebido um aviso para não guardar mais ninguém da família Amaral sem notificar a delegacia. O delegado anotou a informação e pediu que o nome de Marta fosse colocado ao lado da empresa de fachada, da casa de apoio e do cartório. Isadora olhou a pasta aberta sobre a mesa e viu tudo que tinha sido espalhado durante os dias anteriores voltar para uma ordem simples, dura e fácil de ler. Não havia espaço para a versão de Marta depois da assinatura escondida dentro da moldura.

Marta chegou à casa de vidro escoltada pelo advogado e por dois policiais que já tinham recebido a ordem de acompanhar o registro. Não entrou correndo nem elevou a voz. Parou no vão da porta principal e ficou olhando os rostos reunidos na sala, um por um, até encontrar Clara. A sobrinha sustentou o olhar sem baixar a cabeça. O delegado entregou à mulher a pasta de prova e leu em voz alta o trecho do cartório, a ficha de São Bento, a carta da casa de apoio e a autorização da fundação. Quando terminou, pediu que Marta assinasse a ciência da apreensão. A mulher recusou por um instante, porém o advogado já tinha entendido o tamanho do dano. Pediu que ela assinasse.

Depois da assinatura, Marta foi levada até a varanda para aguardar a decisão da delegacia. A sala ficou quieta de um jeito que nenhuma casa de família deveria conhecer. Clara sentou no encosto da cadeira, respirou fundo e perguntou a Isadora se ainda havia tempo de recuperar o nome da irmã sem colocar mais ninguém na frente de Marta. Isadora respondeu que sim, porque a carta, a fita, a procuração e a cópia da fundação já bastavam para virar o caso. Miguel fechou a pasta com cuidado e disse que o último passo seria registrar Clara como vítima e pedir a suspensão de qualquer papel feito pela família desde a viagem a São Bento.

Quando o delegado saiu para levar o material ao carro, Tereza chamou Isadora até a cozinha e mostrou o fogão antigo, onde a gaveta falsa enfim ficava vazia. Disse que Davi escolhera aquele lugar porque casa rica adora esconder as coisas no alto e no centro da mesa, mas quase nunca no fundo da cozinha. Isadora tocou a madeira da gaveta, passou os dedos pelo espaço oco e entendeu que o segredo já não pertencia à casa. Pertencia ao que restava fora dela. Lá fora, o lago batia no deck, e a noite seguia sem pressa, porém com o caso inteiro já virado sobre a mesa.

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