O Trapiche de Davi
Isadora desceu da casa dos Amaral antes do amanhecer, com a fotografia de Clara dobrada no bolso da calça e a carta ainda aberta dentro da bolsa. Miguel insistira em levá-la de volta ao hotel, mas ela preferiu o banco de trás da viatura de apoio, onde a cidade parecia mais distante e o lago mais silencioso. O caminho até o trapiche de Davi cortava um trecho de estrada de terra que só os pescadores e a família Amaral usavam depois da meia-noite. A névoa baixa subia da água, arrastando cheiro de barro molhado, corda velha e peixe deixado ao sol. Miguel dirigia sem ligar a sirene, os olhos fixos no espelho retrovisor, enquanto Isadora lia pela quarta vez a linha da carta que mencionava a reunião no cais e o papel assinado por Marta Amaral. Aquilo ainda não era prova suficiente para sustentar um mandado e já tinha cara de gente viva tentando esconder o que fazia.
O trapiche ficava num braço estreito do lago, atrás de uma fileira de eucaliptos tortos e de um galpão de redes rasgadas. Miguel estacionou antes da curva final e pediu que Isadora ficasse no carro até ele confirmar a área. Ela recusou com a cabeça e abriu a porta antes que ele terminasse a frase. Miguel a olhou de lado, cansado de discutir e cansado de fingir que não se preocupava. Isadora desceu com ele, pisando devagar nas tábuas molhadas, e percebeu que o lugar ainda guardava a mesma forma da juventude deles, só que agora mais gasto, com pregos soltando, um barco virado na margem e uma caixa de isopor aberta perto da água. No centro do trapiche havia uma marca de tinta azul na madeira, quase apagada, e alguém tinha tentado esfregar o sinal com pressa.
Miguel se ajoelhou para examinar a tábua marcada e encontrou, entre duas ripas, um envelope plástico preso com arame fino. Dentro havia um recibo de combustível, uma nota de hotel e um bilhete assinado por Davi com data de duas noites antes da morte dele. O texto dizia que Clara não devia aceitar o vestido entregue por Marta e que Heitor já sabia do encontro no cais. Isadora leu a frase em voz alta e sentiu o estômago apertar de um jeito limpo, quase clínico, com a mesma falta de ar de quem perde o chão de repente. Miguel pediu que ela guardasse o bilhete enquanto fotografava o local. No outro extremo do trapiche, uma porta de serviço lateral estava semiaberta, escondida entre sacos de ração e boias quebradas. A madeira da tranca trazia um risco novo, recente, e o risco apontava para dentro.
O galpão do lado estava vazio à primeira vista, porém o chão de cimento mostrava marcas de arrasto e um caminho fresco de lama vindo da água. Miguel entrou primeiro, lanterna em punho, e Isadora foi logo atrás, recusando ficar do lado de fora enquanto a verdade se mexia por conta própria. Havia um freezer desligado, um armário de metal, duas cadeiras de plástico e uma mesa improvisada com mapas do lago, plantas da casa principal e cópias de contratos da Fundação. Isadora reconheceu a letra de Clara em uma folha presa com clipe. O papel listava horários de embarque, nomes de convidados do casamento e uma observação curta ao lado do nome de Heitor. Não deixa ele tocar nos documentos da noite. Miguel parou de respirar por um instante e depois abriu o armário de metal com uma chave pequena encontrada sobre a bancada. Dentro havia uma pasta preta, três fitas cassete e uma foto de Davi ao lado de Marta Amaral diante de um carro oficial.
A fotografia fez Miguel recuar um passo, não por medo da prova, e sim pelo modo como os rostos ali contavam outra história. Davi não parecia morto nem distante. Estava muito vivo, com a mão pousada no ombro de Marta, e havia na expressão dela algo que Isadora conhecia desde criança, o jeito de quem decide sem anunciar. Miguel puxou a pasta preta, abriu com cuidado e encontrou cópias de transferências bancárias, recibos assinados por Augusto Brandão e uma carta de demissão nunca enviada por Davi. A carta dizia que ele saía da negociação porque não aceitava usar o casamento de Clara para apagar a dívida do lago. Isadora leu a frase e sentiu o ar do galpão mudar, não por magia, e sim pela coragem que alguém tentou esconder durante anos. Miguel virou a página e encontrou um endereço escrito no rodapé, perto da margem esquerda. Casa de vidro, acesso pelo pomar.
Antes que Isadora perguntasse o que era a casa de vidro, o telefone de Miguel vibrou com a chamada de Henrique Amaral. Ele atendeu com o maxilar travado, ouviu pouco e respondeu menos. Quando desligou, olhou para Isadora e disse que Heitor acabara de saber da entrada na capela. Havia seguranças a caminho do trapiche e uma ordem expressa para retirar tudo antes da polícia oficial chegar. Isadora guardou a fotografia de Davi no bolso interno da jaqueta e foi para a porta, mas Miguel segurou seu pulso por um segundo, não para impedir a saída, e sim para fazê-la esperar o bastante para ouvir. Disse que havia coisas demais andando ao mesmo tempo e que ele não conseguiria protegê-la se ela continuasse entrando sozinha nos lugares errados. Isadora respondeu que não estava sozinha desde a carta de Clara. O olhar dos dois ficou preso um instante acima da linha do pulso, com a memória antiga da cidade tentando caber no meio.
Saíram do galpão pela porta dos fundos, cruzando o mato baixo até a margem mais escura do lago. Ao longe, luzes de carro já subiam pela estrada e o som de porta batendo denunciava pressa de gente bem paga. Miguel levou Isadora até a lancha velha escondida sob uma lona, destravou o motor e entregou a ela um colete de emergência. Disse que a casa de vidro ficava do outro lado da água e que, se os Amaral tivessem guardado o que Davi deixara, seria ali. Isadora vestiu o colete, amarrou o cabelo e entrou no barco sem discutir. Miguel ligou a lancha, o motor tossiu duas vezes e ganhou vida com um ronco baixo. Enquanto se afastavam do trapiche, Isadora viu uma luz se acender no alto da colina, atrás das janelas da casa principal. Alguém tinha acordado. Alguém já sabia que a verdade saía dali com eles.