O Cartório de São Bento
O quintal vizinho tinha um portão baixo que abria para a rua de trás, onde duas casas antigas davam vista para o mesmo recorte do lago. Isadora, Miguel e Heitor saíram por ali sem correr, porque correr chamaria mais olhos do que silêncio. Tereza apareceu na última curva da escada, trazendo um casaco gasto, a lanterna de pilha e o pequeno maço de chaves preso à fita azul. Mandou os três irem direto para a estrada de terra que descia até São Bento, porque Marta não sairia da varanda sem chamar os homens da própria casa. Isadora colocou a bolsa no ombro, guardou os envelopes com a ficha de Clara dentro do forro e sentiu o toque firme de Miguel no cotovelo ao conduzi-la para a lateral do muro. A mão dele não demorou, apenas apontou a passagem e voltou a ficar livre.
A caminhonete velha de Tereza esperava atrás do galinheiro, coberta por um lençol azul desbotado. Heitor assumiu o volante com a naturalidade de quem crescera mudando de rota dentro da própria família, Miguel foi no banco do meio com a fita cassete presa no bolso da camisa e Isadora ficou à direita, apertando a bolsa contra o corpo enquanto o motor ganhava força na descida. O lago apareceu entre as árvores por uma faixa estreita de luz, e a casa azul da tia ficou para trás sem ninguém olhar de volta. No primeiro cruzamento, Heitor desligou os faróis por dois segundos, ouviu o rádio chiando baixo e disse que a polícia da cidade já devia ter recebido a ligação de Marta. Não havia plano de fuga longa. Havia endereço certo e papel para mostrar.
O cartório de São Bento ficava numa rua curta, entre uma farmácia fechada e um açougue com a porta de ferro abaixada. Tinha pintura bege descascando nas beiradas e um balcão de madeira escura onde uma senhora de óculos recebia documentos sem levantar demais o rosto. Heitor entrou primeiro, pediu uma cópia da procuração da família Amaral e mostrou uma senha escrita por Davi em papel dobrado. A mulher do balcão reconheceu o nome e chamou o tabelião sem fazer perguntas. Miguel observava tudo com o cuidado de quem já sabia que papel guardado por tempo demais costuma ter dono escondido. Isadora permaneceu de pé perto da porta, olhando os armários de arquivo, até ver o nome de Marta riscado numa prateleira lateral.
O tabelião chegou com a camisa aberta no colarinho e a caneta ainda presa na orelha. Tinha o rosto de quem conhecia o medo dos outros por contabilidade, não por sentimento. Leu a senha de Davi, pediu o livro de registros e retirou uma pasta parda marcada com o número da matrícula da família Amaral. Dentro havia a autorização de transferência da casa de vidro para uma sociedade de nome limpo, a cópia da união de Clara com Miguel e Heitor, e uma folha solta com o timbre da fundação onde Marta aparecia como signatária secundária. Isadora pegou o papel primeiro. A assinatura de Davi vinha no rodapé, mas a data tinha sido empurrada para frente por três dias. Miguel viu a manobra e pediu o livro original da entrada de documentos.
O livro original ficava preso na gaveta de ferro do fundo, junto com o carimbo antigo e uma chave de boca que ninguém usava há meses. Quando o tabelião voltou com ele, Isadora percebeu a marca do mesmo nome na folha de protocolo do cartório e na ficha de saída de Clara. Era o tipo de repetição que já não dava espaço para dúvida. Davi tentara registrar a assinatura antes da viagem da irmã, e Marta interceptara o processo com um aditivo de urgência feito fora do horário. Heitor bateu a palma da mão na mesa e exigiu a cópia autenticada do recibo anterior ao casamento. O tabelião hesitou um instante, olhou para a porta e entregou a folha sem discutir.
Na cópia vinha o nome de Vânia, a enfermeira de São Bento, como testemunha do deslocamento de Clara. A mesma Vânia surgia na ficha da casa de apoio e em uma anotação lateral do cartório com o número de telefone já cortado a caneta. Isadora leu tudo em voz baixa e viu o mapa inteiro se montar no papel. Clara fora tirada da ilha com papel assinado, guardada em São Bento e depois levada para outro endereço antes que pudesse falar com alguém de fora. Miguel puxou a cadeira da recepção e se sentou por um segundo, sem soltar os documentos. A mão dele encostou de leve no joelho de Isadora quando ela se inclinou para conferir a última data. Foi um toque breve, discreto, daqueles que carregam apoio sem chamar o resto da sala.
Antes que Heitor saísse com o livro de protocolo, o telefone do cartório tocou três vezes seguidas. A senhora do balcão atendeu, ouviu só o primeiro nome e empalideceu. Passou o aparelho para o tabelião sem tirar os olhos de Isadora. Marta queria a devolução imediata do livro e dizia que a família tinha decidido resolver tudo por conta própria no lago. Heitor pegou o telefone da mão do homem e respondeu que os papéis já tinham sido entregues à polícia da cidade. Não era verdade. Ainda assim, funcionou o bastante para fechar a boca do outro lado por alguns segundos. Miguel recolheu a pasta, Isadora guardou a cópia da procuração contra o peito e os três saíram pela porta lateral enquanto o som da ligação ainda batia no balcão.