O Depósito de Barcos A Noiva do Lago · Capítulo 7 de 16
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O Depósito de Barcos

O corredor lateral terminou num depósito estreito, feito de tábuas antigas e rede de pesca dobrada sobre ganchos enferrujados. Miguel empurrou a porta com o ombro, colocou Isadora para dentro primeiro e fechou logo atrás. O vidro da casa principal estilhaçava em algum ponto distante, mas o barulho chegava abafado, misturado ao ronco de motor e aos gritos de gente chamando Heitor pelo lado de fora. Isadora apoiou a lanterna na bancada, respirou uma vez e varreu o espaço com os olhos. Havia dois barcos pequenos virados de boca para baixo, um armário de metal com cadeado quebrado e uma mesa de madeira coberta por lona azul. Miguel se agachou, puxou a lona pela borda e encontrou uma caixa seca, prensada entre coletes salva-vidas velhos e uma corda grossa. Dentro, havia mais um envelope de Davi, um mapa rabiscado à mão e uma chave curta com fita amarela enrolada no cabo.

Isadora abriu o envelope primeiro. Davi tinha escrito o nome dela por extenso, com a letra inclinada para a direita e um traço mais fundo no final da última vogal. A folha dobrada trazia três endereços em Santa Lúcia, todos ligados a gente que aparecia nas margens da capela, do cartório e do trapiche. O segundo papel era uma cópia do registro de saída de Clara, assinada no dia anterior ao jantar dos Amaral, com destino a uma casa de apoio na cidade. A terceira folha era pior. Davi descrevia a ordem dada por Marta para tirar a irmã da ilha sem aviso, antes que alguém juntasse o dinheiro da fundação com os recibos da casa de vidro. Miguel leu por cima do ombro dela e ficou com a mandíbula dura. Não era só a morte dele que tinham tentado apagar. Também tinham deslocado Clara para longe de qualquer lugar onde pudesse falar.

O motor do carro no lado de fora voltou a roncar e depois cessou. Passos secos cruzaram o deck, pararam junto à porta do depósito e seguiram adiante sem abrir. Isadora apagou a lanterna com o polegar, deixando a sala só com a luz pálida que entrava pelo vão da parede. Miguel puxou a caixa para perto do peito e guardou o mapa dentro da camisa. Os dois ficaram imóveis por um instante, ouvindo a madeira ranger acima deles. Foi quando Heitor entrou pela porta dos fundos, o rosto marcado por um corte novo na testa e a mão esquerda enfaixada com um pano já sujo de sangue seco. Ele fechou atrás de si com o pé, apoiou as duas mãos na bancada e falou sem rodeio que Marta tinha mandado gente para varrer a casa, mas não tinha achado o compartimento debaixo da escada.

Heitor pediu água. Miguel entregou a garrafa sem tirar os olhos dele. Isadora ficou de pé ao lado da mesa, segurando o envelope de Davi contra o peito, e exigiu a verdade sobre a saída de Clara. Heitor bebeu um gole curto, sentou numa cadeira torta e contou que a irmã fora levada para a cidade com um documento de hospedagem já assinado, sob a desculpa de um exame e de uma visita à tia. Na prática, Marta queria Clara longe do lago até o casamento ser fechado com papel e testemunha comprada. Heitor disse ainda que Davi descobrira a troca de destino e tentou barrar a ordem, por isso desaparecera do jantar. O nome de Davi, ali, não vinha como lembrança. Vinha como o único homem da família que tinha tentado parar a mão que guiava os outros.

Miguel abriu o mapa rabiscado e reconheceu a marca de um segundo anexo, atrás da capela velha, perto do muro que descia para o cais. A anotação de Davi indicava que ali havia uma gaveta falsa usada para guardar recibos e fitas, uma espécie de saída de emergência para quem não queria deixar papel na casa de vidro. Isadora guardou os envelopes um por um, alinhados dentro da bolsa, e percebeu que Heitor observava os movimentos dela com uma seriedade tensa. Ele então tirou do bolso interno da camisa uma fita cassete menor, embrulhada em papel manteiga, e disse que aquilo ficara no carro de Davi no dia do sumiço. A gravação era curta, feita às pressas, e trazia apenas duas frases. Uma sobre a assinatura de Clara já estar pronta antes do noivo chegar. Outra sobre Marta querer a família inteira presa no mesmo erro.

O barulho de sirene subiu pela estrada de terra e cortou a noite em dois. Isadora congelou com a fita na mão. Heitor foi até a fresta da porta e olhou por um segundo, depois fez sinal para todos se abaixarem. As luzes azuis passavam pelo vidro da casa principal e varriam o depósito em pulsos curtos. Miguel recolheu o papel do cartório, dobrou com cuidado e entregou a Isadora. Disse que precisava sair dali com as provas antes que a polícia de Marta chegasse primeiro. Heitor assentiu, mas explicou que não havia tempo para os três fugirem juntos pelo mesmo caminho. Havia uma trilha de serviço atrás dos barcos que levava ao cais antigo, e outra saída menor, por trás da oficina, que terminava junto à estrada.

Isadora escolheu a bolsa com os envelopes. Miguel pegou o mapa, a fita e o papel do cartório. Heitor ficou com a lanterna apagada na mão e apontou para a porta dos fundos. Antes de sair, ele parou por um segundo e disse que Davi tinha deixado a chave amarela porque o último lugar onde Marta pensaria em procurar seria justamente o depósito onde os barcos velhos apodreciam sem dono. A frase ficou no ar enquanto os três saíam em silêncio. Do lado de fora, o lago devolvia o brilho curto das sirenes e o vento trazia cheiro de sal, lama e gasolina. Quando chegaram ao primeiro degrau do cais, Isadora virou o rosto e viu, entre as frestas da casa principal, uma silhueta de mulher parada diante do vidro partido. Marta já estava na ilha.

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