O Cais Velho
O caminho de serviço terminou no cais velho, um corredor de madeira torta que avançava sobre a água escura e batia de leve contra os pilares a cada onda curta do lago. Miguel parou primeiro, olhou para trás e contou três luzes ainda acesas na casa principal. Isadora veio logo atrás, com a bolsa apertada contra o corpo e os envelopes de Davi escondidos sob a camisa. O som de gente correndo do outro lado da mata já tinha sumido, mas o cheiro de fumaça ainda vinha no vento. Heitor os alcançou minutos depois, sem a lanterna, com o casaco aberto e a mão esquerda coberta por um pano limpo demais para aquele tipo de noite. Ele apontou para o último barracão do cais e disse que Davi usava o lugar para guardar peças de motor, recibos e uma caixa menor com nome que não podia ficar na casa de vidro.
A porta do barracão abria para dentro e rangia só até a metade. Miguel empurrou com o ombro, esperou a resposta do ferro e entrou primeiro. O espaço tinha cheiro de graxa, corda molhada e madeira queimada pelo sol. Havia uma bancada estreita, duas ferramentas penduradas num prego torto e uma estante com potes de vidro cheios de parafusos separados por tamanho. No fundo, sob uma lona escura, Isadora encontrou a caixa menor que Heitor citara. A tampa vinha presa por um elástico vermelho e por dentro havia uma fita de gravador, duas fotos de Clara sorrindo no trapiche e um recibo de saída do cartório com o nome de Marta riscado à caneta. Miguel colocou a fita no bolso antes mesmo de perguntar o que mais podia haver ali.
Heitor não esperou a pergunta. Disse que Davi percebera o plano cedo demais e passou a usar o cais para mandar provas à cidade por intermédio de um pescador que fazia a travessia duas vezes por semana. A firma no recibo do cartório era o sinal de que Marta já tinha tentado encerrar a história sem deixar caminho para Clara voltar. Isadora leu o nome da irmã no verso de uma foto e viu, no canto da imagem, a sombra de um carro branco estacionado atrás de uma pilha de redes. Miguel se inclinou sobre a mesa, comparou a placa do veículo com a anotação de Davi e encontrou a mesma sequência de letras num papel da capela. Isso ligava o cartório, o lago e o barracão na mesma linha de mão.
Antes que Heitor completasse a explicação, um clarão varreu a janela do barracão. Os três congelaram. Um carro grande parou no acesso ao cais e desligou os faróis sem sair do lugar. Isadora reconheceu o perfil da motorista pela silhueta no vidro escuro. Marta Amaral. A voz dela veio logo depois, baixa e firme, chamando Heitor pelo nome completo e pedindo que ninguém saísse da margem sem entregar as fitas. Miguel apagou a luz interna do barracão e puxou Isadora para o canto da bancada. O toque foi rápido, mas a mão dele ficou ali um segundo a mais no pulso dela, firme o bastante para dizer que sair juntos era agora a única escolha possível.
Heitor abriu uma porta lateral que dava para um corredor estreito entre o barracão e o muro de pedra. Disse que aquela passagem levava à oficina dos barcos pequenos, onde havia um rádio antigo e um telefone com linha ainda viva por causa das entregas de combustível. Isadora enfiou os envelopes de volta na bolsa, Miguel guardou a fita na camisa e os dois seguiram atrás de Heitor com passos curtos para não denunciar a madeira. Do lado de fora, Marta já gritava para alguém procurar a chave do depósito. O nome de Davi vinha repetido na voz dela como ordem e ameaça ao mesmo tempo. Heitor não respondeu. Apenas abriu a porta menor da oficina e empurrou os dois para dentro antes que o primeiro homem alcançasse o cais.
A oficina tinha uma mesa de metal, um rádio de pilha, três cadeiras vazias e um armário com o vidro quebrado no canto inferior. Miguel vasculhou a prateleira, encontrou um bloco de pedidos antigo e uma ficha com o nome de Clara marcado na semana da sua saída da ilha. A ficha trazia um endereço de hospedagem em São Bento e o contato de uma enfermeira chamada Vânia. Isadora leu o papel em silêncio e sentiu a própria cabeça virar outra coisa. Clara não tinha sido levada para descanso nem para proteção. Tinha sido escondida. Heitor confirmou com um aceno curto, olhando para a porta, e disse que Davi tentou buscar a irmã na cidade duas noites depois, mas voltou sem ela e com a roupa rasgada na lateral.
O rádio chiou sozinho antes de qualquer mão tocar o botão. Miguel girou o volume e escutou um sinal curto, depois uma voz feminina pedindo para não ligar para o número do cartório, porque Marta já estava com a lista de chamadas em mãos. A mensagem terminava com uma frase de Clara, dita depressa, quase sem respirar. Ela dizia que sabia onde Davi tinha escondido a segunda cópia dos papéis e que a chave ficava com a pessoa que sempre deixava a janela da cozinha aberta para o lago. Isadora entendeu na hora. Era a tia de Heitor, a única pessoa da casa que ainda alimentava os peixes ao amanhecer e chamava Davi pelo nome sem desviar o rosto.
Do lado de fora da oficina, o motor do carro de Marta voltou a pegar. Heitor apagou o rádio e mandou os dois seguirem até a casa da tia antes que ela fechasse a saída do cais. Isadora recolheu a ficha de Clara, enfiou dentro da bolsa e olhou para Miguel, que já segurava a fita com a mão fechada. Não houve tempo para dúvida. Os três saíram pela porta dos fundos e tomaram rumos curtos entre os barcos virados, enquanto a voz de Marta cruzava o pátio e chamava os homens para a margem. Quando Isadora virou a cabeça pela última vez, viu a mão de uma mulher surgir na janela do carro e bater duas vezes no vidro. Não era um aviso. Era a chegada de quem vinha buscar o resto da noite.