O Mandado A Noiva do Lago · Capítulo 13 de 16
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O Mandado

O delegado saiu do posto com a pasta de documentos sob o braço e pediu que ninguém se afastasse antes da leitura completa do registro. Isadora ficou no banco de madeira da sala de espera ao lado de Tereza, com Miguel de pé perto da porta e Heitor encostado na parede, o rosto ainda marcado pela noite longa. Marta continuava do lado de fora, na calçada, acompanhada do advogado e de um motorista que não tirava a mão da chave do carro. A presença dela já não bastava para empurrar os outros para trás. A cópia da procuração, a carta de Clara, a ficha da casa de apoio e o formulário do cartório estavam agora sobre a mesa do delegado, um sobre o outro, sem espaço para sumiço elegante.

O homem leu os nomes um por um e chamou Vânia para confirmar a origem de cada folha. A enfermeira entrou com o jaleco preso por um só botão e repetiu diante de todos o que já tinha dito no posto de saúde. Clara chegou machucada, sem telefone, sem escolha visível e com medo de voltar para a ilha. Davi foi à casa de apoio de madrugada, deixou a carta e pediu que o envelope ficasse guardado até alguém da família menor aparecesse para buscar a irmã. O delegado anotou a frase, virou o papel da fundação e viu a assinatura de Marta na linha de autorização do deslocamento.

Quando Marta foi chamada para entrar, o corredor inteiro pareceu apertar. Ela avançou com o advogado ao lado, trouxe o olhar reto para Isadora e disse que tudo aquilo podia ter sido manipulação de parentes magoados. O delegado pediu que ela falasse sentada. Marta recusou, colocou a pasta na mesa e afirmou que Clara saíra da ilha por segurança, porque Davi andava obcecado com notas e recibos que não entendia. Miguel levantou a cópia do livro de protocolo do cartório e mostrou a data em que a autorização de viagem foi recebida. Era anterior ao jantar do lago. A explicação dela perdeu chão ali.

Heitor então tirou do bolso a fita amarela recebida da tia e entregou ao delegado sem encostar em mais ninguém. Explicou que o gravador tinha sido encontrado na oficina dos barcos, junto com a carta de Clara e a cópia do recibo da pousada em São Bento. O delegado pediu o aparelho do posto e mandou tocar a fita na presença de todos. A voz de Clara entrou baixa, cansada e firme. Ela dizia que não tinha ido embora por vontade própria, que Marta tomara seu nome como moeda, e que o casamento fora fechado antes de o primeiro papel chegar ao cartório.

Marta tentou interromper a gravação, mas o delegado ergueu a mão e mandou o silêncio voltar. O advogado dela pediu vista dos papéis e recebeu a resposta seca de que o inquérito já tinha sido aberto. Em seguida, o homem assinou o mandado de apreensão da casa de vidro, da oficina do cais e da pasta de documentos que seguia com Marta. O nome de Clara ficou anotado como vítima protegida, e o de Davi passou a constar como testemunha anterior ao desaparecimento. Isadora ouviu aquilo sem se mover, apenas apertando a alça da bolsa, porque a peça principal já estava fora da mão da família.

Quando o delegado saiu para entregar o mandado a um policial na rua, Marta desabou num banco de metal e passou a mão pelo rosto uma vez só. Não houve choro, nem grito, nem cena. Houve uma espécie de queda limpa, dessas que deixam os ossos de quem observa mais atentos do que antes. Miguel sentou ao lado de Isadora por um segundo e tocou o punho dela com a lateral dos dedos, um gesto curto que dizia apenas que o pior estava em curso e que ainda faltava o nome de Clara no lugar certo. Tereza, sem baixar a voz, avisou que a irmã viria para São Bento no carro da delegacia antes do fim da tarde.

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