A Carta de Davi A Noiva do Lago · Capítulo 3 de 16
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A Carta de Davi

Miguel não falou no nome de Davi por alguns segundos. Ficou olhando para a fotografia antiga com o mesmo cuidado de quem segura uma peça que pode cortar os dedos. Isadora manteve a lanterna apontada para o rosto dele e esperou a parte que sempre vinha depois, a explicação, o silêncio ou a mentira. Miguel guardou a foto no bolso interno da camisa e disse que Davi não era um estranho dentro da família, nem um visitante de fim de semana. Era o irmão mais novo de Heitor, o único que ainda se aproximava das bordas do lago sem pensar em prestígio antes de pensar em água. Isadora perguntou por que ninguém falava dele. Miguel respondeu que, em Santa Lúcia, os mortos que sabem demais viram assunto proibido antes mesmo do velório terminar. A frase saiu baixa, seca, sem enfeite. Ela guardou a raiva para depois, porque a capela ainda guardava uma quantidade maior de poeira e mala de noiva.

Saíram da capela quando o céu já começava a perder a cor. Miguel fechou a porta, devolveu a chave ao bolso e chamou a viatura de apoio sem acionar sirene. Não queria gente demais perto da casa dos Amaral antes de saber o que havia na mala branca. Isadora entrou no carro em silêncio, com a fotografia de Clara apoiada na palma da mão e o bilhete dobrado dentro da carteira. O caminho até a casa principal passou por árvores altas, muros de pedra e cercas novas, sempre com o lago aparecendo e sumindo entre curvas. A cidade de Santa Lúcia parecia sempre decidida a esconder coisa importante atrás de varanda bem pintada. Isadora olhou para a janela e viu o reflexo de Miguel dirigindo com os olhos fixos na estrada, a mão firme no volante e o maxilar travado do mesmo jeito de quando tinham dezessete anos e fingiam que não se conheciam por dentro.

A casa dos Amaral ficava no alto de uma colina baixa, com varanda larga, iluminação discreta e janelas fechadas por dentro. Heitor não estava. Uma funcionária antiga recebeu Miguel sem surpresa, porque delegados naquela cidade atravessavam portas de mansinho ou com ordens oficiais, nunca com visita casual. A moça reconheceu Isadora, baixou os olhos e fingiu que não lembrava da última vez em que ela saíra dali de mãos dadas com Clara, anos antes do desaparecimento do pai. Miguel pediu a chave do corredor leste. A funcionária trouxe sem perguntar. Isadora percebeu que a casa inteira já esperava por algum desfecho e odiou a sensação de que ninguém ali se espantava de verdade com a morte da noiva.

O quarto de Davi ficava no final do corredor, com porta de madeira escura e uma tranca simples que Miguel abriu usando a chave encontrada no envelope de Clara. Isadora entrou primeiro. Havia estante de livros, roupas cobertas por lençol, um violão sem corda, caixas de papelão e um cheiro leve de tabaco guardado em armário fechado. Sobre a escrivaninha, uma agenda de capa verde mostrava a data da morte de Davi marcada com uma linha grossa. Isadora abriu a gaveta sem esperar o pedido de Miguel e encontrou envelopes amarrados com barbante, um caderno de notas e uma fita cassete dentro de caixa metálica. O nome dela aparecia em duas cartas, sempre acompanhado de um aviso para não confiar em ninguém da varanda principal. Miguel leu o aviso por cima do ombro dela e ficou parado, rígido, sem tocar em nada.

A primeira carta era de Davi. Escrita na pressa, com a letra inclinada para a direita, dizia que Clara não estava segura e que Heitor queria o casamento para apagar uma dívida antiga deixada no lago. A segunda carta era de Clara. Falava de encontros às escondidas perto da rampa de barcos, de uma conversa com Marta Amaral sobre um documento assinado por Augusto Brandão e da certeza de que alguém tentava fazer o casamento servir de tampa para uma fraude maior. Isadora sentou na beira da cama sem tirar os olhos do papel. A presença de Clara ali, viva em linhas tortas, doeu com uma nitidez que a morte não tinha conseguido alcançar. Miguel ficou de pé ao lado da escrivaninha, lendo o caderno, e a expressão dele mudou ao encontrar o nome de um depósito particular ligado à família Villar em duas páginas consecutivas.

Isadora perguntou o que Miguel sabia naquela noite em que Davi morreu. Ele não respondeu logo. Caminhou até a janela, afastou a cortina e ficou olhando para o lago, onde a água já parecia negra. Depois disse que Davi telefonara para ele pouco antes da meia-noite, pedindo ajuda para sair da casa sem chamar atenção. Miguel foi até a estrada, encontrou um carro parado perto da cerca e ouviu barulho de vidro quebrando perto do trapiche. Quando chegou à beira da água, Davi já tinha desaparecido. A polícia registrou queda. A família Amaral registrou silêncio. Isadora fechou a mão sobre a carta com tanta força que amassou o canto do papel. Perguntou por que ele nunca contou tudo isso. Miguel virou devagar. Disse que a família dele comprou a versão oficial antes que a cidade acordasse, e que, se tivesse aberto a boca sem prova, teria dado a Heitor um motivo para destruir qualquer um que chegasse perto demais.

A fita cassete trazia uma etiqueta com a palavra margem. Miguel encontrou um pequeno aparelho antigo no armário e a fez girar entre os dedos até encaixar. O chiado veio longo, depois uma voz masculina, fraca e ofegante, falando o nome de Clara e pedindo que alguém procurasse Isadora caso ele não voltasse. A gravação cortava em pedaços, porém citava a capela, a mala branca e a frase que Isadora já conhecia do bilhete. Não deixe mamãe entregar o vestido. Miguel ficou sem respirar por um segundo completo. Isadora percebeu isso e ficou olhando para ele, sem a promessa fácil de perdoar. A voz no aparelho continuou, citando uma reunião no cais e um papel assinado por Marta Amaral na presença de Heitor. Antes que a gravação terminasse, uma pancada forte veio do corredor e os dois se calaram de imediato.

Miguel apagou a luz da escrivaninha e puxou Isadora para o lado da porta, sem abraço e sem beijo, apenas o gesto rápido de quem aprendeu a proteger primeiro e explicar depois. A pessoa do corredor não entrou. Deu mais uma batida e foi embora. Quando o silêncio voltou, Isadora percebeu a mão de Miguel ainda presa de leve no pulso dela. Ele soltou devagar, notando o que aquele contato queria dizer. Isadora pegou a carta de Clara, enfiou o caderno na bolsa e decidiu que não sairia dali sem a verdade inteira. Miguel concordou em ir até o trapiche de Davi ao amanhecer. Na varanda lateral, antes de descerem, Isadora sentiu alguém observando da janela do andar de cima. Quando virou o rosto, a cortina já tinha se movido. Não deu para ver quem estava ali. Só ficou claro que a casa também os tinha escutado.

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