O Último Registro
Na manhã seguinte, o delegado voltou para a casa de vidro com a ordem de apreensão já assinada e uma equipe menor para catalogar o restante do material. Marta permanecia na delegacia desde a noite anterior, sem acesso ao advogado durante a madrugada e sem a confiança que costumava mandar nos passos alheios. Isadora entrou na sala de jantar acompanhada de Clara, Miguel, Heitor e Tereza. O lago batia baixo no deck, e a moldura azul já estava fora da parede, apoiada sobre a mesa junto da pasta de prova. O delegado abriu o último envelope, conferiu a cópia de São Bento, a carta de Davi, a ficha da casa de apoio e o recibo da fundação. Não havia mais peça escondida atrás de quadro algum. O caso inteiro estava ali, disposto em papel e assinatura.
O homem leu a sequência final em voz alta para que Clara ouvisse o próprio nome preso à papelada que a mantivera distante da ilha. Em seguida registrou a suspensão imediata de qualquer ato da família Amaral ligado à fundação, ao cartório e à casa de vidro. A empresa de fachada citada no recibo foi encaminhada para bloqueio, e o tabelião de São Bento foi intimado a prestar esclarecimento ainda naquele dia. Miguel ficou ao lado da mesa com os dedos fechados sobre a cadeira e observou Isadora receber a cópia da carta de Davi já carimbada para anexação. O nome dele, enfim, passava de ausência a registro.
Clara pediu para entrar na sala de jantar vazia antes que a equipe saísse. Quis ficar sozinha com Isadora por alguns minutos, no mesmo lugar onde a família tentou assinar o futuro dela sem contar a verdade inteira. As duas ficaram diante da janela de vidro olhando o lago, agora sem a pressa que havia marcado as noites anteriores. Clara contou que pensou em desistir várias vezes, mas a carta de Davi, o papel da casa de apoio e a voz da enfermeira em São Bento impediram a desistência de virar rotina. Isadora segurou a mão da irmã sem dizer nada, apenas porque naquele ponto já não existia espaço para mais justificativa.
Quando saíram para a varanda, Miguel esperava ao lado da porta com o boné na mão e a pasta preta encaixada sob o braço. Disse a Isadora que o relatório final seguiria com ele para a delegacia e que as cópias de Clara ficariam sob guarda até a audiência do juiz. A frase saiu firme, curta, sem enfeite. Heitor, parado perto da escada, assentiu e olhou para a rua vazia, onde o carro de Marta havia desaparecido antes do amanhecer. Tereza chamou todos para a cozinha e serviu café em canecas diferentes, uma para cada nome que tinha atravessado aquela história. Era a primeira vez que a casa servia café sem esconder documento dentro do fogão.
Mais tarde, com a equipe já recolhida e o delegado de saída, Isadora ficou na cozinha para devolver a Tereza o boné usado pela manhã. Miguel entrou logo depois, fechou a porta de tela com cuidado e parou perto da mesa, olhando para ela com a mesma atenção que vinha guardando desde a estrada do lago. Não houve palavra grande nem promessa fora de hora. Ele apenas tomou a mão dela por um instante, deixou o polegar descansar sobre os dedos e esperou que ela respondesse no mesmo ritmo. Isadora sustentou o olhar e não recuou. Depois soltou um ar comprido, pegou a xícara de café já morna e bebeu um gole, sem esconder que aquele gesto simples valia por muito. O beijo veio depois, curto e certo, sem pressa de virar anúncio.
No fim da tarde, Clara partiu para São Bento com a tia, porque ainda precisava de exame, assinatura final e descanso longe da casa que tentou prendê-la em silêncio. Heitor ficou para fechar o portão da varanda e guardar os últimos papéis no envelope de prova. Isadora e Miguel caminharam até o deck quando o céu já escurecia sobre o lago. A madeira rangia pouco, o vento vinha morno, e a água devolvia a luz da casa sem a crueldade de antes. Isadora olhou para a fachada de vidro, depois para Miguel, e soube que a história tinha chegado ao ponto em que cabia seguir. O caso estava encerrado. A vida, não. E, pela primeira vez desde a chegada ao lago, isso pareceu justo.